O presente de Natal para Luís Montenegro chegou a horas. Não houve atrasos nos Correios. O Procurador-Geral da República prometeu e cumpriu. O caso Spinumviva deixou de ser…caso. O primeiro-ministro vai poder ter uma consoada mais descansada. O assunto ainda irá servir de alimento a crónicas de jornais e comentários variados, mas acomoda-se agora na prateleira dos dossiers que acumulam o pó das inutilidades e frustrações, das inocências e das investigações inconsequentes ou deficientes.
O mais badalado episódio dos últimos tempos, no que respeita às lutas dentro do Ministério Público e aos braços de ferro de políticos e procuradores, com instrumentalização de jornalistas pelo meio, feitos peões, esvai-se no ambiente da fraternidade natalícia. Nada que não se pudesse prever, perante tanto arrastar de pés e tão longa espera pelo final do suspense. Procrastinar é uma coisa muito portuguesa. Tomar decisões, sobretudo em matérias que escaldam, constitui um verdadeiro Adamastor para quem tem de as assumir. Adiar é sempre preferível a resolver, mesmo que as especulações que a inacção permite inquinem todos os processos.
Um dia, alguém ainda me há-de explicar, tim tim por tim tim, porque se leva tanto tempo a chegar ao ponto final. Sem cartas guardadas na manga. O que é que o País ganha com isto? A resposta não é difícil, neste caso concreto: desprestígio da Justiça, fragilização do primeiro-ministro, enfraquecimento do Governo, descrença dos portugueses nas instituições, jornalismo incluído. É assim com Montenegro, continua a ser assim com António Costa, ainda a aguardar desfecho da Influencer. Este sistema permite todo o tipo de aberrações, até mesmo o de se acabar por acreditar que há, de facto, uma Justiça para ricos e outra para pobres. Veja-se o que se passa com José Sócrates, que se pavoneia habilidosamente para transformar a Justiça numa máquina de lavar ilegalidades e comportamentos condenáveis, jogando com prazos de prescrição.
Enfim, é o País que temos, com mais um Natal à porta, antecedido de uma greve geral desnecessária e em relação à qual fica a convicção de que poderia ter sido evitada, com mais ginástica por parte do Governo, já que – que me lembre - nunca patrões e sindicatos estiveram tão consonantes quanto à sua inutilidade. Se existem casos em que o diálogo não me parece uma palavra vã, o do pacote laboral é claramente um deles. Executivos sem maioria são obrigados a encontrar formas de entendimento, quando apontam para reformas ditas ‘estruturais’. Os protagonistas – nestas situações os autores dos projectos de mudança – necessitam perceber que não podem ignorar a realidade social. Há ministros claramente com falta de jeito e que já deram sobejas provas disso mesmo. Ainda por cima com um Parlamento tão fragmentado, como o que saiu das últimas eleições e em que o Chega é um partido que se move conforme o vento e cujas convicções se revestem da firmeza do açúcar que se dissolve num copo de água ou no café matinal. André Ventura não é, por tudo o que já se viu, o parceiro mais fiável. O seu processo de afirmação não passa por ser bengala de ninguém. Foi assim com o primeiro Governo de Montenegro. É assim com o segundo e há-de comportar-se do mesmo modo até sabe Deus quando. Monta um cavalo próprio, como se vê, na candidatura à Presidência da República, baralhando a lógica eleitoral. As indicações que saem das sondagens conhecidas não deixam margem a grandes dúvidas. Sabe que não se sentará na cadeira de Marcelo, mas aparentemente já ganhou a primeira batalha, a da confirmação como figura incontornável desta fase da vida do País. Não será, pois, dele que Luís Montenegro receberá muitos presentes neste Natal. Nenhum conseguirá ombrear com o do Procurador-Geral.
P.S. – O caso do adjunto da ex-ministra da Justiça do Governo de António Costa, detido por alegadas práticas de pedofilia, é monstruoso. Há alturas em que apetece mandar a moderação às urtigas e cair na tentação de reclamar castigos mais pesados para quem não é digno de viver em sociedade. Não chega ter mão pesada.
É preciso que seja mesmo muito pesada!