sábado, 17 jan. 2026

Toca mas é a comprar (e a ler) jornais

Estado, câmaras, escolas e universidades, empresas e famílias deixaram de comprar jornais em papel. Se voltarem a fazê-lo, todo o País terá jornais. É preciso é dar o exemplo...
Toca mas é a comprar (e a ler) jornais

A VASP, única distribuidora nacional de jornais e revistas, anunciou a intenção de deixar de fazer essa distribuição, já a partir do próximo mês de janeiro, em oito distritos do país. Todos do Interior, que é como quem diz todo o Interior: Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança. A ameaça da distribuidora agora detida por Marco Galinha e detentora do monopólio da imprensa em Portugal – que no início do ano aumentou significativamente o valor cobrado aos editores (de jornais e revistas), passando a reter quase metade do preço de capa – mereceu imediata resposta de meio mundo, incluindo de todos os diretores de jornais, conforme carta conjunta que se publica na última página desta edição e em todas as edições de todos os media impressos publicados nesta semana.

Com efeito, o que está em causa é mesmo o futuro da imprensa escrita stricto sensu – leia-se: impressa em papel – e, por conseguinte, a democracia.

Porque a imprensa escrita e impressa em papel já não vende em banca as centenas de milhares de exemplares que fizeram dela um contrapoder ou um quarto poder.

Mas, embora com vendas em banca muito reduzidas, continua a circular (agora digitalmente) pela web e pelas redes sociais, aliás, mais do que nunca.

Com a diferença substancial de que a venda em banca tinha um retorno financeiro para os editores que, juntamente com as receitas de publicidade, permitia a sua sustentabilidade e, como assim, independência em relação aos poderes que escrutina.

O que não acontece com a circulação na web e nas redes, não apenas porque o mercado não tem dimensão suficiente para as audiências reais se traduzirem em retorno financeiro bastante, mas também e principalmente porque circula de forma gratuita ou sem qualquer tipo de receita para os editores (a criminosa partilha de PDF’s não pagos é mato nas redes sociais, e com total impunidade).

O que torna as estruturas dos jornais e revistas insustentáveis e condenadas ao desaparecimento no muito curto prazo.

Por mais subsídios que se criem e, por essa via, se tentem fabricar soluções que permitam salvar meios que manifestamente mantêm estruturas desadequadas e só sustentáveis se subservientes aos interesses políticos e económicos dominantes, importa, sim, salvar os jornais na pureza dos seus fins mais legítimos: informar com rigor e isenção os seus leitores, em todas as plataformas.

Para isso, a melhor e mais simples fórmula é mesmo... comprar jornais, físicos. Sem inventar formas de excluir uns e incluir outros com base em critérios que apenas pretendem beneficiar os que mais contribuíram para a crise instalada.

E o Estado e as Câmaras devem dar o exemplo: em vez de alimentarem empresas de clipping que não fazem mais do que, quais sanguessugas, canibalizar a informação custeada pelos editores, deviam tornar obrigatório o regresso à compra de jornais em papel. Para as câmaras, para as juntas de freguesia, para as bibliotecas, para as embaixadas, para as direções-gerais, para as empresas públicas, para as escolas e universidades, por aí fora.

Cabe ao Estado – à tutela do setor, com o ministro Leitão Amaro à cabeça – tomar as decisões certas em vez de desperdiçar dinheiro dos contribuintes em subsídios injustificados. Basta comprar dois exemplares de cada jornal ou revista (para consulta e/ou arquivo) para cada instituição da Administração Central e de cada concelho ou freguesia, biblioteca e escola, empresa pública ou municipal e resolve o assunto, tanto para editores como para a distribuidora (fosse ela privada ou pública), sem necessidade de mais apoios para ninguém e com a vantagem de os editores ainda poderem/deverem fazer um desconto sobre o preço de capa ou (em compensação ou cumulativamente) cederem espaço de publicidade ou para informação institucional às entidades pagantes de compras em bloco.

Com rigor e sem discriminação.

Vantajoso para todos: editores, distribuidora, Estado e demais instituições compradoras.

Em nome da literacia e do acesso à informação escrita e à leitura e à cultura. E da democracia.

Só assim poderá ser também eficaz o combate às tão indesejadas fake news e às distorções de um mercado igualmente fake, porque baseado em audiências e indicadores falsos, manipulados.

Por que hão de queixar-se as autoridades e as gentes do Interior do País de não terem jornais para comprar, quando já não os compram?

E por que razão hão de comprá-los, se quem os lê e deles se serve também já não os compra nem paga para os ler?

Se acham que fazem falta – e fazem – toca a comprar. E exigir mais qualidade. E dá-los a ler. É bom para todos. E, sim, é mais democrático.

Senhor Ministro Leitão Amaro, há que começar a dar o exemplo. Antes que seja tarde, se já não for.

mario.ramires@nascerdosol.pt