Querida avó,
Tenho andado num alvoroço com os presentes de Natal. Como é habitual, tento comprar jogos didáticos para os mais novos.
Enquanto forro caixas com papeis divertidos e lindos laços (que nos perdoe o Ambiente) fico a imaginar a cara das crianças que os vão receber.
Inevitavelmente, viajo às minhas memórias de infância e aos estridentes manifestos que fazia quando recebia os jogos.
Recordo-me do icónico “Sabichão” sempre preparado para surpreender as crianças da minha geração. Apontava a varinha do Sabichão para uma pergunta à escolha e, como por magia, ele revelava a resposta certa!
Mais tarde ofereceram-me o “Micado”, um conjunto de varetas de cores diferentes que nos desafiava a destreza manual.
Perdi a conta à quantidade de “Legos” que me ofereceram na infância. As construções que fazíamos eram ferramentas poderosas para o desenvolvimento infantil, capazes de estimular a criatividade.
Na adolescência recebi o “Monopólio”, sem dúvida o jogo com o qual passei mais horas. Nas ferias de verão, foram longos serões a desfrutar deste jogo competitivo e a sonhar ter uma casa no Rossio.
Este ano descobri o jogo “Como era antigamente”, que vou oferecer a diversas famílias. Os avós, os pais, as crianças da família e até os amigos, podem divertir-se recordando e descobrindo as vivências familiares, em volta do tabuleiro deste jogo.
Nos anos 70 e 80, o mais importante era o encontro familiar ou de amigos. Ficávamos horas a rir, a conversar, até a discutir um pouco, mas tudo na brincadeira. Hoje, mesmo com jogos mais modernos, o bom é que ainda junta as pessoas. A alegria de jogar em família continua igual.
Naquela época não tínhamos metade dos jogos estrambólicos que existem hoje. Mas a diversão era garantida. Na minha infância o máximo de tecnologia que existia era virar o tabuleiro quando alguém ficava com raiva e tinha mau perder.
Bjs
Querido neto,
Os jogos tradicionais e os jogos de tabuleiro sempre foram muito importantes na família, como sabes.
São cruciais para as crianças porque desenvolvem o corpo, a mente e as habilidades sociais. Ao mesmo tempo que preservam a cultura e identidade, oferecendo diversão saudável, interação intergeracional e uma forma de explorar o mundo.
Outra coisa muito importante são as Histórias Tradicionais.
Esta semana, uma menina passou pela minha frente a correr, na esplanada da praia, olhou para mim e sorriu. Eu sorri também e disse:
«Não vi velha nem velhinha; Não vi velha nem velhão;
Corre, corre cabacinha; Corre, corre cabação»
Ela olhou para mim espantada.
«Nunca ouviste isto?», perguntei-lhe
Ela disse que não com a cabeça, e logo a mãe interveio:
«Desculpe, mas isso é um disparate pegado, onde é que já se viu uma cabaça correr? Eu não ensino essas coisas à minha filha. Só coisas verdadeiras, que se passaram ou que se passam. Ou coisas históricas. Assim é que ela é educada. Não lhe quero encher a cabeça de palermices»
«Nunca lhe contou histórias tradicionais?»
«Mas que histórias tradicionais? Que tradições é que estão aí? Palermices é o que é…»
Calei-me, mas fiquei cheia de pena daquela criança. Só espero que, quando for mais velha se encha de curiosidade e vá ler aquilo que lhe deviam ter lido em pequena.
Espero que ainda vá a tempo.
Na minha casa, em Lisboa, guardo religiosamente caixas de jogos com cerca de 50 anos.
O meu filho foi jogador de xadrez desde muito pequenino, e ia com a Federação a muitos torneios fora de Lisboa. A única coisa que eu lhe pedia – onde é que ainda vinham os telemóveis... – era que me escrevesse um postal de cada lugar onde estivesse. O que ele cumpria religiosamente. Trago sempre na minha carteira um postal que me escreveu de Coimbra, tinha ele 7 anos. Dizia:
«Mãe, não tenho nada para dizer. André»
Bjs