A segurança americana e a Europa

A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA define com seu foco único apenas aquilo que pode afetar diretamente a segurança nacional americana, entendida muito para além dos aspetos tradicionais.

Para quem como eu viveu nos EUA, tem uma filha lá nascida e admirou Ronald Reagan, a leitura da Estratégia de Segurança Nacional (NSS) dos EUA foi um exercício doloroso, como um forte murro no estômago; um murro esperado (e em certa medida merecido), mas, ainda assim, doloroso. Doeu por vários motivos. Porque a NSS é um documento despido de qualquer declaração dos princípios generosos (mesmo que tantas vezes hipócritas) a que nos habituou a política externa americana, pelo menos desde a Primeira Grande Guerra. Porque é uma exposição sem subterfúgios, adoçantes ou desculpas do querer, poder e mando de uma grande potência face ao qual não podemos deixar de nos sentir frágeis. Porque não encontra espaço para uma condenação da Rússia, expondo antes uma mundivisão com a qual o Kremlin já fez saber que se identifica. Porque, finalmente, revela uma visão sombria das democracias Ocidentais e uma manifesta hostilidade à União Europeia (UE).

A NSS define com seu foco único apenas aquilo que pode afetar diretamente a segurança nacional americana, entendida muito para além dos aspetos tradicionais para incluir, também, a imigração, o tráfego de drogas, o comércio internacional e, mesmo, a «subversão cultural» (sic).  Embora reconhecendo que não a pode descartar, a Europa não figura alto nessas prioridades. Por isso os EUA desejam reduzir drasticamente os recursos afetos a garantir a liberdade e segurança europeias para se poderem concentrar, designadamente, na defesa dos seus interesses no hemisfério ocidental e no Indo-Pacífico. Uma das vias para tal é o aumento da participação europeia do financiamento da NATO. A outra é forçar a normalização das relações entre a Europa e a Rússia, ou seja, conseguir que a Europa deixe de encarar a Rússia como uma «ameaça existencial» (sic). Para tal é vital alcançar a paz na Ucrânia o mais rapidamente possível e a qualquer preço. Uma solução que, segundo a NSS, é desejada pela maioria dos europeus, e só a subversão dos processos democráticos pelos governos europeus (sic) e a atividade da UE impedem que se concretize. Assim sendo, é do interesse da segurança nacional americana «cultivar a resistência, dentro da Europa, à atual trajetória» (sic). A NSS coloca, portanto, os EUA ao lado dos governos da Europa central e dos atores políticos que são adversários de Bruxelas e simpatizantes de Putin.

A NSS tem uma profunda marca ideológica que se manifesta, sobretudo, na apreciação que é feita da Europa ocidental e que ecoa o discurso de J.D. Vance em Munique. Falar em «apagamento civilizacional», dizer que na Europa estão em causa a liberdade de expressão e que as oposições políticas às elites são suprimidas, ou considerar que em poucas décadas alguns países da NATO terão maiorias populacionais não europeias, são manifestos exageros. Mas têm um fundo de verdade: a obsessão com o discurso de ódio e o direito a não ser ofendido ameaça a liberdade de expressão em muitos países; e a imigração de gentes culturalmente muito diferentes constitui uma ameaça potencial à natureza profunda da Europa e coloca desafios que vão para muito para além dos do peso numérico dessas comunidades. Contudo, quase nada disto difere qualitativamente dos desafios enfrentados nos EUA.  A Europa só difere, verdadeiramente, pela presença muito notória de minorias islâmicas (que, ainda assim, se projeta não venham a ultrapassar 14% em 2050, muito longe, portanto da maioria).  E é nesta cruzada contra a presença islâmica e a suposta degenerescência moral das sociedades modernas, e em favor de valores cristãos tradicionais, que Putin é um aliado mais próximo da Administração Trump do que as elites ocidentais. E, para o movimento MAGA, a defesa desta fronteira dita civilizacional é mais importante do que a defesa da própria democracia liberal.

Os europeus devem estar preocupados sem, contudo, esquecer o movimento MAGA não são os EUA e que atrás dos tempos vêm tempos.

Professor universitário