quarta-feira, 11 fev. 2026

Liberdade de expressão caiu 10% em doze anos e recuo é comparável ao da Primeira Guerra Mundial

Este retrocesso está ligado à situação do jornalismo a nível global. A UNESCO destaca que os repórteres enfrentam um período marcado pelo aumento do assédio, das ameaças físicas e da violência, especialmente em zonas de conflito
Liberdade de expressão caiu 10% em doze anos e recuo é comparável ao da Primeira Guerra Mundial

A liberdade de expressão a nível mundial caiu 10% entre 2012 e 2024, um retrocesso histórico comparável ao ocorrido durante a Primeira Guerra Mundial, alertou esta segunda-feira a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

A conclusão consta do estudo “Tendências mundiais do jornalismo: configuração num mundo de paz 2022/2025”, que estabelece uma ligação direta entre a deterioração da liberdade de expressão e tendências preocupantes no ecossistema mediático, como o aumento da autocensura, o enfraquecimento das instituições democráticas, a quebra da confiança pública e o aprofundamento da polarização social.

Segundo a UNESCO, esta regressão coincidiu “com retrocessos em matéria de igualdade, juntamente com uma crescente hostilidade para com jornalistas, cientistas e investigadores ambientais”, num contexto em que o domínio das grandes empresas tecnológicas criou “um terreno fértil para a propagação do discurso de ódio e da desinformação na Internet”.

“Em conjunto, estas pressões políticas, sociais e comerciais estão a minar a liberdade, a pluralidade e a diversidade dos meios de comunicação”, sublinha a organização, que alerta ainda para os efeitos prejudiciais da inteligência artificial generativa, responsável, nos últimos dois anos, por aprofundar a crise de valor dos meios de comunicação tradicionais.

O relatório indica que, entre 2012 e 2019, a contração no índice de liberdade de expressão foi relativamente moderada, mas acelerou a partir de 2020 e, sobretudo, desde 2022, a um ritmo anual de 1,30%, muito acima da média de 0,86% registada no período 2012-2024.

Este retrocesso está ligado à situação do jornalismo a nível global. A UNESCO destaca que os repórteres enfrentam um período marcado pelo aumento do assédio, das ameaças físicas e da violência, especialmente em zonas de conflito. Entre 2022 e 2025, morreram 185 jornalistas, um aumento de 67% face aos quatro anos anteriores.

Só em 2025, perderam a vida 91 jornalistas, sendo que 41% morreram em ataques deliberados. A impunidade permanece elevada: até 2024, a UNESCO estima que 85% dos autores destes crimes não tenham sido condenados.

A autocensura entre jornalistas cresce a um ritmo próximo de 5% ao ano e, no total, aumentou 63% entre 2012 e 2024, sobretudo em temas sensíveis como a corrupção, devido ao receio de represálias. Em paralelo, a vigilância digital e as leis restritivas aumentaram 48%, dificultando particularmente o trabalho do jornalismo independente, num contexto de crescimento do assédio ‘online’, de ações judiciais abusivas e de práticas de intimidação.

Apesar do aumento do acesso global à Internet, o estudo sublinha que o índice da democracia continua a cair. Pela primeira vez nas últimas duas décadas, os regimes autocráticos superam as democracias, com 72% da população mundial a viver atualmente sob regras não democráticas — o valor mais elevado desde 1978.

Este índice é construído a partir do maior conjunto de dados globais sobre democracia, compilado por uma rede internacional de milhares de académicos e especialistas coordenada pelo Instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, tendo em conta fatores como a censura aos meios de comunicação, o assédio a jornalistas e a liberdade de expressão académica e cultural.