O primeiro-ministro leu a revista The Economist desta semana tantas vezes que apanhou uma insolação de boas notícias. Às vezes acontece, a sobre-exposição dá delírios e pessoas sãs ficam como os malucos, por vezes anunciando o fim do mundo, outras vezes supondo-se Messias que conduzirão o povo seguidor a novas terras prometidas. Pronto, subiu-lhe à cabeça.
Na exaltação, Luís Montenegro teve um momento Manuel João Vieira: prometer salários médios de três mil euros a todos os portugueses é como anunciar vinho canalizado em todas as casas, mais um Ferrari à porta e uma patinadora russa. No fundo, é uma questão de imaginação. Somos a economia do ano, que diabo! Ao pé disto, António Costa era um menino.
Pois bem, estamos em condições de revelar em primeira mão que Luís Montenegro já ganhou a aposta que fez com o país: sim, um dia subiremos os salários mínimo e médio até aos níveis indicado pelo primeiro-ministro! Qual dia? Bom, Montenegro não sabe/não responde e é precisamente esse golpe de génio político-económico-estratégico que nos permite antecipar que um dia os críticos, céticos e cínicos lhe darão razão.
Mas atrevamo-nos ao exercício de levar a promessa de Montenegro ao cálculo. Imaginemos que a minoritária AD consegue cumprir a atual legislatura até ao fim, até 2029. E imaginemos que a promessa solar desta semana (salário mínimo de 1600 euros e salário médio de 3000 euros) será para cumprir na legislatura seguinte, liderada pelo mesmo Montenegro até 2033. Posto assim, já não parece impossível, pois não? Afinal, é daqui a oito anos.
Pois bem, o governo não manda no salário médio, mas manda no mínimo: os 1600 euros são uma decisão política. Ora, a promessa de Montenegro é subir o salário mínimo para 1100 euros até ao final desta legislatura, em 2029. Face aos atuais 870 euros, é um aumento de 26,5% em quatro anos, ou seja, 6% ao ano. Não é impossível. Já subir para 1600 nos quatro seguintes significa aumentar 45% numa só legislatura, ou seja, Montenegro acaba de entrar em campanha eleitoral para 2029 prometendo aumentos de salário mínimo de 10% ao ano! É uma pena não irmos a tempo de cancelar a greve geral, os sindicatos não podem se não agradecer de joelhos!
Bom, mas se o Governo não pode decidir o salário médio, pode Portugal subir em oito anos dos atuais 1615 euros para 3000 euros em oito anos, mais 86%? Sim, basta subir os salários ao ritmo de 8% ao ano!
Pronto, descobrimos o meticuloso plano económico secreto de Luís Montenegro: a economia portuguesa não vai crescer nem 2% nem 3% nem 4% ao ano, vai crescer muito mais! As reformas em curso garantirão um salto de produtividade como nunca visto e eu serei o primeiro a comer esta folha de jornal e engolir o milagre! E até Donald Trump reconhecerá o erro de generalizar um declínio para a Europa, onde afinal um pequeno país nas suas praias ocidentais dará uma lição ao mundo. Lá chegaremos, é certinho. Nem que seja ativando o secretíssimo plano B de Montenegro: expulsar todos os imigrantes, reduzindo drasticamente a oferta de trabalho e assim fazendo subir muito os salários e os preços: com inflação muito alta, chegamos aos três mil euros num instantinho.