Seguro evita o passado socialista e tem discurso unificador, Ana Gomes fala das minorias socratistas e costistas.
«Afastei-me quando podia dividir, volto agora para unir» tem sido um dos mantras de António José Seguro, o candidato presidencial que tem em ‘O futuro constrói-se com todos’ um dos slogans de campanha e que se recusa a falar do passado. Mais do que isso, criou um discurso de múltiplas saídas para não ter de falar dos oito anos de governação socialista e, menos ainda, de António Costa. E, mesmo quando critica a falta de liderança e a fragilidade da Europa, protege o atual presidente do Conselho Europeu.
O candidato presidencial disse que o presidente do Conselho Europeu «nem sequer tem funções executivas», tendo como função «juntar os líderes dos vários Governos», ainda que «na medida do possível». Mas se «a senhora Meloni não quiser assinar o acordo do Mercosul, o que é que o presidente do Conselho Europeu vai fazer? Vai bater-lhe?». A afirmação foi feita esta quinta-feira (18), numa entrevista à Rádio Observador.
A expressão «vai bater-lhe» não é habitual no registo de Seguro, que se manteve controlado e quase irónico, apesar da insistência dos jornalistas em regressar ao seu passado político, aos Governos de Costa e às divergências internas no Partido Socialista. Ainda assim, nenhuma crítica saiu da boca do candidato a Belém.
O mesmo não se pode dizer de Ana Gomes, apoiante de António José Seguro desde a primeira hora. Na quarta-feira (17), também na Rádio Observador, a ex-eurodeputada foi bem mais expressiva. A propósito da Lei da Nacionalidade, falou da «deriva neoliberal» de que «o PS de Costa também enformou» e que está na origem da liberalização associada aos vistos gold e à chamada ‘venda da nacionalidade’.
Convidada a comentar o debate desta semana entre António José Seguro e Cotrim de Figueiredo, Ana Gomes disse que Seguro está «para agregar» à esquerda, ao contrário de Cotrim, que está para «dividir a direita». Bernardo Blanco, que debatia com Ana Gomes, lembrou que as sondagens indicam que Cotrim vale mais do que a Iniciativa Liberal, ao contrário de Seguro, que vale menos do que o PS.
O candidato apoiado pelo PS procura alargar a sua base eleitoral com vários argumentos, entre eles o de que ‘os ovos não devem estar todos no mesmo cesto’. Como é que se lida com esta teoria? Ana Gomes respondeu: «Como lidou Jorge Sampaio, como lidou Mário Soares, que são obviamente referências de Seguro, e como liderará Seguro, que, inclusivamente, teve a coragem — por isso é hoje alvo de oposição de setores minoritários do PS, da direção do PS, ligados aos ‘socratistas’ e aos ‘costistas’ — porque, justamente, Seguro estava a interpretar aquilo que são os valores e os princípios do Partido Socialista».
O Nascer do SOL sabe que estas palavras não caíram bem entre os socialistas, quer no Rato, quer na campanha presidencial de Seguro. Falámos com Ana Gomes, a quem perguntámos: Seguro colocou um vidro transparente entre o PS e o PS de António Costa, mas parece-nos que partiu esse vidro e os estilhaços atingiram o PS e o eleitorado de que Seguro precisa para ser eleito? Ana Gomes respondeu-nos: «Quem é realmente democrata e socialista, todo o campo da esquerda – a elite ‘socratista’ e ‘costista’ não representa o PS – votará convictamente em António José Seguro», considerando que é importante o reconhecimento dos erros cometidos numa governação que se deixou contaminar por teses neoliberais, que minam, entre outras coisas, o Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Tudo isto em ‘contra-narrativa’ com o que o candidato às presidenciais de janeiro de 2026 tem feito: de tudo, mesmo de tudo para evitar quaisquer críticas ao passado do partido e de outros dirigentes, tentando passar um pano limpo sobre divergências que o afastaram da vida política ativa durante uma década.
«Não, não vou fazer comentários sobre coisas do passado», reiterou na entrevista à Rádio Observador, quando confrontado com declarações feitas há 11 anos, durante as primárias socialistas de 2014, quando acusou Costa de ter entre os seus apoiantes pessoas associadas a uma promiscuidade entre política e negócios. Questionado se estava enganado, respondeu: «Não sou comentador, nem me candidato a líder de um partido. Sou candidato a Presidente da República».
De nada valeu a insistência da jornalista. Seguro mostrou-se irredutível. Não, tudo o que Seguro não quer no presente é voltar ao passado — ao contrário de Ana Gomes —, ao passado das primárias socialistas de 2014. Insistiu com os jornalistas que queria falar do futuro, que lhe colocassem perguntas sobre o futuro. Mas os jornalistas insistiram em falar do ‘partido invisível’, o dos interesses e das portas giratórias, que ele próprio identificou em tempos, lógica a que o PS não escapa. Seguro assume que esse partido existiu e ainda existe, mas recusa-se a comentar se continua a contaminar o partido que o apoia.
E o PS retribui. Uma multitude de dirigentes socialistas, entre eles Alexandra Leitão e Fernando Medina, almoçou, em Lisboa, também na quinta-feira, com Seguro. Um encontro que o fez sentir-se «abençoado» e convicto de que, «juntos», irá à segunda volta, por considerar que «seria um pesadelo» que esta fosse «disputada apenas por um campo político», e dramatizou, disse que a escolha se faz entre uma «tendência totalitária» e o «pluralismo democrático».
Voltando à entrevista, Seguro comentou o arquivamento da averiguação preventiva ao caso Spinumviva, afirmando que «em função das informações disponíveis parece que a Justiça concluiu o seu trabalho», mas acrescentou que, em nome da transparência pública, «teria sido poupado muito tempo se o primeiro-ministro tivesse prestado todos os esclarecimentos logo no início». Disse que, como Presidente da República, teria chamado o primeiro-ministro a Belém para uma conversa privada para lhe exigir transparência.
Sobre o pedido de escusa do procurador-geral da República, Amadeu Guerra, mostrou cautela, evocando a separação de poderes e a autonomia constitucional do Ministério Público. Admitiu, contudo, que uma das primeiras reuniões que teria como Presidente seria com o PGR, embora não para discutir ‘casos’. Quanto à duração do mandato do procurador-geral, disse tratar-se de uma matéria da competência do Parlamento.
Sem referir nomes, António José Seguro deixou ainda uma observação sobre as dúvidas levantadas em torno da atividade profissional de outro candidato presidencial, afirmando que «há zonas da nossa vida pública e política que, embora legais, levantam questões éticas e suspeitas». E concluiu: «Sempre defendi uma separação clara entre os negócios e a política. Defendo, mantenho e pratico».