“Laguna”, de Sharunas Bartas (2025): “Estou a dar a volta ao sol”

Estão lançadas as bases para um filme muito fino.
“Laguna”, de Sharunas Bartas (2025): “Estou a dar a volta ao sol”

Tudo morre debaixo do sol. Olho à minha volta e cada uma destas pessoas é a promessa de um morto – e sabe. Ina, a filha mais velha de Sharunas Bartas (e de Yekaterina Golubeva), foi atropelada por um bêbedo e morreu. Esse dia de terror em Vilnius levou Bartas ao México para lhe oferecer um filme. Já se escreveram muitos textos sobre pais a quem morrem filhos, e a dor animalesca que os consome. Transformam quartos em santuários e gritam, gritam… misturam-se depois entre nós, disfarçados de gente completa. Uns calam-se e outros cantam, porque ainda não foi descoberta a fórmula do luto. Sharunas Bartas fez “Laguna”, e parece que com ele a pedra de Sísifo se apequena.

Bartas viaja com Una Marija (a irmã mais nova de Ina) por La Ventanilla, a lagoa de Oaxaca onde Ina esteve para fazer um filme e se misturar com a gente, pouco tempo antes de morrer. Liga a câmara, aponta-a ao seu coração e começa a falar, contra as imagens serenas dos lugares exóticos: “Nesta vida, que é tangível, a minha filha Ina partiu…”. Os planos de “Laguna” demoram-se sobre os rituais dos animais e dos elementos, destrinçando o que se esfuma (quem, debaixo do sol, sofreu a sua transformação) e o que permanece (as suas carapaças), mostrando um sistema aparentemente perfeito em que todos os seres concorrem para um significado misterioso. O filme nunca simplifica esta ideia, nem omite a insondabilidade do mistério: não apresenta tendências para qualquer tipo de misticismo ou panteísmo, de que pudéssemos safar-nos fundidos com a natureza ou no controlo da narrativa. Trazemos gravada – talvez cravada – em nós a condição de apartados. Vemos como tudo se desfaz e sobre isso construímos teses que possam também desfazer o mistério… mas não em “Laguna”. Este é um exercício de vulnerabilidade total, que não podia assemelhar-se menos a um manual, em que se ensinasse sobre o luto, a viagem ou a existência. Parte de uma visão de transcendência (filosófica, sobre a exterioridade de cada coisa relativamente a todas as outras): “Pouco sei, mas sei que não sou um pássaro, uma árvore ou um trovão, nem faço trovejar pelas minhas acções. Não serei pássaro na próxima vida, nem este pássaro que ouço cantar é a minha filha morta, embora me lembre dela”.

Estão lançadas as bases para um filme muito fino.

Não vou esconder que este é um dos filmes que mais me comoveu em muitos anos, e que foi feito por um realizador por quem tenho muito carinho, desde que vi “Few of Us” (1996) e o que o antecedeu. De todas as formas, sinto-me surpreendido e espantado com a maturidade emocional que o envolve. Já sabíamos que Bartas sabe contar histórias mostrando apenas as linhas de um rosto e um par de mãos gretadas. Foi para realizadores como Sharunas Bartas (são poucos, são raros) que se inventaram chavões como o de “contemplativo”, e não para todos os que se demoram em planos sem rumo e que cavalgam as vagas do “slow cinema”. Os seus tempos, a atenção aos barulhos e aos tremores corporais, e as histórias que elipsa nas coordenadas, convertem os sujeitos que filma em templos. Fixar um instante não vale por si: vale pelos instantes que escaparam, e que ainda assim reverberam na imagem.

As imagens de “Laguna” são acompanhadas de um texto que pesa, que lhes atribui uma dimensão de temor e de encanto. Como se o mundo pisasse os viajantes que as navegam, e desse confronto (“entre ti e o mundo, escolhe o mundo”) resultasse uma relação de paixão. Com a devida distância, este filme faz-me pensar em “The Fire Within: A Requiem for Katia and Maurice Krafft” (2022, Werner Herzog), porque os dois são requiems particulares, que contêm neles a história da criação.

Embora o filme represente a vida em ciclos (o que não é esperançoso, mas antes factual), não se exime de explorar o peso absoluto de cada momento. O centro de “Laguna” é, naturalmente, a relação que é estabelecida entre o pai (Sharunas Bartas) e a sua filha mais nova (Una Marija), o que, em função dos métodos usados (que Bartas maneja com especial cuidado e generosidade), acontece em directo: tudo o que mostram aconteceu, no momento das filmagens. A sua força reside então nos termos desta relação, que no cinema me recorda apenas uma outra: a de Leonor Silveira (a mãe) e Filipa de Almeida (a filha) no filme que Manoel de Oliveira fez sobre o fim da Europa: “Um Filme Falado” (2003).

Entre Sharunas Bartas e Una Marija forma-se um laço de honestidade que permite que, apesar da diferença de alturas, se olhem sempre nos olhos. Em nenhum momento o discurso é simplificado para que Una o compreenda, e Una nunca fica para trás. Com graça, cumpre as suas responsabilidades diante do pai, que cuida dela e a guia por lugares muito escuros. Fazem um luto de mãos dadas.

Podemos sempre perguntar quanto disto é sobre o filme; e quanto é sobre a história que conta. O que é uma crítica, ou um texto sobre cinema? Estou convencido de que estas reflexões sobre “Laguna” resultam exclusivamente das coordenadas do filme. As ideias de “laços”, “honestidade”, “graça”, “responsabilidade” e “luto” não são textuais: elas são o que sobra na sala de cinema, fruto de um trabalho meticuloso, quando uma sucessão de planos desemboca nas primeiras palavras dos créditos, escritas em branco sobre o fundo preto, que são “Em memória de Ina Marija Bartaité”.

Podem tocar nas vossas guitarras canções que alegrem noites de farra, e sorrir de cigarro entre os dentes ao cantarem letras tristes, cansar os olhos com as cores garridas do México, que de tão fortes apenas podem esbater-se; isso não engana ninguém. Sabem o que vos foi prometido. Não parem de tocar, se vos cortarem as cordas, “porque morreu Ina Marija!”. É por isso que tocam.

“Laguna”, de Sharunas Bartas, estreou em Portugal no dia 11 de Dezembro de 2025.