sexta-feira, 06 fev. 2026

A batalha que vale a pena

Se não apoiarmos intransigentemente o heroísmo dos ucranianos, estaremos inevitavelmente, dentro de poucos anos, em guerra direta com o imperialismo russo, perante o encolher de ombros de Trump...

Felizmente, a ‘rua’ europeia está a acordar. Em França, Macron encontrou um improvável apoio popular ao anunciar a criação de uma nova força de defesa. A Alemanha está a reforçar rapidamente as suas forças armadas. E os EUA já não podem travar a resistência europeia motivada pelo justificado receio do expansionismo russo, uma vez que deixaram de ser vistos como aliados. Aliás, os políticos europeus estão pressionados pela opinião pública para terminarem com o alinhamento com o Tio Sam no Médio Oriente. Assim sendo, o maior risco para a Europa são as vozes de apaziguamento, a par da morosidade do processo de autonomia estratégica.

Em Portugal, esse apaziguamento é protagonizado pela ‘quinta coluna’ doméstica, que não nasceu com a guerra da Ucrânia: sempre existiu, com inúmeras ramificações. Os mesmos que não querem que os seus filhos combatam longe do solo pátrio são capazes de caucionar as reivindicações de um Estado imperialista que nos ameaça, fingindo ignorar que, se a Ucrânia cair, teremos de optar entre defender o que é nosso ou enveredar pelo colaboracionismo.

O termo ‘quinta coluna’ é usado para definir quem, agindo dentro do seu país, atua por qualquer motivação ou interesse em prol do inimigo, fazendo propaganda e concionando a opinião pública com o propósito de desmobilizar uma eventual reação à agressão externa. A ‘quinta coluna’ é camaleónica: ajusta-se rapidamente ao seu entorno, alternando entre o pacifismo e o apaziguamento.

Essa antecâmara – e potencial base de recrutamento para o colaboracionismo – convive bem com a democracia liberal: beneficia da liberdade de expressão, mesmo quando tem o propósito último de a minar. As redes sociais são o seu pasto fértil e acrítico. Mas a antecâmara também tem acesso a canais formais, onde a diferença de opinião é valorizada e aumenta as audiências mesmo quando suscita a indignação da maioria.

Ademais, a ‘quinta coluna’ portuguesa não hesita em construir narrativas com base em mentiras. Por exemplo, se é óbvio que a estratégia russa aposta, por incapacidade militar, em desmoralizar os ucranianos através de atos de guerra criminosos contra a população civil, escolhendo alvos sem qualquer interesse estratégico, como se entende que haja peritos militares que, nas mesmas televisões onde as imagens passam, consigam desmentir essa evidência?

Como é possível que essa falange defenda que a paz só é exequível e justa se a Ucrânia aceitar as imposições russas, a qualquer preço e em benefício exclusivo do infrator? Como podem fingir não saber que um armistício incondicional teria consequências terríveis para a Ucrânia e legitimaria qualquer futura invasão russa a um outro país, fazendo perigar a segurança do nosso continente e a sobrevivência dos nossos valores?

As ameaças de Putin, a braços com uma situação interna insustentável, fazem nossa a frente de batalha na Ucrânia. Se não apoiarmos intransigentemente o heroísmo dos ucranianos, estaremos inevitavelmente, dentro de poucos anos, em guerra direta com o imperialismo russo, perante o encolher de ombros de Trump, que deixou claro que a Europa deve assumir a maior parte das capacidades de defesa da NATO até 2027. O que nos desobriga de sermos seus cúmplices na traição à Ucrânia, nos devaneios na Venezuela, nos desastres no Médio Oriente, nas guerras comerciais com a China e a Índia, com quem, aliás, temos de dialogar sem preconceitos.

Sim, a Administração russófila de Trump e o seu amigo Putin só entenderão a Europa quando formos capazes de lhes dizer que as fronteiras da Ucrânia são, também, as nossas. Aos pacifistas impenitentes, só lhes posso recordar Albert Camus: «a paz é a única batalha que vale a pena travar».