terça-feira, 13 jan. 2026

Pode-se sempre fazer melhor!

A característica mais dolorosa do perfeccionismo é o modo como as pessoas se tratam a si próprias: a falta de cuidado com o seu bem-estar.

O perfecionismo é bem visto. Confunde-se com perseverança, competência e responsabilidade e, por isso, olhamos para ele como o melhor dos nossos defeitos. Aquele de que nos lembramos sempre numa entrevista de trabalho.

É definido como um traço de personalidade que se caracteriza por padrões extremamente elevados e rígidos em relação ao desempenho nas várias áreas da vida. Há uma preocupação excessiva com erros ou falhas, resultando numa ansiedade antecipatória pelo risco de falhar e num sofrimento intenso acompanhado de pensamentos ruminativos onde se revê o erro que se fez ou se acredita ter feito. E segue uma regra básica: nunca se fica satisfeito com o resultado, por muito bom que ele seja. Há sempre algo que não correu tão bem, geralmente aquele pormenor de que se vai lembrar até à exaustão.

Conheço muitas pessoas cujas vidas vistas de fora são invejáveis, no Instagram são incríveis, e vividas de dentro são um sufoco.

A característica mais dolorosa do perfeccionismo é o modo como as pessoas se tratam a si próprias: a falta de cuidado com o seu bem-estar, o seu conforto, a frieza com que ignoram o seu sofrimento, muitas vezes calado com um pensamento em tom duro: «Estás-te a queixar de quê? És uma privilegiada!» ou «Não sejas lamechas!». Esta falta de auto compaixão é muitas vezes acompanhada por uma falta de compaixão pelos outros. Aprenderam que o amor não tem cuidado com o bem-estar, apenas ajuda a alcançar resultados, para estar seguro neste mundo em que os nossos resultados nos definem e por isso também nos protegem.

Dados recentes mostram que o perfeccionismo está a aumentar entre os mais jovens. Nesta sociedade da pressão constante para o desempenho onde a comparação social está ao rubro, não espanta. O perfeccionismo ensina-se e aprende-se. E passa de geração em geração. Os chamados “pais limpa-neve”, que fazem esforços hercúleos para tirarem os obstáculos do caminho dos filhos, que os levam às 50 atividades extracurriculares, que resolvem todos os problemas das crianças, adolescentes (e jovens adultos) para eles se focarem no estudo e nas atividades que lhes podem permitir “ser alguém”, com a melhor das intenções, estão a alimentar esta tendência. Uma pessoa em consulta contava-me com naturalidade que no regresso de um fim de semana, já no domingo à noite, se apercebeu de que a filha de 8 anos se tinha esquecido de fazer os trabalhos de casa. Ficou numa aflição e lá foram as duas trabalhar noite dentro. Em nenhuma altura sentiu que ela e a filha tinham o direito de ir descansar, que poderia escrever um recado ao professor e até combinar que a filha iria fazer os TPC ao longo da semana. É assim que o perfeccionismo se ensina. Tive outra paciente que procurou ajuda por causa de problemas graves no trabalho: a equipa que liderava disse não querer continuar a trabalhar com ela porque era «impossível estar ao nível que ela exigia». O seu lema de vida, bastante explorado na terapia, era uma máxima do seu pai: «Pode-se sempre fazer melhor». Que é o mesmo que dizer: nunca nada do que fazes é o suficiente. E é assim que o perfeccionismo se aprende.

Psicóloga Psicoterapeuta
Executive Trainer