sábado, 17 jan. 2026

Clara Pinto Correia. As tantas vidas e mortes da nossa protagonista

1960-2025. A escritora e bióloga foi encontrada sem vida na terça-feira.
Clara Pinto Correia. As tantas vidas e mortes da nossa protagonista

Ela foi a personificação da mulher totalmente emancipada, talvez a única no nosso país. A mulher que mais insistentemente provou a ousadia de fazer o que lhe apetecia, flirtando com a perceção pública, mudando de direção sem aviso, deixando para trás aquilo que, para outros, seriam oportunidades e trabalhos de sonho, alianças essenciais, e fazia-o quase de forma displicente. Não pode ter deixado de irritar muita gente. Podia dar-se ao supremo luxo, que é marimbar-se para esses paraísos tacanhos. E gastava vidas como se as tivesse em maior número do que um gato. Porque esbanjava graça, talento, uma energia espantosa e, acima de tudo, não parecia sentir culpa nenhuma: era absolutamente temerária. Se tivéssemos feito um casting na década de 1980 ou no início da seguinte, Clara Pinto Correia seria sempre «Ela». Foi a mulher que nos cativou, deslumbrou e incomodou, muitas vezes sem nos dar tempo para organizarmos as nossas ideias. Tinha tudo, perdeu tudo, e, mesmo quando já ninguém dava nada por ela, persistia ainda como um susto, com aquela capacidade de nos escandalizar, despertando uma má-consciência, sendo inegável que, sobre o milagre dos seus infindáveis dons, acabou por triunfar a perfídia de uma sociedade e de um meio cultural que torcem contra os espíritos mais desabusados e, sobretudo, contra as mulheres que têm a audácia de se mostrar vaidosas, orgulhosas, confiantes. Como assinalou o historiador António Araújo, que lhe dedicou um longo perfil na série Prova de vida (dedicada a figuras que caíram na obscuridade, tendo tido presença na ribalta), ela foi «uma vítima não inocente do paroquialismo do meio cultural português, que procedeu à sua defenestração implacável, em parte por inveja, em parte por atávica misoginia».

Escritora muitíssimo prolífica, bióloga, investigadora, professora universitária, deixou também um rasto no jornalismo, crónicas espalhadas por várias publicações; presença inquieta na televisão e na rádio, com uma passagem negligenciável pelo cinema; enquanto figura pública não soube evitar a esparrela, sendo empurrada para o centro de polémicas que o país tratou como liturgias punitivas. Foi encontrada morta esta terça-feira, 9 de dezembro, na casa onde vivia quase reclusa, no centro de Estremoz.

Na sua página do Facebook, Rui Zink vincou como a «ascensão vertiginosa» de Clara Pinto Correia «só tem par no modo estrondoso com que caiu». «Foi, num meio murcho onde a carreira é passar por entre os pingos da chuva, escandalosa, brilhante, atrevida, insolente, impertinente e pertinente. Tinha lata, muita lata. Coragem também, além de (já disse?) lata. Num país onde a inteligência ainda não é a cores, foi garrida, atrevida e maior que a vida.»

Talvez possamos ir ainda mais longe se atentarmos nas suas próprias palavras, na forma como ela parecia estar disposta a arriscar a miséria e a humilhação na sua «impenitente procura da felicidade», tendo assinalado numa das suas primeiras entrevistas como «toda a inquietação revela uma galáxia mental e emocional que está na antítese do que essas pessoas elegeram como aceitável e decente e que traduz, afinal, uma visão e perceção da vida que toma o tédio como valor fundamental».

Maria Clara Amado Pinto Correia nasceu em Lisboa a 30 de janeiro de 1960. A segunda de quatro irmãs, teve o tipo de infância, adolescência e juventude que poderia ter sido escrita por uma Louisa May Alcott dos nossos dias. Deixou claro, numa entrevista, que a sorte da sua vida foi crescer numa casa rodeada de mulheres. Além das três manas, Rosário, Teresa e Margarida, e da mãe, ainda tinham a avó, que viveu com elas até morrer, uma empregada doméstica e uma mulher-a-dias... «É ótimo pertencer a uma família muito grande e onde as pessoas gostam imenso umas das outras.»

Filha de médicos – sendo o pai uma sumidade mundial da gastroenterologia, e a mãe, segundo recordava Clara por alturas do seu falecimento, em agosto de 2015, uma das primeiras mulheres da sua geração a usar calças, e uma das primeiras do seu grupo de amigas a trabalhar e a criar as filhas ao mesmo tempo – a infância foi passada em Angola, onde o pai prestava serviço militar. E foi a própria compulsão extravagante da natureza de que se viu cercada que despertou o seu interesse pela biologia. Como assinala António Araújo no tal perfil: «Muito nova, as fotografias de Jane Goodall com primatas nas páginas da National Geographic fizeram nascer o sonho de se tornar park ranger numa reserva africana. Mais tarde, escolheria Biologia, ao invés de Medicina, por entender que esta tratava apenas da morte, ao contrário da primeira, toda virada para a vida. Aos seis anos, no colégio de São José de Cluny, em Luanda, começou a escrever as primeiras histórias, hábito que não perdeu quando a família regressou a Lisboa e ela foi estudar no Liceu Francês Charles Lepierre e, depois, no Rainha D. Leonor, sempre com notas excelentes.»

Não dá para lhe seguir todos os movimentos, mas é importante assinalar ainda que tinha 14 anos quando se deu o 25 de Abril, tendo contado como «andou a pôr cravos nas espingardas, como toda a gente» e que «a coisa mais inesquecível foi a enorme sensação de alegria e o enorme espírito de festa que se começou a sentir logo de madrugada. Foi muito bonito, foi completamente subterrâneo, houve uma grande orgia telefónica naquele dia». Três décadas mais tarde, refletiria sobre como se esvaíra a promessa da revolução e outra ditadura se tinha instalado: «Aquela ditadura antiga, a que veio abaixo ao som da terra da fraternidade, poderá ter mergulhado para o fundo do subconsciente colectivo por forma a deixar de estar à vista, mas, na realidade, nunca chegou a desaparecer completamente. E, entretanto, na sua face visível, foi substituída por outra ditadura diferente, que nós ainda entendemos mal, e que não se fez anunciar por hino absolutamente nenhum.»

Depois de outras incursões na ficção, aos 25 anos publicou Adeus, Princesa (1985), um romance policial que teve um impacto quase sem igual para aquela geração, conseguindo aliar as aclamações da crítica a um extraordinário sucesso de vendas. Viria mesmo a ser adaptado ao cinema em 1992 por Jorge Paixão da Costa. Tendo como pano de fundo a reforma agrária no Alentejo, Pinto Correia conseguiu a proeza de criar uma novela desempoeirada, «plena de irrequietude, de humor, de gozo e desfastio, e também de ternura profunda» (Urbano Tavares Rodrigues), revelando «uma imaginação inquieta e um extraordinário ouvido para as falas coloquiais» (Fernando Assis Pacheco).

Dada a sua emergência fulgurante no plano intelectual, houve a necessidade de fazer dela a «menina mimada» da literatura portuguesa, uma forma de a encostar a uma certa frivolidade, ajudada pela sua tendência para saltar fora da moldura. Mas ela mesma, aos 30 anos, numa entrevista à revista Máxima, fez questão de esclarecer as coisas: «Ganho a vida desde os 19 anos, sempre tomei conta de mim e passo o tempo livre a trabalhar onde muita gente nunca foi: em colónias de férias com crianças, em Trás-os-Montes e no Alentejo, a trabalhar nas vindimas ou na apanha do tomate. Sou uma ‘menina mimada’ que se licenciou em Biologia enquanto trabalhava a tempo inteiro como jornalista, a dar explicações e a fazer colaborações para tudo o que era sítio, lançando mão de todos esses expedientes de sobrevivência. E será por ser ‘mimada’ que – depois de ter a cama feita em Lisboa – deixei tudo e vim para Buffalo, onde cai neve de outubro a Abril, sozinha, preparar o doutoramento...? Mais uma vez, são os estereótipos a funcionar: se a pessoa é alegre e não esconde a alegria, é leviana, nunca sofreu...».

Teria sido mais fácil trivializar as suas conquistas se estas não se cifrassem numa extensíssima obra, sendo que, como cientista, publicou nas revistas mais prestigiadas do mundo e, enquanto escritora, viu publicados mais de meia centena de títulos distribuídos por todos os géneros. Doutorou-se com «louvor unânime», passou por Harvard e teve Stephen Jay Gould como seu mentor, tendo este apontado, no prefácio a O Ovário de Eva, que, na ciência como na literatura, esta «verdadeira investigadora» sabe como «ser divertida e irreverente».

Depois, em 2003, houve o excruciante episódio das duas crónicas na revista Visão plagiadas da The New Yorker, que ela não conseguiu sacudir, enredando-se em justificações estapafúrdias, e que deu cabo da sua carreira jornalística. E, em 2010, veio a polémica que acabou de vez com a sua reputação: a exposição Sexpressions no Centro Cultural de Cascais, com imagens suas supostamente em êxtase sexual, tendo estas sido feitas por Pedro Palma, por quem entretanto tivera uma paixão fulminante, que culminou num casamento em Las Vegas. Tudo terminou como se esperava, com estardalhaço e troca de acusações na imprensa cor-de-rosa, e Clara sintetizou perfeitamente a armadilha em que se deixara cair: «Ao fim de 60 anos de grande esforço de estudo e formação, outros tantos de criatividade e mais outros tantos de serviço ao país, a Clara Pinto Correia… é uma gaja que fez um plágio e teve um orgasmo!».Na sequência deste escândalo, de ter sido fotografada nos vários momentos de um orgasmo, foi posta a correr da universidade. Nem seria de esperar outra coisa, num país que prefere epifanias de sacristia a qualquer furor carnal, e no qual o orgasmo feminino, para muitos, não passa ainda de um mito. «Fiquei sem emprego, sem qualquer espécie de trabalho. Primeiro que começasse a receber o subsídio de desemprego foram quase dois anos. Nas filas da Segurança Social olhavam para mim de esguelha. A minha senhoria da casa no Penedo [perto de Colares, Sintra] pôs-me uma ordem de despejo. Há 30 anos que lhe arrendava a casa e dava-me lindamente com ela.»

Mas haverá tempo agora, tempo para se desembrulharem os escândalos na nossa consciência, bem como todos os trabalhos e obras; haverá tempo para reavaliarmos aquela época e uma das figuras que mais nos instigou e inquietou, que mais nos perturbou e deliciou.