À terceira foi de vez. José Antonio Kast é o novo Presidente do Chile, deixando pelo caminho a comunista Jeanette Jara. A direita volta assim ao poder no país através de uma plataforma que continua a apresentar resultados nas Américas, numa eleição que confirma a tendência eleitoral da região.
Entre elogios e críticas, Kast junta-se assim ao leque de governantes americanos pertencentes, de uma forma ou de outra, a uma internacional conservadora num continente onde o Foro de São Paulo – uma entidade que junta a esquerda da América Latina criada em 1990, quando a queda da União Soviética já se previa inevitável – tem sido dominante.
A eleição
As mais recentes eleições presidenciais chilenas foram pioneiras. Pela primeira vez, a escolha do Presidente do Chile teve o voto obrigatório como pano de fundo e foi um dos atos eleitorais mais participados do país (85,3%), ficando apenas atrás do plebiscito de saída do primeiro processo constituinte de 2022 (86%) e das eleições presidenciais e parlamentares de 1989 (86,8%), de acordo com o Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica (CELAG). Na primeira volta, a vitória sorriu à esquerda, com Jara, a candidata do Partido Comunista, a conquistar cerca de 3,5 milhões de eleitores (26,75%). Kast conquistou pouco mais de 3 milhões de votantes (23,69%), um número suficiente para selar a sua passagem à segunda volta.
Mas o sorriso da esquerda na primeira volta foi envergonhado. Com apenas 30% dos votos, já com os votos de Marco Ominami, Harold Maine-Nicholls e Eduardo Artés somados aos de Jara, seria necessária uma espécie de milagre eleitoral para que a comunista chegasse ao mais alto cargo da nação chilena, uma vez que a percentagem de votos conquistados pelo grupo da direita chegou aos 50,33%. Milagre é provavelmente a palavra mais adequada para descrever uma possível vitória de Jara na segunda volta, uma vez que, mesmo conseguindo captar todos os votos de Franco Parisi, candidato independente que ficou em terceiro lugar com 19,8% e que poderia funcionar como kingmaker no «balotaje», algo extremamente improvável, a vitória continuaria a cair nas mãos de Kast. Por outro lado, se o candidato da direita conseguisse captar todos os votos de Parisi, chegaria aos 70,13% e protagonizaria a maior vitória eleitoral da direita, e por larga margem, desde que conquistaram 57,2% em 1946, nota a CELAG.
A esquerda, com Jara à cabeça, deixou fugir uma parte decisiva do eleitorado que, em 2021, havia sido conquistado por uma esquerda encabeçada por Gabriel Boric, que conseguiu à data, e em conjunto com Ominami, Artés e Yasna Provoste, 46,5% dos votos e, consequentemente, a presidência do país na segunda volta.
O milagre não aconteceu, e a segunda volta decorreu como esperado. José Antonio Kast somou 58,2% dos votos e é, assim, o novo Presidente chileno. A transição está a decorrer com normalidade e o comunicado de Boric demonstra que o espírito democrático chileno está de boa saúde. «Seguindo a tradição republicana que nos orgulha e honra», escreveu Boric na sua conta oficial da rede social X, «entrei em contacto com o Presidente eleito, José Antonio Kast, para apresentar os meus parabéns pela vitória obtida, que o tornará o próximo Presidente da República do Chile e, portanto, de todos os chilenos e chilenas». «Uma grande responsabilidade», continuou, «que deve ser assumida com muito carinho, humildade e, claro, trabalho». «Estarei sempre disponível para colaborar com o destino da nossa pátria», concluiu o trigésimo oitavo líder chileno.
No seu primeiro discurso após a vitória, Kast também não esqueceu a necessidade de união: «Um governo tem apoiantes e opositores, isso é normal. Temos divergências com Jeannette Jara. Podemos ter divergências difíceis, mas se a violência prevalecer, é muito difícil avançar». «Se vamos combater o crime organizado, precisamos de vocês também», disse. E a fórmula de Milei, que nunca escondeu as dificuldades que se avizinhavam para reconstruir o país, parece ter sido seguida por Kast, que admitiu não haver soluções mágicas porque «nem tudo muda da noite para o dia, mas as coisas podem melhorar».
O Chile atreveu-se
«Admirador de Pinochet», «extrema-direita» e «ultra-conservador» têm sido alguns dos rótulos colocados em Kast nos últimos tempos. No jornal britânico The Guardian, um título reconhecido pelo seu progressismo, o correspondente na América do Sul Tiago Rogero decidiu escrever o seguinte na entrada da sua peça sobre a vitória de Kast: «Filho de um membro do partido nazi e admirador de Pinochet, Kast construiu a sua campanha com a promessa de expulsar dezenas de milhares de migrantes sem documentos».
Kast escolheu «Atreve-te, Chile» como slogan de campanha, onde pede aos eleitores, entre outras coisas, que se atrevam a «viver em paz», a «governar melhor», a «defender a nossa soberania», a «defender o Chile», a «erradicar a corrupção», a «empreender sem barreiras», a «recuperar a nossa cultura» e a «travar a imigração ilegal». Os chilenos acederam ao pedido, não deixando que a posição que adotou no referendo de 1988, as filiações nazis do seu pai e as acusações que são mais ou menos uniformes quando um candidato da direita, seja ele de que ramo da direita for, chega ao poder influenciasse o seu sentido de voto. Foi assim com Javier Milei, com Jair Bolsonaro, com Donald Trump, com Nayib Bukele, figuras todas elas distintas, unidas apenas pela luta cultural constante contra a esquerda, pelo patriotismo e, por vezes, pelo nacionalismo.
Mas, a esta altura, a chegada da direita conservadora ao poder já não deveria causar tanta surpresa. Como escreveu o The New York Times, «a vitória de José Antonio Kast no Chile é mais um triunfo da direita global», uma vez que o «presidente eleito pertence a um movimento global de direita que ascendeu ao poder em todo o mundo ao dar prioridade à ordem pública rigorosa e ao fechamento das fronteiras». No final do dia, são estas as ideias e programas que gozam de maior popularidade um pouco por todo o mundo.
Desta forma, Kast é a mais recente aquisição da direita americana, que conta já com líderes numa parte significativa da América Central e do Sul, outrora bastiões do socialismo e do comunismo.