sexta-feira, 06 fev. 2026

‘Justa’. O que resta quando tudo desaparece? 

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‘Justa’. O que resta quando tudo desaparece? 

‘Justa’, a mais recente longa-metragem da realizadora Teresa Villaverde, tem na sua génese os incêndios de Pedrógão Grande, em 2017. No entanto, não nos fala sobre eles, mas sim daquilo que restou: das pessoas que ficaram e que tentam, dentro da dor e do trauma, refazer a sua vida. Estreou no dia 4 de dezembro e, com certeza, não deixará ninguém indiferente.

«Em 2017, em Portugal, grandes incêndios destruíram floresta, mataram crianças e adultos, uns morreram nas suas aldeias e outros encurralados numa estrada. A comunicação não funcionou e as aldeias não tinham abrigos», começa por contar a sinopse da mais recente longa-metragem de Teresa Villaverde, intitulada Justa. A ação da história, contudo, não se passa nesse ano, mas já mais tarde. Acompanha um «núcleo pequeno de pessoas que perderam os familiares mais próximos, e que agora estão no seu processo de aprender a viver depois de tudo o que perderam».

O abandono, o silêncio, o recordar das cinzas, os fantasmas do passado, o vazio, o cansaço, a inércia do tempo, o tentar respirar outra vez, a natureza que ressuscita, mas a esperança que continua a perder-se a cada dia. Ao mesmo tempo, a resiliência, a beleza que resta depois do desaparecimento das coisas, a solidariedade, a amizade. Porque nós existimos, mesmo destruídos.

Elsa – interpretada por Betty Faria –, é uma mulher brasileira que vive há alguns anos em Portugal. Perdeu o seu marido nos incêndios, derretido no asfalto. Ela salvou-se, já que ficou dentro do carro apesar dos pedidos de ajuda do marido. Mais tarde, acordou no hospital, vítima de uma cegueira a que apelida de «histérica». Justa – a quem Madalena Cunha dá vida –, é uma menina de 10 anos que perdeu a mãe e que vive com o pai, Mariano, que tem a maior parte do corpo e rosto queimado pelas chamas, mas que luta para conseguir tratar da filha. A criança procura pela mãe em cada paisagem. Já Mariano – interpretado por Ricardo Vidal (um sobrevivente real de um acidente em 2009) –, procura a vida.

Por outro lado, temos Lúcia, uma psicóloga que tenta chegar até Justa, que não viveu a tragédia mas que a sente como se esta dominasse tudo aquilo que é. Aqui, vemos Filomena Cautela como nunca vimos. Tentamos acompanhá-la, entendê-la, mas a missão aparenta ser impossível já que, parece, nem ela sabe aquilo que busca.  Por fim, Simão, interpretado por Alexandre Batista. O jovem perdeu os pais e a namorada para as chamas e habita uma bolha de revolta.

Aqueles que ficaram

Segundo Teresa Villaverde, o filme é completamente uma ficção, mas tem na sua génese toda essa tragédia. «Claro que quando aquilo aconteceu, longe de mim imaginar que queria fazer um filme sobre o assunto. Seria uma coisa até obscena da minha parte ter essa ideia, acho eu», começa por admitir à VERSA. Mas, um ano mais tarde, passou por toda a zona ardida e ficou «mesmo muito impressionada».

«Toda a gente acha que foi uma coisa inacreditável… A quantidade de quilómetros ardidos. Este ano, por exemplo, até ardeu mais do que em 2017. Só que, às vezes, nós de onde estamos não podemos ver exatamente a dimensão da coisa. Foi mesmo muito marcante para mim a destruição, o silêncio. Não havia animais, não havia vento nas folhas, não havia pessoas», lembra. A realizadora revela que foram vários episódios dessa «viagem acidental», que a fizeram querer «trabalhar sobre o assunto». «Fui pedir ajuda à Associação das Vítimas de Pedrógão para me colocar em contacto com algumas pessoas e acabei por ser recebida por várias vítimas que tinham perdido casas e familiares», continua.

Teresa foi sozinha, sem material para filmar ou gravar, e as pessoas tiveram a amabilidade de a receber nas suas casas. «Conversámos muito. Foi uma experiência muito impactante, muito forte, que eu nunca esquecerei», admite. A também guionista e produtora desta longa-metragem lembra uma imagem que serviu quase de motor para este trabalho. «Quando eu fiz essa viagem calhou que perto de uma povoação, a cerca de 200, 300 metros, havia uma velhinha sentada numa cadeira a olhar para o vale, para a montanha, tudo queimado. Eu ia de carro e fiquei a interrogar-me: ‘O que é que ela está ali a fazer? Como é que ela foi ali parar? Como é que aquela cadeira foi ali parar? O que é que ela está a pensar?’. E o que aconteceu foi que essa imagem ficou completamente gravada na minha cabeça: uma senhora sentada a olhar para o negro. Foi isso que me deu vontade de querer voltar àquelas zonas e conhecer as histórias», sublinha.

Indo sozinha, do ponto de vista emocional, «foi muito mais difícil do que se tivesse sido acompanhada». «Mas senti que como vinha de mim, como era eu que queria ir conhecer as pessoas, já eu seria talvez uma intrusa e então não ia levar outra pessoa comigo. Acho que fiz bem, que não teria conseguido uma aproximação às pessoas tão grande se não tivesse sido assim», acredita.

Houve muitas histórias que a marcaram. «Senti sobretudo nas pessoas mais jovens que ainda estavam completamente em estado de choque e isso é muito impressionante», lamenta. Tinha passado um ano e algumas pessoas ainda estavam medicadas. «Conheci uma rapariga adolescente que, por exemplo, tinha desistido de ser acompanhada por psicólogos porque mudavam-lhe o especialista quase todas as semanas. Chocou-me profundamente, porque nós sabemos que há muita coisa no interior do país que funciona mal. Pelo menos naquele lugar e para as pessoas a quem aconteceu aquilo tudo, as coisas deveriam funcionar e não funcionaram», defende.

Numa outra situação, conheceu um casal de pessoas mais velhas que perderam a sua casa e que fizeram parte do plano de reconstrução de habitações. «A casa nova estava quase pronta, não era exatamente no mesmo sítio onde era a casa anterior. Eles tinham perdido um filho muitos anos antes e todas as memórias que tinham estavam naquela casa. Portanto, ficaram sem qualquer recordação dele. Nem uma fotografia. E nós às vezes pensamos mais nas coisas materiais que se perdem», reflete Teresa Villaverde, adiantando que «havia qualquer coisa de muito brutal naquela casa nova, ainda que pudesse ser bem construída»

A escolha do elenco

O filme já foi gravado há alguns anos, porque vemos o crescimento notório de Madalena. A realizadora revela que a jovem «é daqueles clássicos que mentiu no casting em relação à idade», porque estava à procura de raparigas de 10 aos 12 e ela não tinha a idade pretendida. No entanto, não se arrepende da sua escolha. «Se ela continuar a querer seguir este caminho, acho que vai ser uma grande atriz porque tem uma inteligência emocional muito grande e uma sensibilidade enorme.  Acho que isso é o principal para ser uma boa atriz», acredita. 

Sobre o resto do elenco, Teresa Villaverde já conhecia pessoalmente Betty Faria e deram-se «logo muitíssimo bem». Nessa altura nem estava a pensar no filme. «Por ela ser brasileira, não me ocorreu imediatamente, só que depois percebi que era absolutamente irrelevante. Temos a sorte de no Brasil se falar português, não é? Portanto, entendemos todos. Eu só queria encontrar uma grande atriz que me desse segurança, porque o papel de Elsa é muito difícil», adianta. 

«Depois tenho a Filomena Cautela que nós conhecemos sobretudo da televisão. Conhecemos essencialmente o seu lado mais divertido. Olhando para esses trabalhos, senti que ela tinha um outro lado que nós não estamos habituados a ver. Foi desse lado que andei à procura e, quem vê o filme, sabe que foi uma escolha certíssima», defende a realizadora, sublinhando que a prestação é «notável». «Desejo que os seus admiradores vão às salas de cinema. Acredito que vão ficar muito espantados com este lado dela», refere.

De acordo com Teresa, o papel interpretado por Ricardo Vidal também é de extrema importância. «Ele sofreu um acidente há muitos anos, portanto não esteve relacionado com os incêndios de 2017. Nesse acidente ficou com o corpo muito queimado… O corpo, a cara… Ele vem trazer uma coisa muito importante ao filme, porque é um pai que tenta cuidar da sua filha, mesmo com todas as condicionantes. Como ele também está numa situação frágil, a filha também sente que tem de tomar conta do pai», detalha. Do seu ponto de vista, Ricardo revelou-se um ator «extraordinário»: «E eu penso que o que ele trouxe para o filme é de uma grande beleza e de uma grande bondade. Acho que seria maravilhoso se todas as pessoas o pudessem conhecer na vida real. Eu aprendi muitíssimo com ele, é uma pessoa de uma doçura incrível. Tem um livro chamado ‘Viver com Alma’, que é muito bonito, onde ele fala da sua recuperação, tanto física como psicológica», dá a conhecer.

Por fim, a guionista faz referência a Alexandre Batista, que também encontrou por acaso. «O olhar dele fascinou-me logo. O lado que se vê quando as pessoas são habitadas por dentro e só o olhar já diz tanto… Na verdade foi um pouco isso que procurei em todos. Para o papel de Elsa, seria impossível ter uma atriz não profissional», revela.

Interrogada sobre quanto tempo demorou toda a produção, a realizadora não sabe responder, pois «houve bastante tempo de escrita» e «várias interrupções». Começou a escrever antes da pandemia da Covid-19. As filmagens demoraram oito semanas e depois houve uma pausa. «Quando chega ao fim de cada projeto eu esqueço-me», conta, frisando que levou bastante tempo na montagem para «encontrar o tom»

Um filme que não é estático

Nesta longa-metragem foi diretora, produtora e guionista. «Quando chegamos ao fim praticamente caímos para o lado. (risos) É um bocado isso.  Aliás, eu acho que foi por isso que a montagem da imagem demorou mais tempo (...) Estava extenuada também pelo assunto, estava emocionalmente muito cansada, não era só fisicamente. Admito que foi trabalho a mais», afirma. Sobre o processo de escrita é sempre «completamente solitário». «É uma guerra connosco próprios», acrescenta.

Para alguns, no filme, os personagens parecem completamente isolados mesmo quando se encontram. No entanto, para Teresa, existem várias interpretações. «Uma pessoa disse-me que o que mais sobressai no filme é a amizade e a solidariedade e nem toda a gente vê isso», conta. Por isso, considera que depende muito das pessoas e, às vezes, até do dia em que se vê a longa-metragem. «Eu acho que não é um filme estático que está ali e é só para ser visto assim. Acho que é um filme que, se calhar, também olha bastante para nós. Não somos apenas nós a olhar para o filme», conta.

«Em relação às personagens, eu sinto que elas estão próximas umas das outras, mas isoladas do mundo. Quer dizer, não é que estejam isoladas do mundo, mas eu quis que elas fossem personagens únicas que podem representar também outras pessoas. E, no cinema, para isso funcionar, para nós que estamos a ver termos essa sensação e essa emoção, senti que era absolutamente necessário despir o filme de tudo o que era acessório, do quotidiano. Quase como se ficássemos sozinhos com os nossos pensamentos», explica.  

Relativamente ao silêncio, segundo a realizadora, pode haver momentos em que não há diálogo, mas «não há silêncio absoluto». «Acho que esses momentos de aparente silêncio são os momentos mais dedicados à natureza. Nós ouvimos sons da natureza… Não sabemos há exatamente quanto tempo é que aconteceu a tragédia, mas sabemos que aquela zona já está outra vez habitada. Portanto, estamos a voltar a ouvir esses sons que tinham desaparecido completamente», continua, acrescentando que «também tentou que a natureza não ficasse de fora, que fosse quase um personagem».

A realizadora tem consciência que «as pessoas vão cada vez menos ao cinema». «Sei que, infelizmente, ainda existe alguma relutância em ir ver cinema português. Mas acho que este filme é um filme muito nacional e, por mais que possa vir a ser bem recebido noutros países – vai estrear em França e no Brasil –, onde eu quero mesmo que corra bem é aqui. Nós aqui estamos muito mais perto do que aconteceu e acho que isto nos diz respeito a todos. Espero que as pessoas possam aderir e que seja uma coisa que possam ver e depois discutir com amigos», remata.