O saudoso Emídio Rangel dizia que “a televisão vende com igual eficácia um sabonete ou um Presidente da República”. Marcelo foi eleito Presidente depois de anos como comentador na TVI. Agora, o próximo Presidente depende, de forma soberana, do que conseguir fazer ou dizer neste longo ciclo de curtos debates nas nossas televisões. Esta semana, foram mais seis, já vamos em doze. É dose.
Segunda-feira, 1 de dezembro
Carlos Daniel recebe António José Seguro e Jorge Pinto na RTP. E começa por perguntar a Jorge Pinto se considera que Seguro é de esquerda, uma pergunta-armadilha que não foi feita directamente a Seguro em nenhum debate, calhou a fava ao candidato do Livre.
Jorge Pinto, que melhora de debate para debate, resumiu dizendo que a convergência de esquerda devia ter sido criada antes de os outros candidatos de esquerda terem anunciado as suas candidaturas individuais, como foi o caso de Seguro. Ou seja, agora é tarde para perguntarem ao Livre se deve sacrificar-se em nome da esquerda que Seguro alega representar.
Seguro diz que é da “esquerda responsável”, e que teve um acto de coragem quando decidiu avançar sozinho. Jorge Pinto ataca Seguro pela abstenção do PS nos tempos da Troika, Seguro estranha o seu oponente estar tão interessado no passado, Jorge Pinto acusa-o de estar a ser paternalista, Carlos Daniel tenta sair do lodo, mas Jorge Pinto não larga o osso, “hoje é 1 de dezembro, feriado que perdemos porque o PS se absteve na altura”, Seguro ri-se, mas está incomodado com a agressividade do candidato do Livre: “Vamos manter isto no nível do debate”.
Carlos Daniel introduz o tema da saúde e emigração, Jorge Pinto foi emigrante, é filho e neto de emigrantes, e rejeita o “clima envenenado que se vive em Portugal”. O moderador insiste na pressão dos imigrantes sobre os serviços públicos, Jorge Pinto questiona o moderador, o debate a esta altura é entre Jorge Pinto e Carlos Daniel, Seguro está fora.
Terça-feira, 2 de dezembro
José Alberto Carvalho recebe António Filipe e Henrique Gouveia e Melo na TVI, no debate mais animado da semana. O moderador traz a hospitalização de Marcelo para a mesa, Gouveia e Melo queixa-se de se discutir “coisas mais laterais e menos importantes”, e tenta internacionalizar o debate, mas José Alberto Carvalho não dá abébias, como pode Portugal continuar a funcionar com Marcelo e Nuno Markl ambos acamados ao mesmo tempo, pergunto eu, o país quer saber.
O tema muda para a Ucrânia, a primeira pergunta é para António Filipe, que fica confuso com a ordem das perguntas: “Ah agora é p’ra mim?”. É p’ra si, António Filipe. “A guerra é sempre má e a paz é sempre boa”, conclui o candidato do PCP em registo Lapalisse. “Na altura discuti com ministro João Gomes Cravinho esta m*****, perdão, esta coisa, esta matéria”.
O debate sobe de tom quando Gouveia e Melo preenche o bingo do anti-comunismo, com axiomas como “ditadura do proletariado” e “Fidel Castro”, António Filipe entedia-se e olha directamente para a câmara, como num sketch de comédia. “O senhor queria debater coisas importantes e depois vem dizer que eu sou pela ditadura do proletariado?”.
António Filipe até pode perder as eleições, mas continua a divertir-se a valer nos debates.
Quarta-feira, 3 de dezembro
Carlos Daniel recebe António José Seguro e Marques Mendes na RTP. Seguro inicia debate revelando apoio à comunidade portuguesa na Venezuela, ou seja, antecipou-se a Marques Mendes, que é sempre o primeiro a mencionar as comunidades portuguesas e as presidenciais abertas que promete vir a fazer caso seja eleito.
Marques Mendes tenta recuperar terreno e distanciar-se de Seguro, alegando que é um candidato “mais interventivo”, recuperando para tal uma antiga frase do seu oponente: “qual é a pressa?”. “Não é boa expressão, há pressa!”.
Seguro responde à letra: “Marques Mendes diz que é interventivo, mas faz parte do Conselho de Estado há quinze anos, podia ter aconselhado um pacto na justiça, porque é que não o fez?”. Toma e embrulha.
Seguro entusiasma-se e acusa Marques Mendes de ter estado num Governo que fez orelhas moucas à privatização da TAP. Marques Mendes reage, diz que não estava nesse Governo, era de Passos Coelho. “Essa insinuação não lhe fica bem”.
Marques Mendes tenta dar a volta por cima e entra em delírio, respondendo à pergunta de Carlos Daniel se iria ser “o Presidente do Bloco da Direita”: “Quero avançar no domínio social, vou instituir um fórum anual de combate à pobreza, a minha Casa Civil terá menos assessores políticos e mais sociais, vou meter um jovem no Conselho de Estado”…
Mas depois o Manuel João Vieira é que é um “ganda” maluco.
Quinta-feira,4 dezembro
José Alberto Carvalho recebe Catarina Martins e João Cotrim Figueiredo na TVI. Cotrim começa por dizer que vai tentar hoje que “seja a primeira escolha para ir à segunda volta, e que o voto útil é na realidade inútil”. O debate acabará por revelar o contrário.
Primeiros sete minutos sobre escutas a António Costa foram de sintonia, para não dizer sinfonia, entre os candidatos. A música atonal surgiu depois, quando o moderador trouxe os temas da defesa nacional.
Catarina Martins afirma que Portugal deve repensar a defesa, gastando recursos que país precisa. Cotrim alega que Catarina Martins está a disfarçar incómodo que esta questão lhe causa.
- Não causa nenhum incómodo - responde ela.
- Causa, causa. Há dois dias dizia que Portugal devia estar fora da NATO.
Cotrim é a favor de maior investimento militar na Europa, Catarina Martins diz que Trump é a maior ameaça à NATO. Enquanto ela desenvolve o seu argumento, Cotrim tenta interromper. Catarina responde: “se me quiser ouvir”. Há tensão em estúdio.
Cotrim continua com o corpo virado para a frente, em sinal de ataque, Catarina mais relaxada à defesa, sem correr riscos. Cotrim baixa o queixo quando percebe que já não está disposto a ouvir o final do argumento de Catarina, a mensagem corporal ansiosa e impaciente de Cotrim continua a ser o seu némesis em alguns dos debates.
Quando José Alberto Carvalho introduziu, tarde e a más horas, o tema do papel do Estado na educação e saúde, Cotrim foi o principal prejudicado, e ressentiu-se: “No fim do debate vamos tentar perceber como debatemos educação, saúde e justiça? Vai correr bem de certeza”.
Sábado, 6 de dezembro
Clara de Sousa recebe António José Seguro e Catarina Martins na SIC. Depois de algumas indignações convenientes sobre o desempenho do Ministério Público na Operação Influencer, Clara de Sousa recupera a entrevista de Catarina Martins ao Observador, onde ela afirma que “Seguro não é candidato de esquerda e não traz mundividência diferente do Governo actual para ser alternativa”.
Passa a bola a Seguro: “Vejo isso como argumento artificial de campanha”. E passa a bola a Catarina. “Porque é que não temos um Jorge Sampaio nestas eleições?”, lamenta-se a candidata do BE. “Enquanto Seguro na Troika fazia acordo à direita eu estava a tentar recuperar subsidio de Natal e de férias às pessoas”. Seguro: “Entre partidarite e interesse nacional, eu defendo o interesse nacional”.
Perdeu-se vinte minutos de debate na Troika e já foi difícil recuperar o tempo e os temas perdidos. Clara de Sousa tentou tirar nabos da púcaro sobre o envelhecimento da nação e o inverno demográfico, mas as respostas foram vagas, embora Seguro tenha estado bem ao mencionar o “duplo envelhecimento” (a escassez de jovens). Pior: Catarina Martins fugiu à questão da moderadora sobre a posição do BE em relação à NATO, deixando irritada Clara de Sousa.
O final do debate foi nobre: Clara de Sousa inquiriu Seguro: “Se quer mais protagonismo feminino nas lideranças porque é que os portugueses devem preferir um homem em Belém?”. Seguro argumentou com uma candidatura baseada em ideias e causas, defende sociedade baseada na igualdade, quer ser presidente agregador, mas “para isso preciso de estar na segunda volta, e para estar na segunda volta é preciso que haja convergência de votos na minha candidatura”. Foi um convite sedutor à desistência das candidaturas da esquerda pelo interesse nacional (ou seja, voto em Seguro), pelo olhar enternecido de Catarina Martins pareceu-me que ela ia desistir de tudo ali em directo.