sexta-feira, 06 fev. 2026

Os socialistas de direita

Retórica de direita, políticas cada vez mais de esquerda. É esta a estratégia do Chega para crescer eleitoralmente, e a ver pelas últimas legislativas surtiu efeito. 

Nos seus diferentes matizes mais ou menos extremados, o socialismo é a ideologia política da esquerda, esquerda essa que nasce do Iluminismo e da Revolução Francesa. Para os mais revolucionários, numa versão adornada pelo materialismo histórico de Marx; para os menos, numa versão democrática temperada pelos socialistas fabianos e por Bernstein. Em comum, Rousseau e uma retórica igualitária: a crítica à propriedade privada como origem das desigualdades, desigualdades essas que seriam a raiz de todos os males do mundo.

Para lá da sua dimensão política e cultural, o socialismo tem também uma dimensão económica. E aqui a fronteira partidária desloca-se. Se, enquanto ideologia política, o socialismo foi sempre um couto da esquerda, já enquanto visão económica – que encara as relações económicas voluntárias entre pessoas como subordinadas a um desígnio político coletivo – encontra um fértil reduto também em algumas direitas.

Esta visão socialista das relações económicas – profundamente iliberal, refira-se – assenta em três pilares: i) uma desconfiança estrutural do mercado; ii) a primazia do coletivo sobre a vontade individual; e iii) o Estado enquanto instrumento de coordenação, planeamento e controlo da atividade económica.

Na sua versão tradicional, implica a posse pública dos meios de produção. Numa versão light, o dirigismo estatal desses mesmos meios.

Se muitos dos partidos da direita populista perfilhavam de uma base económica liberal aquando da sua fundação, o alargamento da sua base eleitoral obrigou-os a adoptar bandeiras programáticas que falassem também ao eleitorado à esquerda. Ora, obrigou-os a tornarem-se socialistas no plano económico.

Em França, a Frente Nacional abandonou por completo o pouco liberalismo económico que comungava, fazendo agora defesa férrea do protecionismo económico (uma posição bastante francesa, convenhamos) enquanto alternativa ao livre comércio por forma a proteger a produção nacional – mesmo que à custa dos consumidores franceses. A FN defende também a subordinação do mercado aos interesses nacionais, assim como o controlo de empresas ditas ‘estratégicas’. O socialismo fala de classes, esta direita fala de nação, mas o instrumento económico é o mesmo: o poder político a dirigir a economia.

Já em Portugal, o Chega está a fazer exatamente o mesmo caminho. Em 2019, propunha a privatização das escolas e dos hospitais públicos. Hoje, aproxima-se cada vez mais das políticas económicas do Partido Socialista, onde aliás foi buscar centenas de milhares de votos, e ainda vota ao lado deste.

Senão vejamos. Depois de ter sido contra a nacionalização da TAP, o Chega é agora a favor do controlo público da TAP. O argumento oficial é o de que é importante ter a bandeira de Portugal nos céus (uma versão alada do nacional-provincianismo), o oficioso é a proximidade do sindicato dos pilotos ao partido. O mesmo Chega que em tempos idos propôs a criação de uma intersindical, aparece agora ao lado das outras intersindicais, como a CGTP e a UGT, a defender ‘o descontentamento geral’ e a criticar a reforma laboral.

E não é apenas em matéria laboral que o Chega aparece ao lado do PCP. Depois de ter defendido mais impostos sobre a banca (só faltou apelidá-la de grande capital), na semana passada votou a favor das propostas da extrema-esquerda para o aumento do salário mínimo para valores incomportáveis no curto-prazo, incluindo a do PCP que propunha um aumento de 870 para 1050 Euros – 20% num só ano. Como se isto não bastasse, votou novamente ao lado da esquerda para impedir um aumento anual de 13 Euros das propinas, um valor perfeitamente comportável para as famílias e que assegura financiamento e autonomia às universidades.

Retórica de direita, políticas cada vez mais de esquerda. É esta a estratégia do Chega para crescer eleitoralmente, e a ver pelas últimas legislativas surtiu efeito. O Chega quer agora planear a economia. Não o faz em nome da classe operária; fá-lo em nome da nação. Serve o partido, não serve o país. Até porque já chega um partido socialista, não são precisos dois.