sábado, 17 jan. 2026

Francisco Bethencourt. ‘‘Os cristãos-novos estão numa margem. E essa margem dá origem a comportamentos experimentais”

Numa conversa a partir de Cambridge, de que publicamos esta semana a primeira parte, o historiador fala-nos sobre a Inquisição e cristãos-novos. ‘Consultei literalmente milhares de processos e vi como como podiam ser manipulados’, revela
Francisco Bethencourt. ‘‘Os cristãos-novos estão numa margem. E essa margem dá origem a comportamentos experimentais”

Licenciado em História pela Faculdade de Letras, passou pelo Instituto Gulbenkian de Ciência e fez o mestrado na Universidade Nova com Vitorino Magalhães Godinho, uma figura «de outro nível» com quem aprendeu muito e que muito o marcou. Doutorou-se em Florença, no Instituto Universitário Europeu, foi diretor da Biblioteca Nacional e do Centro Cultural da Gulbenkian em Paris. «Tanto na Biblioteca Nacional como na Gulbenkian foi uma experiência muito boa, porque também é preciso sair do meio universitário e fazer outras coisas», recorda. «Mas eu queria escrever livros e o meio universitário é o ideal para isso». Optou por regressar à universidade e concorreu a um lugar no King’s College, em Londres, onde ocupa desde 2005 a cátedra Charles Boxer.

É autor de História das Inquisições (Círculo de Leitores), onde compara os casos português, espanhol e italiano, da primeira história do racismo no Ocidente (Racismos: Das Cruzadas ao século XX, Temas e Debates) e, mais recentemente, de Estranhos na sua Terra – Ascensão e queda da elite mercantil cristã-nova (séculos XV-XVIII) (Temas e Debates).

Francisco Bethencourt conversou com o Nascer do SOL a partir de Cambridge, onde reside.

Começaria por recuar aos seus tempos de estudante. Acaba de receber o Prémio Alumni da Nova, mas não foi lá que se licenciou, pois não?

Não. Licenciei-me na Faculdade de Letras, onde tive professores bem interessantes, como o Piteira Santos, o Joel Serrão e a Isabel Castro Henriques. Mas devo dizer que boa parte da minha licenciatura foi feita na Torre do Tombo, porque eu vivia lá perto e achei, em muitos casos, mais excitante trabalhar com material de arquivo do que estar constantemente na faculdade. Foi o trabalho na Torre do Tombo que me abriu mais os olhos para os problemas da História. Entretanto, passei pelo Instituto Gulbenkian de Ciência um ano, porque tinha o projeto de criação de uma base de dados sobre a Inquisição de Lisboa. Depois, o Vitorino Magalhães Godinho, que estava na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, organizou uma equipa interdisciplinar, uma espécie de imitação da École des Hautes Études. Eu concorri aos lugares que abriram e fiquei.

Tem ideia do ano?

1982. Não havia um número suficiente de doutorados para serem recrutados, e por isso recrutaram recém-licenciados, com um enquadramento legal em que as pessoas tinham quatro anos para fazer o mestrado e oito anos para fazer o doutoramento. Fiz o mestrado na Nova e ao mesmo tempo dava aulas. Foi um período muito, muito excepcional. Criei um curso sobre Sociologia da Cultura e estive envolvido num curso sobre estruturas da sociedade portuguesa criado pelo Vitorino Magalhães Godinho, onde eu, o Diogo Ramada Curto, que agora é Diretor da Biblioteca Nacional, e o Pedro Tavares de Almeida ensinámos. Foi uma experiência fundamental, porque tivemos que definir o curso, tivemos que o discutir com o Magalhães Godinho, tivemos que dar as aulas na presença uns dos outros e na presença do Magalhães Godinho. E depois dessa experiência não há nada que me aflija. [risos]

Preparou-o para o que nesse viesse.

O Magalhães Godinho nessa altura estava com 60 e tal anos, tinha uma carreira feita. Quando comecei a trabalhar com ele, deu-me um conjunto de umas 70 fichas de bibliografia que devia ser lida. Nós éramos uma geração nova, com outros interesses. Eu estava muito mais interessado no Pierre Bourdieu, o Diogo estava muito interessado no Foucault, o Pedro Tavares de Almeida estava interessado em Stein Rokkan e na Sociologia Política. E líamos muito. Foi um período de imensa leitura, não só para as cadeiras que estávamos a lecionar, mas para a nossa própria pesquisa, um período fundacional, também de criação e de desenvolvimento, pelo qual estou muito grato. Depois fui fazer o doutoramento no Instituto Universitário Europeu [Florença], para alargar um bocado o âmbito, porque tinha ido muitas vezes a Paris – sempre que acabava as aulas, e quando tinha algum tempo, procurava ir a Paris atualizar-me com as sessões do Collège de France e da École des Hautes Études. Fiz uma tese de doutoramento sobre a Inquisição numa perspetiva comparada, fui aos arquivos italianos, aos arquivos espanhóis, portugueses, vi também a parte protestante, as imagens e os panfletos na British Library… Foi um período em que estabeleci essa perspetiva comparativa, que me ficou para a vida.

Vitorino Magalhães Godinho foi o mais próximo de um mentor? 

Completamente. O Vitorino Magalhães Godinho era outro nível. Basta dizer que foi Prémio Balzan, que é o Nobel das Humanidades. Era uma pessoa de grande nível, reconhecida internacionalmente, com quem eu aprendi muito. E que, devido à diferença de geração, foi fundamental para mim, porque quando eu queria desenvolver ideias de autores como o Bourdieu, e muitos outros, tinha que me confrontar com o Magalhães Godinho. Para defender coisas diferentes, tinha que me preparar bem. E isso ajuda imenso ao crescimento intelectual.

A sua primeira obra de grande fôlego é a História das Inquisições do Círculo de Leitores. Associamos a Inquisição sempre à perseguição dos judeus. Mas o facto é que, antes de a Inquisição se instalar em Portugal, eles já eram perseguidos, correto?

É uma situação complicada porque a Inquisição só persegue os católicos acusados de heresia, não tem jurisdição sobre judeus ou sobre muçulmanos. Se eles se convertem, tornam-se católicos, e aí sim, podem estar sob a jurisdição da Inquisição. E a Inquisição tem outro lado, de que não se fala tanto, que é o lado da definição da doutrina. A Inquisição não só persegue casos suspeitos de heresia como define também problemas doutrinários que estão em dúvida.

O que é ortodoxia, no fundo

O que é ortodoxia. Tem essa dupla função. Ora, os judeus tinham sido forçados à conversão em Espanha com as revoltas de 1391, em que os chamados cristãos-velhos assaltaram as comunidades judaicas – muitos judeus foram mortos e houve uma boa parte que decidiu refugiar-se em igrejas para salvar a vida, e converteu-se. Esta conversão forçada sofreu outra onda de pressão. Era obrigatório os judeus que não se tinham convertido assistirem às pregações de Vicente Ferrer e outros, e daí resultaram mais conversões, embora se tenha mantido sempre uma significativa população judaica. Finalmente, em Espanha, em 1492 é decretada a expulsão dos judeus, a pretexto de que estavam a contaminar os convertidos. Muitos deles vieram para Portugal, outros foram para a Norte de África, foram para outros países europeus, como a Itália, outros para o Império Otomano…

Quantos terão vindo para Portugal?

Um número bastante significativo. A Maria José Ferro Tavares calcula à volta de 30 mil, provavelmente eram mais, o que significa que a população judaica em Portugal duplicou. Isso levou a um decreto de expulsão dos judeus e dos muçulmanos de Portugal, em 1496, por parte de D. Manuel. Os muçulmanos foram, efetivamente, expulsos, e há provas disso. Mas o D. Manuel quis evitar a saída dos judeus, e criou um ziguezague de políticas. As crianças foram retiradas dos pais judeus para serem educadas como católicas, o transporte marítimo para os judeus concentrados em Lisboa não foi facilitado e, portanto, basicamente eles foram forçados à conversão. Foi uma conversão de cima para baixo, ao contrário do que tinha acontecido em Espanha. A Inquisição em Espanha é criada em 1478 e começa a funcionar dois anos depois, mas em Portugal só é estabelecida em 1536.

No reinado de D. João III. Ou seja, tinham passado quase 40 anos desde o decreto da expulsão [1496].

E mesmo em 1536 não completamente. O Papa não autorizou o confisco de bens nessa fase, o confisco de bens só começa em 1547. Portanto, a Inquisição leva praticamente 50 anos a ser estabelecida em Portugal. O que também traz circunstâncias diferentes das circunstâncias espanholas. O que é facto, e foi isso que tentei provar no livro da Inquisição, é que havia muita relação entre o que se passava em Espanha e o que se passava em Portugal, porque, quando havia repressão em Espanha, os cristãos-novos refugiavam-se em Portugal, e vice-versa.

A Inquisição Espanhola tem uma reputação absolutamente negra, em particular devido a Torquemada. Essa reputação é merecida?

A Inquisição espanhola, nos primeiros 30, 40 anos de funcionamento, até 1520, foi particularmente violenta. Houve uma política de terror com milhares de pessoas detidas, condenadas e executadas. Os processos eram muito rápidos, fulminantes, o que criou essa reputação. Depois os processos começam a tornar-se mais regulados, porque a Inquisição, como parte da Igreja Católica, com o tempo torna-se mais legalista. Eu consultei literalmente milhares de processos e vi como como podiam ser manipulados, através de formulários de interrogatórios, através de formas de detenção, através da detenção de familiares para obter confissões. Portanto, há vários mecanismos que forçam a confissão. Mas havia…

Uma aparência de legalidade?

Havia essa parte legalista, e a perseguição de cristãos-novos acusados de judaísmo em Espanha declina. E em 1520 dá-se a Revolta das Comunidades, que é um ponto de viragem. Carlos V tinha sido eleito imperador, mas a eleição implicava que corresse dinheiro para os eleitores, e quem estava a pagar eram os espanhóis. Houve um descontentamento grande e fizeram a Revolta das Comunidades e a Revolta das Germanías na região da Valência, mais ou menos coincidente. Depois disso, há muito menos repressão dos cristãos-novos em Espanha, em parte porque a repressão inicial tinha sido muito violenta, e, portanto, tinham-se esgotado um bocado as possibilidades, mas, por outro lado, porque os tempos eram diferentes. No caso português houve este período de 50 anos de distância. Ao início o Papa proibiu o confisco de bens e é depois, no final do século XVI, que começa a haver mais repressão contra os cristãos-novos ricos, que até aí não tinham sido tão afetados. Essa repressão leva aos requerimentos em Roma e ao perdão geral de 1605. Há uns anos de apaziguamento, porque o perdão geral significa que as denúncias existentes tinham que ser apagadas. Portanto, a Inquisição tinha que voltar a acumular denúncias, o que levou alguns anos. Só depois a máquina volta a funcionar e a repressão começa a surgir. Portanto, há vários ciclos. Mas o que é facto é que a Inquisição Portuguesa mantém uma repressão sobre os cristãos-novos menos violenta no início…

Mas constante?

Mais prolongada no tempo. Vai-se prolongar até à primeira metade do século XVIII de uma maneira relativamente uniforme. Em Espanha há momentos de quebra bastante significativa, depois há uns picos… No princípio do século XVIII voltam a reprimir os cristãos-novos por motivos políticos. Depois da vitória dos Bourbons em Espanha na Guerra da Sucessão, a corte, que tinha vários franceses, estava interessada em acabar com a Inquisição. Aí a Inquisição lança mão de uma nova repressão aos cristãos-novos para acusar os oponentes de serem favoráveis à heresia.

Nesse caso as motivações foram políticas, mas já falou em confiscos. As motivações de ordem financeira também pesaram na perseguição aos cristãos-novos, em particular aos cristãos-novos ricos – e desculpe-me se o paralelo é descabido – tal como depois viria a acontecer no Terceiro Reich?

As circunstâncias são diferentes, mas os mecanismos de perseguição de minorias muitas vezes obedecem a lógicas semelhantes. O contexto histórico do terceiro Reich começa com pogroms não só na Rússia mas também noutros territórios da Europa de Leste. Os chamados judeus Ashkenazi, que são os judeus da Europa Central, e não só, emigraram porque foram expulsos primeiro de Inglaterra, depois de França, no século XIII, depois de várias cidades da Alemanha, e a maior parte emigrou para a Polónia. Instalaram-se na Polónia e tiveram uma situação bastante ‘amena’, praticamente sem perseguição. É com a partição da Polónia na segunda metade do século XVIII, entre a Rússia, o Império Austro-Húngaro e a Prússia, que a Rússia absorve estas comunidades judaicas. Mas são mal aceites, porque não havia tradição de relação cívica com as comunidades judaicas. E temos, no século XIX, vários pogroms, também porque estas comunidades judaicas – e é este o motivo geral – são altamente competitivas. Têm bons conhecimentos a vários níveis e boa capacidade de desenvolvimento. Isso gera conflito porque os outros sentem-se ameaçados.

Temem perder privilégios.

Há também pogroms na Alemanha nazi, mas o que é facto é que a percentagem de população judaica na Alemanha nazi é muito diminuta. Havia muito casamento entre judeus e não-judeus e, portanto, o facto de os nazis focarem o seu ódio nos judeus tinha dois propósitos, fundamentalmente: primeiro era criar um inimigo e dizer ‘não existe uma luta de classes, o que existe é uma luta de raças’ e afirmarem a primazia ariana – essa história de os alemães derivarem dos arianos é uma ficção; o segundo motivo era acusar todos os opositores, comunistas, socialistas e liberais, de serem favoráveis aos judeus. Portanto, racializaram toda a oposição política. E isto é uma lógica que se verifica em vários momentos históricos. Nos estados meridionais dos Estados Unidos, a crítica focada nos africanos era uma forma de obter uma solidariedade vertical entre os considerados brancos e conquistar a supremacia à custa do sacrifício de uma minoria.

Na Alemanha havia uma grande identificação entre os bolcheviques e os judeus.

Os judeus na Alemanha eram acusados de serem simultaneamente comunistas e capitalistas especuladores. A estratégia nazi era de utilizar os dois grandes argumentos.

Por falar nisso, há uma ligação grande dos judeus e dos cristãos-novos à finança e ao dinheiro. Nunca percebi se isso se deve à condenação da usura pelo cristianismo, só que essa condenação já aparece no Antigo Testamento. Mas mesmo que fosse só o cristianismo propriamente dito a condenar a usura, como é isso? As regras para os cristãos-velhos e para os cristãos-novos não eram exatamente as mesmas? Os cristãos não eram todos iguais?

É uma questão de herança. Na Idade Média há um grande debate sobre a usura que é reforçado pelas ordens medicantes, como os franciscanos, que declaram uma política contrária à usura e à acumulação de propriedades. Essas situações levaram a que os cristãos que praticavam a usura estivessem sob pressão, e isso facilitou a intervenção judaica no empréstimo financeiro. É essa a origem. Quando os judeus são forçados a converter-se e são etiquetados como ‘cristãos-novos’ para continuar o estigma anterior, e a ascendência judaica é sempre sublinhada, a situação já é diferente. No século XV e no século XVI, o ‘estigma’ levantado pelas ordens medicantes já se tinha atenuado. E os cristãos-novos – falo dos cristãos-novos ricos, porque a esmagadora maioria dos cristãos-novos… 

Não são ricos.

Ou são pobres ou são artesãos. Estamos a falar de uma elite rica que funciona no meio financeiro ou é proprietária – porque em Portugal podiam ser proprietários. No meu último livro, Estranhos na sua Terra, sobre a elite dos cristãos-novos mercadores e banqueiros, desenvolvo mais esse problema e mostro que a maioria dos cristãos-novos não era rica; pelo contrário, muitos eram pobres. Mas esta elite financeira está à frente no comércio intercontinental. Por exemplo, controla o monopólio do pau-brasil, que era utilizado para pigmentação, nos têxteis e na pintura. E era utilizado também para a construção civil. O palácio de Maurits van Nassau, em Haia, tinha painéis de pau-brasil. Os cristãos-novos tinham o monopólio da concessão régia da importação de pau-brasil para a Europa desde o início do século XVI até meados do século XVII. E está calculado que, até início do século XVII, tinham à volta de um terço do comércio total entre a Ásia e a Europa. No comércio com as Américas também tiveram um papel importante na exploração do açúcar e do tabaco. E estavam envolvidos no tráfico de escravos, o tráfico infame.

Portanto, embora muitos cristãos-novos não fossem ricos, havia uma minoria extremamente rica e empreendedora.

Eu tenho agora um projeto grande na European Research Council, que vai durar cinco anos, sobre a cultura material dos cristãos-novos, que penso que tem sido mal estudada. Como grupo distintivo que está presente nas Américas, na Ásia, na África Ocidental e na África Oriental, os cristãos-novos têm uma capacidade única de relacionar produtos e objetos de várias partes do mundo. Devo dizer que para este último livro, Estranhos na sua Terra, beneficiei muito de um livro que publiquei em 2013 sobre o racismo, que me ajudou a perceber melhor os mecanismos da discriminação e a situação dos cristãos-novos. Os cristãos-novos praticamente são forçados a converter-se, o que significa que são desenraizados, deixam de ter a sua comunidade, deixam de ter a sua religião, as suas crenças, e nunca são totalmente integrados. São sempre colocados numa posição de suspeita, têm depois a Inquisição contra eles e estão numa condição que eu designo como ‘condição liminar’, estão numa margem. E essa margem, quanto a mim, dá origem a uma série de comportamentos experimentais, não só ao nível religioso – como o movimento dos alumbrados, sobretudo em Espanha nos anos de 1510-1520, que pretendia uma comunicação direta com Deus e previa métodos de meditação e a intervenção de mulheres, aspetos que não estão nem na tradição judaica, nem na tradição católica. E os jesuítas no princípio tinham um número importante de cristãos-novos. Portanto, eles participaram em tudo o que era novas experiências religiosas, e também tiveram a sua intervenção literária e artística a vários níveis.