Os sussurros ouvem-se em algumas idas ao supermercado. «Isto está pela hora da morte»; «Não me lembro de ter visto o bacalhau tão caro». São frases comentadas entre consumidores nas – ainda assim – longas filas para comprar um dos reis da noite de consoada. Conversas que se ouvem no supermercado, no café, no trabalho e, certamente, na casa de muitas famílias portuguesas.
Os números não enganam. O preço do bacalhau graúdo subiu, num ano, de 12,84 euros para 16,71 euros o quilo, segundo dados da Deco Proteste no cabaz de Natal deste ano.
Mas não foi o único produto a ver o preço aumentar. Entre todos os produtos monitorizados, no último ano, o preço da meia dúzia de ovos aumentou 46 cêntimos (mais 28%), para 2,12 euros. O abacaxi viu o seu preço subir 25 cêntimos por quilo, para 1,68 euros (mais 18%). E a perna de peru custa agora 5,69 euros por quilo, mais 51 cêntimos por quilo (mais 10%) do que há um ano. Já o chocolate de culinária disparou 41% no prazo de um ano: de 2,73 euros para 3,86.
Ao Nascer do SOL, Nuno Pais de Figueiredo, porta-voz da Deco Proteste, explica que «o aumento do preço do cabaz de Natal, em particular, dos produtos típicos da consoada, como é o caso do bacalhau (que aumentou 21% quando comparamos o preço em 10 de dezembro de 2025 com o preço em 11 de dezembro de 2024), ou dos ovos e do chocolate de culinária, usados na confeção dos doces tradicionais (com aumentos de 28% e de 41% entre as mesmas datas, respetivamente), tem impacto na despesa das famílias», defendendo que «quem quiser manter a despesa ao nível do ano anterior terá, necessariamente, de alterar as suas escolhas, quer seja por via da redução das quantidades compradas ou por via da substituição de produtos por outros com preço mais baixo».
Nuno Pais de Figueiredo alerta também para que «famílias de rendimentos mais baixos terão sempre maior dificuldade em acomodar aumentos de preços dos bens alimentares porque têm um orçamento mais apertado».
Questionado sobre se estes aumentos dos produtos alimentares estão a fazer com que as famílias alterem os seus hábitos, o responsável diz não dispôr desses dados. Ainda assim garante: «Há casos concretos em que a subida acentuada do preço levou a uma quebra da procura do produto. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o azeite». E recorda que a Deco recebe, «com muita frequência denúncias e queixas relacionadas com os aumentos dos preços e das promoções anunciadas pelos estabelecimentos comerciais».
Vários fatores para o aumento
Nuno Mello, Head of Sales da XTB, explica que a subida resulta sobretudo da evolução das matérias-primas alimentares nos mercados internacionais, que continuam voláteis. «Produtos como o cacau, azeite, cereais, pescado e carnes sentiram pressões de custo ligadas à oferta e ao clima, e o preço destes segmentos tende a transmitir-se parcialmente ao consumidor», afirma.
A estes fatores juntam-se os custos operacionais. «Os custos energéticos e logísticos continuam superiores aos pré-pandémicos, que encarecem a transformação, a refrigeração e o transporte», nota o analista. Apesar de um cenário mais estável no transporte marítimo, Nuno Mello alerta que «o frete internacional continua sujeito a picos – especialmente relevante para produtos importados».
A dinâmica comercial do retalho também contribui. «Há menor espaço para promoções, maior recurso a embalagens mais pequenas e necessidade de manter margens num contexto ainda inflacionista», indica. O aumento do cabaz resulta, assim, «não de um único fator, mas do somatório de custos de origem, energia, logística e estratégia de pricing no retalho».
Entre os vários produtos incluídos no cabaz, três destacam-se pela maior volatilidade sazonal e sensibilidade ao preço de origem: cacau, azeite e bacalhau.
No caso do cacau e chocolate, explica Nuno Mello, existe «produção concentrada e sensível a clima e pestes; os preços internacionais podem variar fortemente e são transmitidos ao retalho em meses», aparecendo fortemente no Natal. Já o azeite depende da colheita anual e mostra uma reação imediata às condições meteorológicas: «Pequenas variações de oferta traduzem-se em grandes variações percentuais no preço».
O bacalhau também é sensível à oferta e à logística: «É influenciado por quotas, custos de combustível e logística (conservação, transporte) e pela oferta piscatória», sublinha. Carnes, aves, lácteos, ovos e hortícolas têm impacto mais moderado, embora sujeitos a fatores como o preço dos cereais, energia e clima.
Em síntese, afirma o analista, «o cacau, o azeite e o bacalhau são os itens do cabaz com maior sensibilidade ao preço de origem e maior volatilidade sazonal – portanto explicam grande parte da variação anual do custo do cabaz».
O comportamento do consumidor português também está a influenciar o mercado. «O consumidor está mais sensível ao preço e tornou-se mais racional na compra», afirma o especialista. Há uma crescente preferência por marcas próprias, que oferecem «uma relação qualidade/preço mais competitiva» e permitem ao retalho gerir margens.
Também se verifica «substituição de produtos premium por equivalentes mais baratos, maior atenção às promoções e uso crescente de formatos reduzidos». Ao mesmo tempo, o consumidor planeia mais, com «maior procura por compra online e click & collect».
Essas tendências, ressalva, «limitam o repasse integral dos custos ao consumidor final e criam maior pressão negocial sobre fabricantes».
Quanto à distribuição de margens, Nuno Mello confirma que há ajustamentos distintos ao longo da cadeia. «Produtores e indústria transformadora continuam pressionados por custos energéticos, fertilizantes, ração e embalagem», o que reduz a margem quando o retalho não absorve a totalidade dos aumentos.
Por outro lado, o retalho enfrenta forte concorrência e um cliente orientado pelo preço: «É obrigado a equilibrar margens com volume, promovendo marcas próprias para ganhar poder negocial».
Nos produtos importados, o custo do produto e do frete define um limite mínimo, mas «é no retalho que se decide quanto é passado ao consumidor, via promoções e política de pricing». No entanto, o preço final depende sempre do custo de origem.
O que esperar e como poupar
Para os próximos meses, Nuno Mello prevê um abrandamento: «A inflação alimentar deverá abrandar ou estabilizar, acompanhando a correção recente de vários índices internacionais». Ainda assim, alerta que podem surgir «subidas pontuais nas categorias sensíveis».
Entre os riscos apontados estão «eventos climáticos, riscos geopolíticos, custos energéticos e nova tensão logística». Se algum destes choques ocorrer perto da época festiva, «o impacto sente-se sobretudo nos produtos mais procurados no Natal».
No cenário central, mantém-se a expectativa de «normalização gradual, mas com vigilância elevada nos bens importados e agrícolas sazonais».
Mas há formas de tentar contornas estas possíveis subidas ou os preços que já estão altos.
Nuno Pais de Figueiredo refere que «existem vários produtos que podem servir para o mesmo fim e que podem ter preços muito diferentes». E explica: «Uma regra que deve ser seguida é comparar sempre os preços por litro, quilo ou unidade entre os produtos de várias marcas, e até entre embalagens diferentes da mesma marca. Para obter uma poupança ainda maior, é importante comparar os preços entre diferentes pontos de venda», lembrando que a Deco Proteste disponibiliza um simulador de preços dos supermercados online, que permite saber qual é o mais barato por concelho.
«Há também algumas dicas que podem ajudar na poupança: comprar bacalhau, por exemplo, congelado é uma boa opção para quem não tem tempo ou disponibilidade para demolhar em casa, mas é preciso ter atenção ao preço. Este pode ser semelhante ao do salgado seco, mas o consumidor não se pode esquecer de que o peso deste último aumenta cerca de 25% no momento de demolhar. Na água, o bacalhau perde sal, mas ganha humidade. Em geral, comprar bacalhau salgado seco fica mais económico», recomenda.
Sobre se o Governo poderia ajudar de alguma forma, o porta-voz da Deco Proteste entende que «medidas como o IVA zero justificaram-se e tiveram algum impacto num contexto particular de subida acentuada e contínua dos preços, situação muito diferente da que se verifica hoje». Atualmente, diz, «os preços dos bens alimentares estão muito mais estáveis». E defende que «eventuais medidas devem ser dirigidas às famílias de rendimentos mais baixos».