sábado, 17 jan. 2026

É o tempo de Seguro ou de um regresso fora do tempo

Dez anos depois de se ter afastado, perdido o PS para António Costa e para a ‘geringonça’, é o candidato apoiado formalmente pelo partido que liderou. Mas com muitos ‘dissidentes’.
É o tempo de Seguro ou de um regresso fora do tempo

«Não esqueço, mas não sou vingativo. Nem procuro o futuro no avesso do passado», lemos em Um de Nós - Sonhar Portugal, Fazer Acontecer, a biografia de António José Seguro publicada em outubro de 2025, no arranque da pré-campanha das Presidenciais de janeiro de 2026.

Entre o que o candidato presidencial assume e o que podemos presumir, há uma certa margem de erro. Ainda assim, arriscamos: António José Seguro não esqueceu o passado – e, já agora, o passado não se esqueceu dele, como vimos nos debates recentes com Jorge Pinto ou Catarina Martins, e como muito provavelmente veremos a 20 de dezembro, quando Seguro se confrontar com António Filipe na TVI. E não esqueceu quem o afastou do PS para, não muito tempo depois, fazer um acordo parlamentar impensável, que incluiu o PCP e que ficou para a História e para a Ciência Política como o Governo da ‘geringonça’, na memorável adjetivação de Vasco Pulido Valente.

E foi também pelo passado que Seguro recusou rótulos no regresso à vida política ativa, revelando dificuldade em relacionar-se com o partido que o empurrou – a ele, que chegou a negociar com a direita PAF – para criar um espaço de governação à esquerda, num momento em que as esquerdas já declinavam. Mas Seguro não é visto como visionário, é percecionado como um derrotado. «Assim o PS não vai lá», disse Mário Soares naquela altura e convocou os descontentes para a Aula Magna.

Voltemos então a 2014, quando António Costa assumiu o cargo de secretário-geral do PS após meses de mal-estar interno, que levaram Seguro a propor eleições primárias abertas a militantes e simpatizantes. O momento de rutura foram as eleições europeias de maio desse ano: o PS ganhou, mas a vitória soube «a poucochinho», disse Costa, então presidente da CML, deixando pressupor que com ele – e não estava sozinho, um grupo de ‘jovens turcos’ olhava para Seguro com desdém, irritados com a tibieza do então secretário-geral – os resultados seriam outros. E foram. E um ano depois, Costa era primeiro-ministro e, anos depois, o PS conquistava a maioria absoluta nas legislativas de 2022.

Em setembro de 2014, Costa derrotou Seguro e a sua visão para o partido, então na oposição, para o país e para si próprio enquanto secretário-geral. O PS iniciava uma nova fase de poder, que começou em 2015 com o Governo da ‘geringonça’ e com Seguro fora da vida política ativa.

E é também com isso que AJS tem de lidar em 2025, quando se candidata ao Palácio de Belém. Por agora, pode dizer-se que o candidato não tem cometido grandes erros, à exceção da relutante forma de se encaixar na esquerda. A sua candura, a voz suave, o ar quase terno e afável, a ideia de que não tem telhados de vidro (e mesmo as janelas são estreitas) podem dar alento ao eleitorado para levar à segunda volta o ‘homem de bem’ que tem uma forma própria de interpretar o humanismo e os valores da esquerda democrática.

No presente, a candidatura presidencial, também pode ser visto como um ajuste de contas com a ‘geringonça’, algo contranatura para Seguro e para outros socialistas, como Sérgio Sousa Pinto, que o apoia com um entusiasmo comedido e disciplinado.

Insistimos no passado. Em março de 2011, é chumbado o PEC4 na Assembleia da República, Sócrates demite-se, em junho há eleições, o PSD obtém 38% dos votos e 108 mandatos e o PS fica pelos 28% e 74 mandatos. Nessa altura, o CDS ainda era a terceira força partidária. Na mesma noite, Sócrates demite-se e ‘abre um novo ciclo’ na liderança do PS. Em julho, Seguro chega à liderança, sendo reeleito em abril de 2013. Seguem-se duas eleições – autárquicas e europeias – que o PS vence, mas com resultados magros no entender de muitos socialistas. Dito de outro modo: depois de anos e anos de poder de Sócrates, pleno de defeitos, as virtudes de Seguro, que incluíram a célebre «abstenção violenta», revelaram-se contraproducentes ou pouco viris para enfrentar os anos de chumbo da troika e a liderança de Passos Coelho, que o tempo acabou por suavizar e converter em probidade. É hoje mais fácil perceber como os dois homens se podiam entender. Seja como for, esse entendimento custou-lhe a liderança do partido em setembro de 2014. Em outubro, Seguro refugia-se no ermitério de Penamacor.

Entre as páginas 157 e 182 do livro editado pela Casa das Letras e escrito por Rui Gomes, a partir de diversos testemunhos, incluindo o de Seguro, somam-se mais de 20 páginas em que o candidato presidencial explica esse período de liderança, fala da necessidade de «devolver a esperança» aos portugueses e de «um compromisso de salvação nacional», que não o salvou a ele.

E como foi viver ‘o luto’ da derrota, é uma das perguntas que surge na página 183. Seguro responde: «Não houve luto. Não perdi nada, nem houve lugar a sofrimento. Encerrou-se uma fase da minha vida e abri outra. Fui à minha vida: dar aulas, criar empresas e valorizar-me academicamente. Tive mais tempo para a minha família e para os meus amigos». Bebeu vinho e comeu febras assadas e «numa noite gélida, no santuário onde fazem a festa da Senhora do Incenso», a política «gradualmente, em modo suave» voltou à conversa.

Dez anos depois, no verão de 2024 admite, num almoço com amigos, que: «tenho sido abordado por diversas pessoas para me candidatar a Presidente...» e pede uma opinião sobre o assunto que tornou a refeição «mais picante». Entretanto, um dos jovens turcos socialistas que o empurrou para fora da liderança em 2014, volta a empurrá-lo, agora para a Presidência, é então o secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos. Seguro assume que «está a ponderar», por essa altura, sem ponderação, muitos dirigentes socialistas anunciaram publicamente que a candidatura de Seguro era uma má ideia. Mas a candidatura avançou, em junho de 2025, primeira através do espaço de comentário na CNN Portugal e depois, mais formalmente, nas Caldas da Rainha, em que abriu as portas de um clube «sem reserva do direito de admissão», em que a coerência passou a ser a de um candidato que se tinha afastado quando podia dividir e que agora vinha para unir.

«Conversa da treta», foi a expressão usada por André Ventura para atacar Seguro no recente debate das presidenciais, em que o tornou parte da «herança socialista» e saltando por cima dos últimos dez anos, disse que Seguro representa «o mal que o PS fez ao país», sendo que o PS parece livrar o candidato desse fardo com um apoio pouco entusiasta.

Ainda em 2014, na véspera das primárias no PS, Seguro já tinha o rascunho da derrota. Álvaro Beleza descreve esse momento, «numa tarde de outono, ao pôr do sol, os dois sentados numa esplanada em Gouveia... o António a dizer com tranquilidade que ia perder as eleições primárias no PS e eu retorquia: aquele sol no horizonte, visto da Serra da Estrela, dizia-nos que a vida não é só política e iríamos dormir, muito bem, com a consciência do dever cumprido e de que o mais importante é a defesa dos valores e convicções. No entanto, foi impressionante a sua tranquilidade, serenidade, e sobretudo desprendimento».

Séneca, filósofo estoico romano, terá dito que «não há nada mais vergonhoso do que um velho que não tem outra prova do tempo que viveu além da sua idade», entre vitórias e derrotas, Seguro não quer ser esse velho. Caminha para Belém através do exemplo de Sampaio e de Soares, mas não caminha sozinho, outros candidatos disputam o mesmo legado.