À porta do n.º 158 do Boulevard Haussmann forma-se uma fila de visitantes ansiosos por entrar. Não apenas porque o palacete oitocentista, morada do Museu Jacquemart-André, acolhe uma excecional coleção de arte e mobiliário dos séculos XV-XIX, mas também porque se encontra aqui uma das grandes atrações da temporada cultural, a exposição Georges de La Tour – Ombres et Lumières (Sombras e Luzes), patente até 25 de janeiro do próximo ano.
Trata-se de uma oportunidade rara para ver, num só lugar, grande parte da obra do artista nascido na Lorena em 1593 e ali falecido em 1652 – a exposição reúne mais de metade das 40 pinturas da sua autoria que chegaram até nós. Durante muito tempo desconhecido ou desvalorizado, nas últimas décadas Georges de La Tour tem ganho admiradores entre os amantes de arte em todo o mundo, graças às suas personagens enigmáticas e, muito em particular, ao tratamento da luz que transmite aos seus quadros uma inconfundível qualidade poética e espiritual.
Há ainda outro motivo para que os visitantes, alguns dos quais com as suas reservas feitas com semanas de antecedência, se mostrem impacientes para entrar: é que chuvisca neste final de tarde na cidade-luz e o segurança que faz as vezes de guardião do museu não facilita que os recém-chegados se abriguem no pequeno túnel que conduz à entrada do palacete. Há que aguardar a hora de entrada indicada nos bilhetes. Mais adiante haveremos de perceber porquê.
Um palco para arte e festas com mil convidados
Embora erguido na era da locomotiva, do telefone e da lâmpada incandescente, o edifício encomendado em 1868 pelo riquíssimo Édouard André (1833-1894) ao arquiteto Henri Parent é todo ele um grande programa de encenação barroca. Herdeiro de uma das maiores fortunas do Segundo Império (1852-1870), proprietário da Gazzette des Beaux-Arts, colecionador com bolsos muito fundos, André dedicou-se a constituir um acervo de pintura, mobiliário, escultura, tapeçaria e outros belos objetos do século XVIII. O seu palacete, terminado em 1875, ano da fundação da Terceira República, integrava até painéis de madeira trazidos da residência aristocrática do Conde de Coubert, desmantelada pelos planos urbanísticos de Haussmann.
Quando Édouard se casou com Nélie Jacquemart em 1881, a coleção já estava instalada no palacete. Mas o número de objetos não parava de crescer, até porque Nélie, uma pintora com certo nome, medalhada por três vezes no Salon, tinha uma especial predileção pelos primitivos italianos dos séculos XIV e XV.
Claro que, a par dos altos voos da arte, o casal não dispensava as distrações mundanas. E o seu palacete era cenário de festas fabulosas. «No caso de receções muito importantes», refere a página do museu, o proprietário podia dar ordens para «utilizar macacos hidráulicos para retirar as divisórias laterais, combinando a sala de pintura, o grande salão e a sala de música adjacente num único espaço. Édouard André e Nélie Jacquemart podiam ali receber mil convidados para festas sumptuosas frequentadas por toda a alta sociedade parisiense da época». Mil convidados, imagine-se!
«A maravilha das maravilhas deste maravilhoso palácio é, sem dúvida, o jardim de inverno», escrevia a revista L’Illustration em 1876. «As nossas grandes damas da moda encontram aí refúgio para evitar as multidões. Só um rei ou um banqueiro ousariam rodear-se de tamanha sumptuosidade». Como se não bastasse ainda a riqueza ostensiva dos elementos arquitetónicos, a dupla escadaria de aparato, junto ao jardim de inverno, é complementada por um grande fresco de Giambattista Tiepolo, proveniente da villa Contarini, no norte de Itália.
Mas aqui, no primeiro piso, o ambiente está prestes a mudar. As pinturas alegres e voluptuosas de fêtes galantes do século XVIII, com os seus tons pastel e cor de rosa, vão dar lugar à arte sacra adquirida em peregrinações anuais a Itália. E em breve vamos deixar para trás este ambiente de conforto e requinte burguês para penetrarmos no universo contrastante de La Tour, com os seus santos de carne e osso, os seus velhos e mendigos e, claro, os seus efeitos de luz e sombra quase sobrenaturais que transfiguram uma cena banal do quotidiano numa experiência de revelação.
Anos intensos e turbulentos
Quase todas as biografias sublinham o quão pouco sabemos sobre Georges du Mesnil de La Tour (1593-1652), o que faz dele um dos casos mais misteriosos da história da arte. Filho de um padeiro – uma atividade mais prestigiosa do que hoje poderíamos supor –, desconhece-se onde estudou e com quem fez a sua formação. Os especialistas ainda hoje discutem se visitou ou não Itália, como era costume entre os artistas da época.
Aos 24 anos La Tour casa-se com Diane Le Nerf, jovem oriunda da pequena nobreza, e em 1620 o casal instala-se em Lunéville, a cerca de 25 quilómetros da terra natal dele, Vic-sur-Seille. Por essa altura, fosse por via do negócio familiar, fosse por causa do seu talento artístico, o pintor tinha já conquistado um prestígio considerável, atestado pelo facto de o Duque da Lorena lhe conceder privilégios fiscais próximos daqueles de que gozava a aristocracia.
Entretanto, eclodira na Europa a Guerra dos 30 anos (1618-1648), entre católicos e protestantes no seio do Sacro-Império Romano-Germânico. Em França, e na Lorena em particular (na altura um território independente do reino) oporia os partidários do Rei Luís XIII aos apoiantes do imperador habsburgo. Seriam anos intensos e turbulentos.
Em quadros como O tocador de sanfona ou Os comedores de grão de bico La Tour representa a miséria com sensibilidade e empatia. Mas dificilmente o próspero pintor se identificaria com estas figuras de cegos a pedir esmolas, com vestes esfarrapadas e meio desdentados.
Não que a sua vida tenha sido isenta de sobressaltos. Lunéville, onde residia, era disputada entre as tropas do duque e do rei de França, que em 1635 iniciaram o desmantelamento das muralhas. Em 1638, após duas epidemias de peste, a cidade é tomada, saqueada e incendiada pelos franceses, para que não mais regresse às mãos dos apoiantes do imperador.
«O acontecimento que levou Georges de La Tour a especializar-se nas cenas nocturnas parece ter coincidido com o incêndio de Lunéville», notou o escritor Pascal Quignard no livro La Nuit et le Silence, dedicado à vida e obra do pintor loreno. «À volta de Lunéville, é a Guerra dos Trinta Anos, a Lorena devastada pelas tropas francesas, castelos incendiados, igrejas profanadas, conventos saqueados e pinturas queimadas. O ateliê e as telas diurnas foram consumidos pelas chamas».
A chama que nasce e morre
O revés para o artista não dura muito. Logo no ano seguinte, 1639, é agraciado por Luís XIII com o título de ‘primeiro pintor do Rei’, o que lhe dá acesso não apenas às encomendas do monarca, mas também das mais altas figuras da corte, como o Cardeal Richelieu. E_ainda tem direito a um apartamento no Louvre.
Se o contexto em França era de confrontos e de devastação, a silenciosa pintura de La Tour oferece refúgio seguro para todo esse tumulto. O famoso A Mulher e a Pulga surpreende uma mulher no recato da intimidade, semi-despida, completamente absorta na tarefa de esmagar uma pulga entre os dedos. A luz quente de uma vela confere uma aura meditativa a essa cena perfeitamente prosaica. E a nós transporta-nos para um tempo em que apenas o fogo podia aclarar a escuridão.
No livro La flamme d’une chandelle (A chama de uma vela), Gaston Bachelard imaginou um sábio antigo a meditar à luz da vela com um livro nas mãos. «Pensa na morte. A chama é precária e valente. Um sopro aniquila esta luz; uma faísca reacende-a. A chama é um nascimento fácil e uma morte fácil. Vida e morte, nesta imagem, são opostos perfeitamente formados».
E mais adiante ainda:_«A chama da vela é um modelo de vida tranquila e delicada. Sem dúvida, o mais leve sopro perturba-a, tal como um pensamento estranho perturba a meditação de um filósofo». A_chama da vela, conclui, «pode ser um indicador sensível da tranquilidade da alma».
Em nenhuma pintura isso parece ser mais verdadeiro do que na Madalena emprestada pela National Gallery de Washington. La Tour mostra a prostituta arrependida com uma mão no queixo (a postura do melancólico por excelência), a olhar em direção ao espelho, os dedos da outra mão pousados ao de leve sobre uma caveira. Em que pensará ela? No passado que a envergonha? Na transitoriedade da vida? Em Jesus? Há sombras carregadas por todos os cantos, mas no coração de Madalena parece estar prestes a fazer-se luz. Aquela luz ao mesmo tempo íntima e transcendente que, como a dos quadros de La Tour, nos atinge com a evidência de uma revelação.