Era véspera de um dos concertos mais importantes da sua carreira quando o padre Guilherme Peixoto recebeu a notícia: teria de refazer toda a atuação. O motivo? Um convidado especial de última hora. Nada mais, nada menos que Sua Santidade, o Papa Leão XIV.
A história do padre de Braga que mistura música eletrónica com fé católica chegou esta semana ao Washington Post, um dos jornais mais influentes dos Estados Unidos. E tudo por causa de um vídeo que se tornou viral em novembro, quando atuou na Catedral de Santa Isabel, na Eslováquia, num evento que juntava um festival de juventude e a celebração de aniversário do arcebispo de Košice.
A noite antes do viral
Segundo relata o Washington Post, o padre Guilherme Peixoto estava a jantar quando a equipa de produção da igreja começou a agitar-se com uma novidade bombástica: o Vaticano tinha enviado uma mensagem de vídeo surpresa do Papa para abrir o espetáculo.
"Disse: 'Sim, está bem, tenho de trabalhar isto para amanhã'", contou o padre português de 51 anos ao jornal americano, por videochamada.
O que se seguiu foi uma maratona criativa. Durante toda a noite, o padre Guilherme e a sua equipa trabalharam para integrar a mensagem papal no set, adicionando camadas de sintetizadores ao discurso do Papa, misturando e masterizando as faixas. Às três da manhã, voltou a acordar para terminar os últimos ajustes.
O resultado? Um momento cinematográfico: névoa artificial envolveu a catedral gótica dramaticamente iluminada enquanto a mensagem de Leão XIV era projetada num ecrã, acompanhada por sintetizadores envolventes. Quando o "Amen" do Papa ecoou sobre a multidão, as luzes piscaram, a música cresceu. E então, o padre Guilherme largou a ‘batida’.
Quando o viral parecia demasiado bom para ser verdade
O vídeo explodiu. Mais de 10 milhões de visualizações apenas no Instagram. A cena era tão improvável, uma catedral gótica, um padre DJ, o Papa, que muitos espetadores questionaram se seria inteligência artificial. Mas era real.
E o Washington Post quis saber como é que um padre católico português, que não prescinde do cabeção nas atuações, chegou até ali.
Das discotecas à batina: a dupla vida de Guilherme Peixoto
O artigo do jornal americano mergulha no passado de Guilherme Peixoto, revelando que antes de ser padre, já frequentava a cena underground de house e techno, admirando nomes como o britânico Carl Cox e o produtor de techno de Detroit, Jeff "The Wizard" Mills.
No seminário, continuou a ir a discotecas e a tocar numa banda com outros seminaristas. Todos assumiam que iriam desistir da música assim que fossem ordenados. Mas, o futuro padre tinha outros planos.
Festas que pagam dívidas da paróquia
Quando foi colocado na Póvoa de Varzim em 2001, logo após a ordenação, o bispo pediu-lhe que assumisse também outra igreja nas proximidades. Mas havia a questão de estar endividada e a precisar de reparações.
A solução do padre Guilherme foi criativa: abrir um pequeno bar paroquial durante o verão, com noites de música. Mas não com os habituais coros e karaoke.
"Música calma, música romântica, não é boa para o negócio", explica ao Washington Post. "As pessoas querem cantar, as pessoas precisam de dançar para se divertirem", acrescenta.
Controlando a música do seu portátil, foi expandindo o equipamento e as competências. Em três anos, a paróquia conseguiu pagar a totalidade da dívida de aproximadamente 29 mil dólares (cerca de 27 mil euros).
Aos 40 anos, aluno numa escola de DJs
Autoproclamado "perfeccionista", Peixoto quis profissionalizar-se e inscreveu-se numa escola de DJs no Porto. Aos 40 anos, encontrou-se rodeado de jovens que aprendiam muito mais depressa do que ele.
"Às vezes ficava furioso porque eles aprendiam muito mais rápido do que eu. Como é possível estas crianças conseguirem misturar tão bem?", recorda, entre risos, na entrevista ao jornal americano.
Ocasionalmente, tinha de sair das aulas por deveres clericais. "Alguém morreu na minha paróquia e preciso de organizar o funeral", explicava ao professor.
A equipa dos 12 apóstolos modernos
À semelhança de Jesus, o padre Guilherme tem uma equipa de 12 pessoas que apoiam o seu ministério musical. O dinheiro ganho nos concertos é reinvestido na equipa, com a bênção do arcebispo de Braga.
Ocasionalmente, os superiores levantam questões sobre a natureza das suas atuações. O padre pede conselho e é sempre apoiado. "Mesmo que o meu bispo não compreenda tudo, confia no que faço", revela ao Washington Post.
Guilherme Peixoto encontrou-se três vezes com o Papa Francisco. Na segunda vez, pediu-lhe para abençoar os seus auscultadores Sennheiser.
A mensagem por trás das batidas
O padre DJ explica que quer ajudar os jovens a experimentar o amor de Deus através da alegria, amizade e comunhão encontradas na música. Numa altura de crescente isolamento social entre a juventude mundial, acredita no poder da música de dança para amplificar a mensagem divina.