quarta-feira, 11 fev. 2026

Ventura e Cotrim dominam as redes sociais

Dos cinco principais candidatos a Belém, André Ventura e Cotrim de Figueiredo são os que lideram nas redes sociais. De longe: têm quase 24 vezes mais seguidores do que os outros três candidatos juntos.
Ventura e Cotrim dominam as redes sociais

Longe vão os dias em que a luta pelo voto jovem acontecia apenas nos comícios, arruadas ou debates de televisão. O palco mudou. Hoje, para chamar os mais jovens, usa-se a palma da mão, sobretudo o Instagram e o TikTok. Dos cinco principais candidatos a Presidente da República com quem o Nascer do SOL falou, André Ventura e João Cotrim de Figueiredo lideram no campeonato dos telemóveis. Não é por acaso: é por estratégia.

Vamos aos números. Ventura lidera. E lidera como ninguém: conta com cerca de 830 mil seguidores no Instagram e 600 mil no TikTok, o que faz dele o político com mais seguidores a nível nacional. Cotrim regista cerca de 150 mil seguidores no Instagram e 13,3 mil no TikTok. Depois deles, vem o deserto. Gouveia e Melo tem 20,9 mil no Instagram e 9,4 mil no TikTok; António José Seguro tem 16,7 mil no Instagram e 2,4 mil no TikTok; Marques Mendes fica-se pelos 16,6 mil no Instagram e 1,7 mil no TikTok.

Para chegar à geração mais jovem, é preciso inundar as redes sociais. Plataformas como o Instagram, o X e o TikTok cresceram de forma alucinante nos últimos anos, enquanto o Facebook se afundou desde 2015, como revela o relatório do OBERCOM de 2023.

O Instagram e o TikTok têm sido a porta de entrada diária de Ventura e Cotrim no coração dos mais jovens. «Os jovens procuram, cada vez mais, conteúdo político nas redes sociais, só temos de saber adaptar a mensagem ao formato», diz Ventura.«Mas não esqueço também os encontros presenciais, como palestras em faculdades».

Cotrim sabe que tem de marcar pontos e ir atrás dos mais novos. «As redes sociais têm vindo a crescer numa progressão muito significativa. No Instagram, por exemplo, hoje tenho quase três vezes o número de seguidores que tinha aquando das eleições europeias», revela. O candidato liberal também não deixa de lado os encontros presenciais: «Na Universidade de Coimbra, na Universidade de Évora, no ISCTE, na Federação Académica do Porto, na Escola 42, em sessões com jovens empreendedores».

Os dois são perentórios na rejeição da superficialidade das redes sociais. «Elas permitem-me comunicar diretamente, sem filtros, e isso facilita que a mensagem chegue a quem realmente a quer ouvir, sem que seja deturpada», garante Ventura.

Já Cotrim equipara as redes sociais ao que foi outrora a imprensa, a rádio ou a televisão. «Há formas de usar esses canais sem cair na superficialidade e potenciar um diálogo muito estimulante com os seguidores».

Os outros candidatos, embora menos bem-sucedidos nos meios digitais, não negligenciam o eleitorado jovem. Gouveia e Melo, promete, se for eleito, «incluir no Conselho de Estado um representante dos jovens». E acrescenta: «Tenho estado nas universidades, nas escolas, e em vários eventos onde tenho ouvido muitos jovens, e utilizo também as redes sociais para transmitir as minhas mensagens e dar-lhes voz».

António José Seguro, que não mencionou as redes sociais como meio de comunicação com os jovens, destaca: «Eu não faço distinção entre jovens. Quando me disponho a ouvir o país, disponho-me a ouvir todos. Quando digo que quero ser o Presidente de todos, não divido em função do escalão etário, tal como não divido se é do litoral ou do interior, se é do Sul ou do Norte. Todos são mesmo todos».

Por sua vez, Marques Mendes, afirma: «Fiz dezenas de palestras em universidades e também em escolas, onde falo de ambição, de experiência e da necessidade de estabilidade para o país». E, tal como Gouveia e Melo, acrescenta um gesto concreto para a geração mais nova: «Nomear um jovem para o Conselho de Estado» se for eleito.

Rui Calafate, comentador da CNN, afirma que Gouveia e Melo, António José Seguro e Marques Mendes «têm uma estratégia muito institucional e estão a segmentar pouco a sua mensagem para os jovens».

O TikTok, palco mais vibrante desta batalha, é dominado pelos jovens. Em 2023, um em cada quatro portugueses usava a aplicação. Entre os 18 e os 24 anos, eram quase metade, segundo a OBERCOM. Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, sublinha que os mais jovens estão cada vez «mais dependentes das redes sociais para consumir informação política».

Ventura e Cotrim são mestres no uso dessa dependência. Ventura aposta em vídeos de alegados crimes, alguns a ultrapassar os 13 mil ‘likes, debates sobre identidade de género e excertos de entrevistas. Nas legendas, multiplicam-se frases como «pedalar para vencer no dia 18 de Janeiro e mostrar que vamos derrubar este sistema corrupto!».

Segundo Calafate, Ventura sabe jogar este jogo melhor do que ninguém: «Divulga ‘reels’ com mensagens curtas, engraçadas e modernas, que chegam rapidamente aos jovens e são consumidas com a mesma rapidez. Não é nada pesado nem institucional. É simples, agressivo e divertido».

Cotrim segue o mesmo caminho, embora num registo distinto. «O Cotrim, apesar de ter mais de 60 anos, é uma pessoa extremamente moderna», sublinha Calafate. «Tem mel, sobretudo junto da juventude».

«Dirijo-me a jovens em busca de uma mudança séria neste país e com vontade de se levantar e lutar por Portugal», diz Ventura. Diogo Jardim, 18 anos, vice-presidente da Juventude Chega de Oeiras, vê nele essa figura: «Isto toca diretamente na minha geração, cansada de ver sempre os mesmos problemas a repetirem-se». Rafael Neves, 22 anos, coordenador da Juventude Chega em Cascais, acrescenta: «O grito de ‘isto não tem de ser assim’ é uma mensagem jovem de esperança e oportunidade».

Do lado oposto, Cotrim convida os jovens para «um debate político mais estimulante e interessante sobre os grandes desafios que se colocam a Portugal, à Europa e ao mundo». Carlos Paiva Raposo, 27 anos, deputado municipal de Cascais, eleito pela Iniciativa Liberal, diz que foi Cotrim quem o levou a «sair do sofá e a participar na política». E fala também aos que emigraram.

Santiago Rente, 27 anos, vive em Londres há quase uma década. Regressar é o seu maior sonho, mas um sonho cada vez mais distante. «Sou um jovem profissional, trabalho numa grande consultora em Londres e as oportunidades simplesmente não existem aqui em Portugal».

Ventura e Cotrim deixam uma mensagem final dirigida às novas gerações. Ventura fala das dificuldades no emprego, na habitação e nas oportunidades. Defende que é preciso mudar «para que não se sintam esquecidos e possam projetar o seu futuro aqui e não no estrangeiro». E reforça: «Portugal tem exportado talento para importar mão de obra barata».

Cotrim pede aos jovens que não desistam das reformas de que o país precisa. «Acreditem num Portugal assente na cultura, no conhecimento e no crescimento», os três eixos da sua campanha. Apela ainda a que o ajudem a tornar Portugal «um país melhor, maior e mais moderno».

Também Gouveia e Melo, António José Seguro e Marques Mendes marcam o seu posicionamento junto da geração mais nova. «É fundamental que o Estado crie as condições certas para que os jovens encontrem em Portugal o que precisam para constituir família», diz Gouveia e Melo. António José Seguro quer «um país onde os jovens tenham motivos para ficar em Portugal». Por fim, Marques Mendes refere que «os jovens são críticos da sociedade e da classe política mas devem ser estimulados a participar na vida cívica e política». l

* Editado por José Cabrita Saraiva