Assinala-se, anualmente, a 24 de novembro o Dia Nacional da Cultura Científica, em homenagem a Rómulo de Carvalho. Um dia para que outros como nós, que fazemos ciência diariamente, despertem também a curiosidade para o universo em que navegamos. Neste dia promove-se o ensino e a investigação científica e inspiram-se os mais pequenos, as novas gerações de cientistas, a questionar o que ainda não sabemos sobre tudo o que nos rodeia. É desta constante inquietação, da vontade de fazer perguntas e conhecer as suas respostas, que resulta a tecnologia e a inovação que transformam o nosso quotidiano.
Por coincidência no Dia Nacional da Cultura Científica deste ano, e no âmbito da iniciativa promovida pelo Instituto Superior Técnico, ‘Engenharia e Ciência vão à Escola’[1], visitei uma turma de meninas e meninos do segundo ano de escolaridade. Fui apenas mais um dos cerca de 60 professores e investigadores do universo Técnico que em cinco dias partilharam as suas experiências com mais de mil alunos entre os 1.º e 9.º anos.
Falar para uma sala cheia de olhos arregalados, inquietos e com vontade de aprender transporta-me sempre para as primeiras aulas de um novo ano letivo, em que um nervoso miudinho existe e percorre o corpo de cima a baixo. A responsabilidade é grande. Abrir sessões para mais novos com a palavra geofísica é um risco que provoca invariavelmente reações inesperadas sobre uma palavra tão pouco comum, e frequentemente ignorada, acrescento eu. Houve tempos em que esta reação e a pergunta ‘o que é isso?’ me fazia passar de um nervoso miudinho para uma ansiedade considerável. Fui testando várias respostas com amigos e família, como se de um texto de comédia se tratasse, até ter chegado a uma fórmula que normalmente não falha. Ser geofísico é querer conhecer tudo aquilo que está e se passa debaixo dos nossos pés. Aos narizes que normalmente se enrugam como um gesto de suspeição, continuo a descrever que o planeta Terra é um sistema complexo, dinâmico a múltiplas escalas, e que fazer perguntas sobre o subsolo é essencial para a nossa segurança e dos edifícios que habitamos, por causa do risco sísmico, para uma agricultura e gestão de recursos minerais e energéticos sustentáveis e para conhecer a origem e o destino de oceanos, mares e continentes ao longo do tempo geológico, medido em milhares de anos. Uma escala de difícil perceção, mas que impacta o quotidiano.
Se o que está debaixo dos nossos pés é ubíquo, o tratamento e a atenção que dedicamos a este ramo da ciência, as geociências, é inversamente proporcional ao seu impacto nos nossos dias. A estranheza que estas palavras nos provocam está, considerando a amostra enviesada que são as minhas interações diárias, relacionada com a falta de uma cultura para as ciências da Terra. Um distanciamento que começa demasiado cedo com a maioria dos professores do ensino básico que ensina geologia com formação quase exclusiva nas ciências da vida, e um número relativamente baixo de professores de geologia no ensino secundário que limita o número de opções dos alunos neste ciclo do ensino obrigatório. Dos nossos vizinhos europeus mais próximos somos ainda o único país sem serviços geológicos diferenciados. Serviços que são responsáveis, por exemplo, pela cartografia geológica em terra e no mar, prospeção de recursos minerais e energéticos, incluindo os minerais verdes para a transição energética e a geotérmica, gestão de dados geocientíficos, avaliação de riscos geológicos. Atividades críticas para o bem-estar e a segurança de todos nós. A pulverização destes diferentes serviços por múltiplas entidades, algumas delas temporárias que se fixaram de forma premente, ou o seu agrupamento em agências de grandes dimensões, dificulta uma visão estratégica de longo termo, uma boa gestão dos georrecursos e limita a promoção das geociências. As empresas, nacionais e internacionais, com atividade nestas áreas e que geram empregos frequentemente pagos acima da média têm dificuldades na atração e recrutamento de talento porque também o número de licenciaturas e mestrados relacionados com geociências nas universidades nacionais tem vindo a diminuir.
O Departamento de Engenharia de Recursos Minerais e Energéticos do Técnico é uma das poucas exceções e, fruto de uma visão estratégica, tem vindo a contrair esta tendência. Para miúdos e graúdos que queiram saber mais sobre o que se passa debaixo dos nossos pés, nesse sistema complexo e silencioso, no Técnico é sempre Dia Nacional da Cultura Científica e temos as portas sempre abertas.
Professor do Instituto Superior Técnico
[1] https://tecnico.ulisboa.pt/pt/noticias/engenharia-e-ciencia-vao-a-escola-investigadores-do-tecnico-percorreram-dezenas-de-escolas-do-ensino-basico-durante-cinco-dias/