O que resta do Fernandinho de Anissó, Vieira do Minho?A noção de terra, de pertença a uma comunidade, e também a noção, hoje muito esquecida, de que a palavra e o compromisso têm tanto ou mais valor do que os contratos escritos.
Na sua infância chegou a fazer trabalhos do campo. Alguma vez pensou em ter a sua quinta?
Admito que em dado momento isso me passou pela cabeça, mas a realidade depressa ultrapassou o pensamento. Mantêm-se, todavia, as raízes e com elas uma forte ligação ao campo e ao interior. E daí a minha grande atracção pelo distrito de Braga (terra dos meus avós maternos e da minha mãe), pela Cogula, aldeia do concelho de Trancoso (terra do meu pai) e desde que casei por São Pedro do Sul (terra da minha sogra). Essa ligação ao interior caracteriza-nos, não nos torna melhores ou piores, mas ajuda-nos, pelo menos a mim, a não esquecer de onde vimos e o que somos sem os adereços ou etiquetas tantas vezes fúteis da grande cidade.
Começou a sua atividade política, no Liceu Passos Manuel, a distribuir propaganda política do PS. O que o fez mudar de partido?
É verdade que com 13, 14 anos distribuí no Liceu panfletos da JS, mas nunca estive nela inscrito. Foi, no entanto, um sol de pouca dura e que terminaria logo nas férias de verão, em Anissó. Na altura, mais concretamente em 1976, o meu Avô era candidato pelo CDS à presidência da Câmara Municipal de Vieira do Minho e a sua influência foi determinante para me aproximar deste partido. Na verdade, com essa idade, eu não tinha o que muitos caracterizam de consciência ideológica, só a viria a adquirir algum tempo depois, pelo que a aproximação ao CDS e à Juventude Centrista foi essencialmente determinada por razões familiares.
Acha que as suas origens contribuíram para que uma parte do CDS não o tenha aceite ou tenha tentado ostracizá-lo?
Reparo que pesquisou! É verdade que logo após a minha eleição para presidente do CDS houve quem dentro do partido tivesse perguntado “mas quem é ele?”, numa alusão à ausência de um nome de referência. O apelido Monteiro talvez não entusiasmasse muito alguns salões preenchidos por coisa nenhuma, mas depressa essas alusões desapareceram face à adesão popular que a nova direcção suscitou.
Qual a razão para tantos ex-líderes do CDS terem mudado, posteriormente, de partido ou de terem colaborado em governos de outras cores?
Tantos? Com o Dr. Nuno Melo o CDS, depois CDS-PP, teve até hoje nove presidentes e que eu saiba só um, o professor Freitas do Amaral integrou um governo do PS. O professor Lucas Pires foi deputado europeu independente nas listas do PSD, e eu fundei a Nova Democracia e mais tarde regressei ao CDS. Cada um teve as suas razões e divulgou-as.
Foram públicas e notórias as suas divergências com Paulo Portas. A idade amenizou as divergências?
Curiosamente não foi a idade, foi o CDS-PP. Por incrível que pareça aquilo que tinha determinado a nossa ruptura política foi aquilo que ao fim de vinte e sete anos, e por iniciativa do Dr. Nuno Melo, há que dizê-lo, nos voltou a juntar. Depois do que se tinha passado nas eleições de 2022, houve consciência da importância de um encontro como sinal de o que o que estava em causa – a recuperação do CDS-PP – era muito maior do que a nossa individual circunstância. Sinto-me tranquilo e bem que assim tenha sido.
Sempre se caracterizou pelas suas convicções. Ainda defende a necessidade de uma revolução política a partir do Minho?
Atendendo às circunstâncias políticas que hoje temos pode parecer complicado responder a esta pergunta, mas como tenho passado político e não descobri os problemas do país há meia dúzia de anos reafirmo continuar a pensar o que sempre pensei. Que ninguém duvide que a Democracia precisa de ser salva de si própria e que a República precisa de ser restaurada. Sem isso Portugal continuará a enfraquecer.
Quais são os princípios tradicionais portugueses que tanto defende?
A soberania, o respeito pela história e a ligação ao mundo que o Mar sempre nos deu. E associados a esses princípios a coragem, a determinação, e o inconformismo que nos levou sempre para lá do que tínhamos.
O que lhe dá mais gozo no ensino universitário?
A certeza de que todos os dias aprendemos o que não sabíamos, mesmo que o julgássemos saber, o constante desafio das novas gerações, e o privilégio de pensar, e de convidar a pensar, sobre tudo o que transmitimos.
Está à frente do IDL (Instituto Amaro da Costa). Qual a importância do Instituto?
É imensa, porque é imenso o legado que o Eng. Amaro da Costa nos deixou. E o reconhecimento que o Senhor Presidente da República nos deu ao atribuir-nos a Ordem da Liberdade veio confirmar essa importância. Nós temos a missão de formar politicamente, em particular os mais jovens, assumindo sem hesitações a matriz de pensamento que nos identifica, a democracia cristã. Ainda que promovamos o debate plural, convidando para ele pessoas de todos os quadrantes, não somos neutros filosoficamente e o nosso dicionário político (consultável em https://idl.pt/dicionario/) é a prova disso. Temos a ambição de formar politicamente elites, boas elites, bons dirigentes, sabendo que isso é cada vez mais necessário na vida política.
Pensa ser possível o seu regresso à vida política ativa?
Se vida política activa é vida partidária eu não tenho hoje por ela qualquer atracção e não prevejo que a volte a sentir.
O que acha da pré-campanha para as eleições presidenciais? Muitos interrogam-se se não estão a apresentar um programa de Governo em vez da sua ideia para a Presidência. O que acha?
Bom, eu penso que o Presidente da República não é o notário do regime, pelo que não me incomoda saber o que pensam os candidatos sobre todas as áreas da governação. Como não me incomoda, bem pelo contrário, que um candidato assuma a sua orientação ideológica. Ser Presidente de todos os portugueses, não significa ser candidato de todos os portugueses. Mas o que eu gostaria era de ter um candidato que também tivesse um desígnio para Portugal, que visse para além de si mesmo, que nos projetasse para lá da rua em que vivemos ou trabalhamos, que nos ajudasse a libertar a ambição, a boa ambição, que sempre nos caracterizou enquanto Povo. E isso, até agora, ainda não tenho.
Sete adeptos do Sporting acusados pelo MP de tentativa de homicídio após jogo de hóquei com FC Porto
Violência extrema em Lisboa incluiu incêndio de viaturas, agressões e roubos com vítimas no interior dos carros.
O Ministério Público deduziu acusação contra sete arguidos, um dos quais reincidente, por um conjunto de crimes graves relacionados com episódios de violência extrema ocorridos em Lisboa, após um jogo de hóquei em patins entre o Sporting Clube de Portugal e o Futebol Clube do Porto, realizado a 10 de junho de 2025.
Segundo o comunicado do MP, os arguidos, adeptos do Sporting, estão acusados, em coautoria, de cinco crimes de homicídio qualificado na forma tentada, dez crimes de ofensas à integridade física qualificadas, um crime de incêndio, cinco crimes de roubo (um consumado e qualificado e quatro tentados) e três crimes de dano qualificado.
De acordo com a acusação, os suspeitos atuaram em grupo e de forma concertada, no âmbito de um plano previamente delineado, com o objetivo de atacar elementos do clube rival. O plano terá passado por incendiar as viaturas onde seguiam os adeptos do FC Porto, tendo conseguido atear fogo a um dos veículos com os ocupantes ainda no interior, impedindo a sua saída.
O Ministério Público descreve ainda um cenário de extrema violência, com os arguidos a agredir as vítimas com pancadas e bastonadas, a apedrejar pessoas e automóveis e a apropriar-se de bens de valor pertencentes às vítimas, no meio do ataque.
No âmbito das medidas de coação aplicadas, cinco dos arguidos encontram-se em prisão preventiva, enquanto os outros dois estão sujeitos à obrigação de permanência na habitação, com vigilância eletrónica.
A investigação foi conduzida pela 11.ª secção do DIAP de Lisboa, com o apoio da Polícia Judiciária, tendo o Ministério Público considerado existirem indícios fortes da prática dos crimes imputados, agora levados a julgamento.