Quando contemplamos uma cidade nos planos cartográficos que surgem empilhados dentro de nós, os grandes edifícios são esses marcos que pontuam o imenso texto para o qual confluem as nossas memórias, e se que parecem mais como anotações, anotados à margem, e outros que surgem apenas como legendas e são, de resto, rasurados, há alguns que se impõem de forma emblemática, e estabelecem as coordenadas essenciais que mobilizam essas sensações organizando o espaço à sua volta, dando-nos o tom, a chave de leitura para todo um bairro, um quarteirão ou mesmo uma cidade. Estes convidam a uma leitura lenta, a vários níveis, como se cada linha fosse uma frase que se corrigiu a si mesma ou reforçou o seu caráter ao longo de décadas ou séculos. Frank Gehry construía os seus edifícios como um gigante, podendo brincar com a grande escala, não apenas em termos espacial, mas também temporal. Nunca separou a arquitetura da vida que a inspira, nunca substituiu o olhar pelo conceito.
O homem que projetou alguns dos edifícios mais reconhecíveis do mundo, entre eles o Museu Guggenheim de Bilbao, a sua obra-prima, um edifício que transformou uma cidade industrial num destino cultural global e que, tantos anos depois, não deixa de nos provocar um imenso pasmo, morreu na passada sexta-feira, em sua casa, em Santa Monica, na Califórnia, aos 96 anos. O arquiteto canadiano-americano, galardoado com o Prémio Pritzker em 1989, altura em que já era uma lenda da profissão, sucumbiu após uma breve doença e falência respiratória. Gehry deixa-nos edifícios que se dobram como corpos, que parecem respirar, que se inclinam, e, sendo tão angulosos, permitem-se falhar e ainda assim não deixam de ser magníficos. Talvez o aspeto fundamental na monumentalidade dos marcos de que dotou as ruas de tantas cidades e países seja, acima de tudo, a sensação de que a matéria, o espaço e a forma são também narrativa, memória e febre, e que a arquitetura pode ser, enfim, aquilo que Gehry fez dela: um espanto contínuo, sempre à espera de ser habitado e admirado.
Entre as suas obras mais icónicas contam-se ainda a Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles; o Peixe Olímpico de Barcelona; a Casa Dançante em Praga; e a Fondation Louis Vuitton em Paris. Assim que avançou a notícia da morte, o New York Times singularizou-o como «titã da arquitetura», um desses grandes criadores que parecem capazes de fazer apelo às proporções que os homens sempre usaram para ombrear com os deuses, sendo que, nos Estados Unidos, Gehry só encontrava paralelo em projeção e impacto em Frank Lloyd Wright.
Frank Owen Goldberg nasceu em Toronto, em 1929, e cresceu entre carpintarias, ferramentas, parafusos e peixes vivos (carpas) que a avó trazia uma vez por semana do mercado, deixando os nadar temporariamente na banheira – experiências que marcaram a sua relação com a matéria. Na adolescência, trabalhava na loja de ferragens do avô, absorvendo a textura, o peso e a resistência do quotidiano material. Um episódio marcou-o profundamente: numa discussão acalorada com o pai, alcoólico e de temperamento volátil, este sofreu um ataque cardíaco do qual nunca se recuperou inteiramente. O trauma desta experiência acompanhou Frank durante décadas, alimentando a consciência da fragilidade humana e, talvez, o impulso de dominar o espaço e a forma através da arquitetura.
A família mudou-se para Los Angeles em 1947, depois de um médico alertar que o pai não sobreviveria a outro inverno em Toronto. Instalaram-se num pequeno apartamento, onde a música clássica no rádio e os ensaios de violino da irmã compunham uma educação sensorial precoce. Após um breve serviço militar, Gehry iniciou estudos de cerâmica na University of Southern California, antes de se transferir para arquitetura. A influência de Raphael Soriano, pilar do modernismo californiano, foi decisiva. Adotou o sobrenome Gehry, em parte para evitar o antissemitismo e, em parte, para afirmar uma identidade artística própria.
Durante anos trabalhou em empresas convencionais, projetando shopping centers e edifícios administrativos, até abrir o próprio escritório em 1962 e começar a explorar linguagens próprias, em casas e estúdios que pareciam estar sempre em mutação, refletindo o espírito da cidade e da época. O ambiente experimental de Los Angeles nos anos 60, com artistas como Robert Irwin, Ed Moses e Larry Bell, influenciou-o decisivamente: absorveu a leveza, a informalidade e a inventividade desses estúdios e aplicou-os à escala urbana. Cada projeto era resultado de observação e tentativa, de um diálogo constante entre forma, luz, movimento e contexto.
A tecnologia digital e o modelamento tridimensional permitiram-lhe traduzir conceitos radicais em realidade concreta, do Guggenheim de Bilbao às superfícies líquidas e metálicas da Fondation Louis Vuitton, sempre procurando uma arquitetura viva, lúdica e rigorosa, sem perder a ironia e humanidade que a caracterizavam. Mesmo no final da vida, manteve-se ativo com projetos como o Guggenheim Abu Dhabi e o espaço da Louis Vuitton em Beverly Hills, desafiando limites e fronteiras. Sobrevive-lhe a mulher Berta Aguilera, os filhos Brina, Alejandro e Samuel (também designer) e, sobretudo, a obra, que continuará a educar-nos quanto às possibilidades de se promover uma arquitetura febril, errática, poética e desmedida, capaz de alterar a forma como sentimos o espaço, caminhamos por ele e nos relacionamos com as cidades, e de nos lembrar que o mundo, por mais familiar que pareça, ainda pode surpreender.