Um dos debates mais curiosos desta série de confrontos televisivos foi o que colocou frente a frente André Ventura e Henrique Gouveia e Melo. Não só pela prestação surpreendente – por motivos diferentes – dos dois debatentes, mas pela ‘presença’ de um adversário que não estava no estúdio, mas esteve sempre lá: Luís Marques Mendes.
A fazer fé nas sondagens, dois destes três candidatos vão à segunda volta. À esquerda, talvez nem a desistência de alguns candidatos seja já suficiente para garantir que António José Seguro vai à segunda volta, o que deixa a corrida presidencial entregue a dois candidatos da direita e a um que diz ter uma perna em cada lado do espetro político.
André Ventura entrou para o debate com Henrique Gouveia e Melo convencido de que tem a passagem à segunda volta garantida. E decidiu, por isso, que estava na hora de escolher qual o adversário que prefere ter numa segunda volta.
Com mais uma sondagem que o coloca na frente da corrida presidencial, o candidato do Chega deixou o bulldozer estacionado à porta da RTP e decidiu entrar com pezinhos de lã. Não que lhe faltassem temas para cilindrar o adversário, mas porque Ventura considerou que essa estratégia não era a que melhor lhe servia naquela ocasião.
Tentou colar, claro, Gouveia e Melo ao PS, recordou-lhe as referências a Mário Soares, mas deixou de fora toda a lama que normalmente costuma atirar à cara dos adversários de uma forma implacável. Até quando fez referência a José Sócrates, André Ventura foi compreensivo com o incómodo do adversário.
É verdade que Henrique Gouveia e Melo entrou bem neste debate. Estava mais solto, mais confiante, menos agarrado aos papéis e mais assertivo do que nunca. O à vontade era tanto que até tratou o oponente pelo primeiro nome e quase o travava por tu.
Mas a grande questão que sobra de um dos duelos mais aguardados destas presidenciais é esta: porque é que Ventura quis poupar Gouveia e Melo?
Mais uma vez, a resposta pode estar nas sondagens. A queda vertiginosa – e expectável – de Henrique Gouveia e Melo nos estudos de opinião abre a porta a uma segunda volta entre Ventura e Marques Mendes. O ‘sistema’ contra o ‘antissistema’.
Que André Ventura não quer ser Presidente da República, mas primeiro-ministro, não é do domínio da opinião, é do domínio dos factos. Esta campanha presidencial tem servido como uma espécie de primárias das próximas legislativas, aconteçam elas quando acontecerem. Foi o próprio candidato do Chega que apontou como fasquia passar à segunda volta, sabendo que, uma vez lá chegado, já o admitiu, será muito difícil vencer ‘o sistema’.
As sondagens mostram isso mesmo: Ventura perde numa segunda volta para qualquer adversário, até contra António José Seguro. Por isso, a melhor forma de derrotar ‘o sistema’ é fazê-lo já na primeira volta. E, para isso, é preciso tentar impedir Marques Mendes de ir à segunda.
Uma passagem de Henrique Gouveia e Melo e de André Ventura à segunda volta pode significar duas coisas: não só que Ventura conseguiu segurar o eleitorado que lhe deu 60 deputados nas últimas legislativas, mas também que Gouveia e Melo conseguiu roubar eleitorado suficiente ao PSD e ao PS. Neste cenário, o ‘antissistema’ ganha sempre ao ‘sistema’, mesmo que Ventura não venha a ser Presidente da República.
A confirmar-se esta teoria – a campanha eleitoral pode vir a ser muito elucidativa a este propósito –, André Ventura não está apenas a tentar escolher quem passará com ele à segunda volta. Está a tentar escolher quem será o próximo Presidente da República. Uma derrota de Marques Mendes será sempre uma derrota de Luís Montenegro, que passará a ter em Belém um Presidente que, claramente, não morre de amores pelo atual primeiro-ministro. E tudo o que desgaste o Governo é caminho aberto para o Chega.
Se o tiro pode sair pela culatra a André Ventura? Pode. Mas o que é que ele tem a perder? Nada. Desde que passe à segunda volta, Ventura sairá sempre vencedor.