O jardim das delicias

No final do Século das Luzes, o médico Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin, descreveu num poema publicado anonimamente a exuberante vida sexual do reino vegetal.

A Invenção da Biologia – Linnaeus, Buffon e todos os seres vivos, de Jason Roberts, publicado pela Temas e Debates, é um dos grandes livros do ano. Distinguido com o Prémio Pulitzer de Biografia de 2025, narra os esforços rivais do francês Georges-Louis de Buffon e do sueco Carl Linnaeus para compreender, descrever e organizar todas as formas de vida até então conhecidas. Na sua monumental Histoire Naturelle (1749-88), em 36 volumes, Buffon expôs uma visão histórica, dinâmica e comparativa da Natureza, atenta à variação dos organismos e às hipóteses da sua transformação; Linnaeus, pelo contrário, em Systema Naturae (primeira edição em 1735), estabeleceu um sistema hierárquico de classificação e a nomenclatura binomial que viriam a servir de base à taxonomia moderna.

Da criação de conhecimento científico à sua compreensão pública vai, no entanto, uma longa distância, mediada, pelo menos em parte, pelos comunicadores ou divulgadores de ciência, que, ao contrário do que se poderia pensar, não são uma novidade do nosso tempo. Vários autores da Antiguidade Clássica seriam hoje considerados comunicadores de ciência: Arato de Solos, na Grécia do século III a.C., escreveu Fenómenos, um poema que combina astronomia, meteorologia e mitologia; Lucrécio, em Roma, cerca de dois séculos depois, divulgou em De rerum natura, também em verso, os fundamentos do atomismo e da ética epicurista. Já no século XVII, no Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo (1632), o próprio Galileu Galilei expôs a uma elite culta, mas não especializada, os argumentos a favor do heliocentrismo. Algumas décadas mais tarde, Bernard de Fontenelle em Conversações sobre a Pluralidade dos Mundos (1686), também em forma dialógica, explicou ao grande público o heliocentrismo e a mobilidade da Terra, no quadro da física mecanicista cartesiana.

Em Inglaterra, no final do Século das Luzes, o médico Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin, empreendeu uma tarefa idêntica: divulgar o sistema de Linnaeus de classificação das plantas. A botânica estava então na moda entre as classes instruídas, sendo mesmo tida como um domínio do conhecimento especialmente adequado ao sexo feminino. Darwin, porém, enfrentava um problema delicado: Linnaeus descrevera as plantas como organismos dotados de sexualidade. Para começar, agrupou-as em 24 classes, definidas pelo número e disposição dos estames – as partes masculinas – de cada espécie, dividindo depois cada classe em ordens definidas pelo número de pistilos, as partes femininas. Para explicar os processos reprodutivos, recorreu a analogias entre o reino vegetal e os seres humanos, utilizando termos como «casamento» e comparando o cálice das flores ao «leito nupcial». Nos casos em que a analogia com o padrão de «marido e mulher» não se ajustava – por exemplo, quando plantas da mesma ordem apresentavam números diferentes de estames e pistilos –, usou expressões como «concubina» ou «casamento clandestino». Como transmitir tal realidade, sobretudo às jovens que se interessavam por botânica?

Foi em Os Amores das Plantas (1789) – um poema em quatro cantos, publicado anonimamente e enriquecido com notas explicativas e incursões filosóficas – que Darwin, recorrendo a oitenta e três espécies de plantas, personificadas como ninfas campestres, humildes pastoras, virgens castas ou sedutoras cortesãs, descreveu a exuberante vida sexual do reino vegetal. Escreveu também A Economia da Vegetação, poema que, no melhor espírito iluminista, celebrava a ciência e a tecnologia. Em 1791, já assumindo a autoria, foram ambos publicadas sob o título O Jardim Botânico.

Curiosamente, o avô de Charles Darwin já defendia uma visão nitidamente evolucionista. Na obra científica Zoonomia (1794–96), sustentou que os animais de sangue quente derivavam de um único «filamento vivo» primordial que, ao longo do tempo, adquirira novas características e as transmitira à descendência, antecipando tanto o transformismo de Lamarck como ideias evocadoras da «sobrevivência do mais apto». Foi precisamente numa nota de rodapé de Os Amores das Plantas dedicada à flor da curcuma, que comentou a presença de órgãos neutros e de estruturas remanescentes em plantas, interpretando-os como vestígios de formas anteriores – um vislumbre claro e precoce da noção de que as espécies se modificam ao longo do tempo.

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