domingo, 25 jan. 2026

Milagres de Montenegro

E os, portugueses, sempre tão suscetíveis à sedução de belas palavras, continuam encantados com discursos elegantes, posturas calculadas e promessas que brilham mais pelo timbre do que pela substância.

Em janeiro de 2024, Luís Montenegro garantiu ao país que resolveria a crise da saúde em sessenta dias. Sessenta – um número tão preciso que parecia científico, não fosse ter-se tornado rapidamente apenas… simbólico. O relógio avançou e o milagre permaneceu cuidadosamente em rascunho. Há promessas que nascem com vocação para ser cumpridas enquanto outras nascem para ser repetidas.

Luís Montenegro sempre se distinguiu pela postura de confiança serena – aquela confiança que se mantém imperturbável mesmo quando os factos não colaboram. Há um talento raro em anunciar soluções com tal convicção que quase dispensam ser apresentadas em versão final. Os eleitores, generosos na imaginação, pareceram ver nele um homem destinado a grandes desfechos. E é justo admitir: poucos conseguem manter intacto o prestígio das promessas muito depois destas terem perdido o prazo de validade.

É por isso que a pureza da meritocracia me parece tão essencial à vida pública. Montenegro tem demonstrado que o mérito pode assumir formas inesperadas: há quem execute, há quem projete, e há quem viva num espaço intermédio onde a projeção vale tanto quanto a execução, desde que dita com boa postura. É uma competência, sem dúvida. E bastante valiosa para quem sabe governar sobretudo por expectativa.

Entretanto, surgiram novas promessas cintilantes – o salário mínimo a caminho dos 1.600 euros e o salário médio a aproximar-se dos 3.000. São metas que, mais do que planos, parecem exercícios de imaginação política. Não nego que, observando esta sucessão de anúncios, revisito algumas das reservas que antes alimentava. Talvez tenha sido injusto: há quem construa políticas e há quem construa narrativas. Montenegro escolheu a segunda via — e domina-a com uma elegância que quase faz esquecer a primeira.

Com as presidenciais a aproximarem-se, tornou-se visível que o primeiro-ministro prefere para Belém alguém cuja eloquência não colida com a sua governação nem com os seus casos e casinhos, mas antes a acompanhe com a suavidade de quem sabe quando falar. Uma figura de discurso impecável, de gravata irrepreensível, capaz de representar o país sem nunca comprometer a confortável margem de manobra de um Governo que ainda procura cumprir o que prometeu. É, portanto, uma escolha segura: um Presidente que harmonize, com gentileza, aquilo que a realidade insiste em desalinhar.

E os, portugueses, sempre tão suscetíveis à sedução de belas palavras, continuam encantados com discursos elegantes, posturas calculadas e promessas que brilham mais pelo timbre do que pela substância. Temos demonstrado uma habilidade singular para escolher oradores brilhantes em vez de líderes eficazes – e é precisamente por isso que a alternativa que se ergue, discreta mas firme, merece atenção. O Almirante Gouveia e Melo, tão distante desta coreografia de conveniências, representa o contrário de tudo isto: a ideia simples – e hoje quase revolucionária – de que a função pública deve ser exercida por quem faz, não por quem apenas anuncia. Talvez esteja aí, finalmente, a oportunidade de escolhermos melhor do que temos escolhido.

CEO do Taguspark, Professor universitário