É no Natal que os circos ganham maior visibilidade. Grandes ou pequenos, todos se enchem de adultos e crianças, ávidos para verem as mais variadas acrobacias e, claro, os palhaços. Mas no circo nem tudo é alegria. Há falta de dinheiro e de apoios e, muitas vezes, durante o resto do ano, quando andam em tournée, as receitas não cobrem as despesas.
«Ando no circo desde que nasci. A minha mãe começou a ter as dores do parto quando estava sentada na bancada, a ver o Marco Paulo, que nessa altura cantava no circo», recorda a empresária e artista de circo, Mirene Cardinali, de 52 anos. Nesse dia, 28 de dezembro de 1973, o circo estava na Madeira e assim Mirene nasceu madeirense. Mas podia ter nascido em qualquer outra parte do país.
No Natal, o Circo Mirene Cardinali instala-se junto ao Parque da Bela Vista, em Lisboa. Mirene recebeu a VERSA na véspera da estreia. Muito ainda estava por fazer mas já havia uma trapezista a realizar alongamentos, na pista.
O circo é itinerante e a realidade de artistas e empresários é andar sempre com a casa às costas, durante todo o ano. «Todos temos casa, porque temos de ter a nossa morada fiscal. Mas raramente estamos em casa. O ano todo é passado em roulottes», descreve. «E eu adoro! Adoro todas as semanas abrir a porta e ter uma paisagem diferente».
As rotinas são semanais, quando o espetáculo anda em tour, pelo país. «Trabalhamos sexta, sábado e domingo. No domingo, depois do espetáculo, desmontamos o circo, na segunda ainda continuam esses trabalhos, e depois começa a fazer-se as viagens para a próxima localidade». Este ano, o Circo Mirene Cardinali andou do Minho ao Algarve. Há três anos que a temporada de Natal é feita em Lisboa, durante cerca de um mês.
O milagre do Natal
A época é boa para equilibrar as contas, por que também no circo é preciso fazer malabarismos deste género: trabalhar muito na época alta para amealhar para os meses de verão, mais fracos para o negócio. «No Natal temos mais espetáculos, nestes 30 dias, entre dezembro e janeiro. Fazemos dois, três ou quatro espetáculos por dia, enquanto durante a tour fazemos um na sexta, dois ao sábado e, dependendo da localidade, também dois ao domingo».
Carlos Carvalho, presidente da Associação Portuguesa dos Empresários e Artistas de Circo [APEAC] dá conta de que esta é, de facto, época alta do circo: «Somos ao contrário dos outros; no Natal conseguimos ter mais rentabilidade. E precisamos de nos organizar e poupar, para os outros meses, que são mais complicados. O circo vai funcionando mas, por exemplo, em junho, com os Santos Populares e outras festas, para por completo».
O presidente da APEAC desvenda mesmo que os circos, cerca de 30 em Portugal, «vão trabalhando mas não se consegue, às vezes, superar as despesas. Aliás, isso acontece muitas vezes. Nos meses de verão, quando se consegue cobrir a despesa é ótimo! Temos de amealhar no inverno».
Nesta altura do ano há, ainda, os negócios com empresas, que fazem as festas de Natal no circo. «Isso é muito bom para o equilíbrio financeiro do circo, lógico», afirma Mirene Cardinali. Carlos Carvalho acrescenta: «O que é que também faz com que o Natal seja a época alta? É que as empresas querem fazer as suas festas e compram a lotação da sala, o que para um empresário é ótimo!».
Na bilheteira do Circo Mirene Cardinali, instalado na zona de Chelas, um adulto paga 20 euros e uma criança, até aos 12 anos, paga dez. Este é um circo de média dimensão e tem capacidade para mil lugares sentados. «O circo é o único espetáculo verdadeiramente ligado à família. É para gente dos três aos 90 anos. Funciona bem nesta altura porque há mais o espírito da família entre as pessoas. Aliás, há famílias que nos contam que têm a tradição, desde há vários anos, de virem ao circo, só no Natal», descreve a empresária de circo.
Quanto maior o circo, maiores as despesas. E Mirene dá o exemplo do primo, Victor Hugo Cardinali, dono de um grande circo. «Os circos maiores têm seguros mais caros, também se paga mais aos municípios pela emissão de ruído, os direitos de autor, tudo. Quanto maior, mais caro se torna». Mas também mais lucrativo. E isso nota-se em tudo. «Um circo como o do meu primo tem outro tipo de roupas, com tecidos mais luxuosos, as tendas são maiores e tem muitos animais». Mirene conclui: «Isto é como uma fábrica. Se dá pouco, temos menos. Se dá mais, podemos ter mais artistas e muito mais coisas».
Consoada no Circo
Na noite de Natal o circo está fechado e a tenda da entrada serve de sala de jantar para a consoada. «No Natal juntamo-nos todos, apesar de não sermos todos da mesma família», desvenda Mirene, que tem alguns artistas contratados, incluindo um grupo de colombianos que faz o arriscado número ‘Globo da Morte’, com quatro motas, em grande velocidade, a cruzarem-se dentro de um gigantesco globo metálico. «Montamos mesas, cadeiras e acaba por ser uma mesa enorme, com 20 ou 30 pessoas».
Uma certa tradição mantém-se. «A mulher mais velha do circo é que organiza tudo; diz quem faz o bacalhau, quem faz as batatas. E assim festejamos esta quadra. Mas sempre que há festas é assim e até já fizemos casamentos no circo».
No dia seguinte, 25 de dezembro, Natal, é tempo de voltar ao trabalho. «Se calhar a um domingo temos a primeira sessão às 11h00, que as crianças gostam muito. Se não, começamos às 16h30».
Mirene Cardinali é uma mulher alegre. Mas o brilho, a cor e a alegria do circo escondem algumas dificuldades. «O circo dá para ir vivendo. Não é que nos enriqueça, senão os mais velhos já tinham saído. A gente gosta desta vida mas só dá para ir vivendo», conta a empresária e artista, que este ano não atua, porque vai ser sujeita a uma intervenção cirúrgica, mas que costuma fazer um número musical com transformismo e outro com cães.
Muitos custos e poucos apoios
Os gastos, garante, são muitos. «As taxas municipais são muito grandes. Depois, cada câmara municipal é autónoma: uma pode pedir 10 euros como a outra pode pedir mil. Além disso temos de pagar o terreno, a luz, a água, essas coisas todas têm o seu preço». O presidente da APEAC, Carlos Carvalho, corrobora o relato de Mirene. «As licenças são um problema gravíssimo! Temos câmaras municipais a pedirem 250 euros por dia só de licença de ruído».
Quanto a apoios do ministério da Cultura, Mirene Cardinali aponta: «Nunca somos elegíveis». Carlos Carvalho, que é também apresentador do circo Victor Hugo Cardinali, explica o que se passa. «Das várias pesquisas que fizemos, quando fundámos a associação, em plena pandemia, encontrámos uma lei que dizia que o ministério da Cultura apoia todas as artes mas, em relação ao circo, dizia só ‘circo contemporâneo’». Desta forma, o circo tradicional, como o de Mirene ou Victor Hugo Cardinali ficavam de fora. «Quando nós nos candidatávamos a um apoio, fosse qual fosse, a resposta era sempre que não éramos elegíveis».
Entretanto, fruto de grande esforço por parte da APEAC, a lei mudou. «Fui recebido pelo senhor Presidente da República em maio de 2020 e, nesse mesmo mês, fui recebido no ministério da Cultura. Levantei a questão ao senhor Presidente, que disse que isso tinha de ser tratado com urgência e, no dia 31 de dezembro de 2020, essa lei foi alterada», recorda Carlos Carvalho. «O circo passa a constar, junto com outras artes, com a expressão única: ‘circo’».
Os exemplos europeus
Ainda assim, a associação de atividades circenses continua a sua luta. Carlos Carvalho encontrou-se com a atual ministra Margarida Balseiro Lopes e o secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, no 1º Fórum da Cultura, no CCB, no dia 22 de outubro. «Andamos a lutar há muito tempo para que o Governo tenha apoios concretos ao circo itinerante e tradicional como têm todos os países da União Europeia».
Destas conversas, ficou combinada a marcação de uma reunião entre o presidente da APEAC e a ministra para apresentação de um modelo de apoios. «Gostaríamos de apresentar um modelo semelhante ao de Espanha onde existe, há mais de 30 anos, um Prémio Nacional de Circo. Ou seja, em Espanha há um prémio para o circo como aqui existem prémios para Teatro e Cinema. E, depois, queremos negociar apoios diretos ao circo».
A VERSA expôs todas estas questões ao gabinete da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, mas não obteve qualquer resposta.
Carlos Carvalho explica que as despesas são ainda maiores com a entrada em vigor das regras da União Europeia, em Portugal. «Temos uma série de medidas de segurança que temos de cumprir. As tendas têm de ser em material anti-ignífero, as bancadas obedecem a certas medidas, em Portugal, isso é pago às custas dos empresários e dos artistas».
O apresentador de circo dá exemplos de apoios concretos noutros países europeus. «Em Itália, por exemplo, tudo o que é material de circo para cumprir normas é apoiado em 80% a fundo perdido. Em Espanha, se houver um investimento de um circo, esse circo faz uma exposição ao governo e este estipula uma verba para apoiar no dinheiro que foi investido».
E todas estas despesas são tudo menos baratas. «Uma bancada de circo nova, só para ter uma ideia, custa 150 euros por lugar. Se quiser uma bancada de mil lugares são 150 mil euros. É muito dinheiro para um circo!», reforça o presidente da APEAC. «O material de circo certificado é caríssimo. Uma tenda custa mais de 100 mil euros, só o plástico. A estrutura do circo custa 70 ou 80 mil euros. O circo é caríssimo e não há fábricas em Portugal, tem de vir tudo de Itália. Se tudo isto não for apoiado, os empresários e artistas de circo têm uma enorme dificuldade em cumprir com todas as regras».
Além de tudo isto, os circos são inspecionados e certificados todos os anos pelo ISQ (Instituto de Soldadura e Qualidade) ou pelo IEP (Instituto Eletrotécnico Português), o que só por si representa outro custo para os circos.
Por tudo isto, o presidente da APEAC vê no circo um «espetáculo muito rico, por toda a variedade de números que apresenta. Mas, por outro lado é muito pobre. Os empresários têm dificuldades e estão sempre no fio da navalha, a não ser que tenham grandes circos».
Mirene Cardinali, nascida no seio de uma das mais antigas famílias circenses em Portugal, com ascendência italiana, também dá conta da importância do circo na cultura portuguesa. «O circo é a mãe de todas as artes. O teatro, o cinema, o canto, tudo isso começou – bem lá para trás nos nossos antepassados – no circo». A empresária enfatiza: «Se formos a ver há imensas coisas que estão presentes no circo: a ginástica, a dança, a acrobacia». E, claro está, os palhaços. «Os antigos diziam que um circo sem palhaços é como um jardim sem flores. E é verdade. As crianças gostam muito e os adultos também».
Só que, tal como outros números circenses, os palhaços estão agora mais modernos e diferentes. «Na verdade, temos mais cómicos do que palhaços. Já não temos bem aquele palhaço que era o de há 30 anos. Os palhaços já não se pintam tanto, já não se vestem com certas roupas, mas muitos continuam a ter os seus sapatos gigantes. E, em Portugal, só há um sapateiro, já muito velhote, que faz os sapatos para os palhaços».
Até 2009 era possível ver todo o tipo de animais nos circos. Havia leões, elefantes, tigres, hipopótamos, macacos e repteis. Atualmente, os animais selvagens estão proibidos por lei e constam de uma lista elaborada pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas [ICNF].
Os animais domésticos são permitidos, tal como os cães de Mirene. Porém, os municípios podem proibir o trabalho dos animais no circo, como é o caso de Lisboa. Por isso, a artista não poderá exibir o número com os canídeos, que consiste em fazer pequenas brincadeiras. «Normalmente, em Lisboa não aceitam animais. Só trabalhei aqui, com os cãezinhos, em 2023».
Victor Hugo Cardinali, que tem no seu elenco cavalos e camelos, também já se deparou com esse problema, quando, há quatro anos, começou a montar o circo no Passeio Marítimo de Algés, em Oeiras. «O presidente da câmara disse que os camelos não podiam atuar, por serem animais selvagens. Eu fiz-lhe ver que não é assim», avança Carlos Carvalho. «Não estão na lista do ICNF. O presidente da câmara desconhecia a lei mas, assim sendo, permitiu os camelos».
Todos fazem de tudo
É comum, durante o intervalo do espetáculo, reconhecermos alguns artistas a venderem pipocas ou algodão doce. Afinal de contas, no circo todos têm de ajudar noutras atividades, além dos seus números. «Temos de nos ajudar uns aos outros. Se não nos ajudarmos o circo não consegue continuar», afiança Mirene Cardinali. São também os artistas que vão arranjando aquilo que se estraga com o uso e não há quem não se “ajeite”.
A falta de dinheiro assim o obriga. «Os artistas e empresários de circo têm uma enorme dificuldade e, para conseguirem sobreviver em Portugal, têm de ser condutores, eletricistas, serralheiros, carpinteiros… Os artistas têm de fazer estes trabalhos porque se um empresário de circo for pagar a pessoas de fora, não consegue sobreviver», explica Carlos Carvalho.
Seja como for, Mirene Cardinali não se dá por vencida. «Quando nascemos no circo isto está-nos no sangue. Aliás, uma criança que nasça e seja criada no circo, aí aos 12, 13 anos já está preparada para fazer o seu número, sem grande necessidade de ensaiar». No Natal, este circo faz, também, um maior investimento em artistas. «Durante a tour anda mesmo só a família e um ou outro artista de fora que contratamos. No Natal temos de ter números diferentes e chegam mais artistas de fora».
E quanto é que ganham os artistas de circo? «Depende. Imagine que vem um artista do Circo de Monte Carlo. Esse artista obviamente que é muito bom e pode chegar a ganhar 100 euros por dia. Já os miúdos que saem da escola, que não cresceram no circo e ainda estão a aprender a estar em pista, que têm de ensaiar mais, podem ganhar a partir de 20 euros por dia, conforme o número que fazem», conta Mirene Cardinali que deixa um convite para que todos vão ao circo. «É um mundo de fantasia, de cor, e durante aquele tempo do espetáculo acho que as pessoas se esquecem de tudo lá fora. Aqui em Lisboa temos o circo tradicional, mas a nossa companhia tem, também, um espetáculo que é o ‘Circo dos Horrores’, mais para adolescentes e adultos. Ainda não está fechado, mas em princípio vamos fazer duas sessões em janeiro, para fechar a temporada».