terça-feira, 13 jan. 2026

A super-mulher

Precisamos de parar de exigir mais às mulheres do que exigimos aos homens. E essa mudança também tem de incluir as próprias mulheres.

Conheço muitas pessoas que estão exaustas, a maioria são mulheres. Partilham o mercado de trabalho com os homens, mas numa grande maioria dos casos acumulam mais tarefas: tratam ou pelo menos gerem a casa e as crianças, e os pais e os sogros e ainda têm de cumprir critérios estéticos – fazer exercício físico (que, já agora, convém mesmo praticar), frequentar restaurantes, fazer férias incríveis, divertir-se e fazer skin care. Ainda por cima é esperado que façam tudo isto com altíssima qualidade. Vejo sobretudo mulheres tão no limite das suas forças que, às vezes, a pergunta é: como aguentam? O perfeccionismo nas mulheres tem um nome: são as “supermulheres”. Que conseguem tudo, aguentam tudo, e ainda conseguem manter um sorriso na cara. Muitas mulheres ficam chocadas quando afirmo que a ideia da supermulher é uma armadilha, não uma qualidade. Custa-me ver quando uma mulher diz para outra com um olhar cúmplice: «Nós conseguimos porque somos mulheres, não é». Este orgulho no sacrifício e na resignação às regras do jogo, a meu ver, faz parte do problema. Pior ainda é quando ouço relatos de mulheres mais velhas e com Carreiras de referência a explicar a mulheres mais jovens que “Se pode ter tudo!”. Primeiro porque na vida nunca se tem tudo, pode-se ter muito de cada, mas para ter de um lado tem de se deixar cair de outro. O melhor cenário é ter condições para escolher o que se deixa cair a cada momento. E, em segundo lugar, porque alimenta uma ilusão que nos mantém reféns desta sororidade de mártires. Precisamos de parar de exigir mais às mulheres do que exigimos aos homens. E essa mudança também tem de incluir as próprias mulheres. É que não está a correr bem. E no que diz respeito ao trabalho, vejo mulheres com mais competências técnicas, a trabalharem muito e muito bem, mas a terem menos visibilidade. São um ótimo “braço direito”, geralmente de um homem.

Dou muitas vezes o exemplo da Isabel, uma Gestora com 55 anos. Trabalhava (como muitos) entre 70 a 80 horas por semana e era conhecida pela sua competência e por estar sempre disponível. Aceitou todos os desafios que a Empresa lhe pediu, mesmo quando tal implicou mudar-se de Lisboa para o Porto quando os dois filhos eram adolescentes. Falou-me dessa fase com mágoa, foram tempos difíceis, os filhos agora já eram adultos, mas houve consequências de ter estado longe nessa altura. Recentemente tinham-na “desafiado” para aceitar gerir duas Direções e ela, claro, tinha aceitado. Sentia-se, se possível, ainda mais exausta e a achar que não estava a conseguir dar resposta. E não estava, passados cerca de seis meses, quando nos reencontrámos, disse estar deprimida e ressentida e sentia-se injustiçada e perdida. Tinha sido decidido que ficaria sem as duas Direções a seu cargo, passaria a gerir uma área de menor relevância e que lhe despertava pouco interesse. Mas o mais perturbador foi o facto de as duas Direções terem sido propostas a um colega dela, um gestor, seu amigo e muito qualificado para a função, que respondeu o inimaginável: «As duas Direções não consigo aceitar, não sou uma supermulher como a Isabel».

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