A rede diplomática portuguesa foi desenhada para um mundo de telegramas e papel selado, mas opera num tempo de crises rápidas e híbridas. Hoje, a relevância do Ministério dos Negócios Estrangeiros não se mede pelos metros quadrados do seu imobiliário, mas pela capacidade de antecipar sinais e defender interesses num espaço europeu, lusófono e atlântico que voltou a ser central.
Uma reforma portuguesa deve começar em Lisboa, no cérebro do sistema. Durante séculos acumulámos telegramas, notas e análises sobre dezenas de países e temas. Digitalizados e organizados com rigor, esses arquivos podem alimentar sistemas de inteligência artificial (IA), capazes de reconhecer padrões e antecipar riscos. A máquina trabalha a massa documental; o diplomata interpreta, duvida e decide. Em vez das pilhas de emails de rotina e de poucos produtos analíticos que orientem decisões políticas. Nalguns casos, acrescentando pouco ou nada ao que a comunicação social especializada e internacional transmite em tempo real.
Falta também assumir a frente política tecnológica. Os resultados efetivos da política externa já não se decidem apenas em cimeiras entre governos. Alcançam-se também em plataformas digitais e espaços regulatórios onde Estados, empresas e sociedade civil se cruzam. A Dinamarca percebeu-o ao criar um embaixador para a tecnologia, tratando as grandes empresas digitais como interlocutores permanentes. Empresas essas que gerem plataformas, cabos e infraestruturas digitais sendo hoje atores quase soberanos: definem regras de expressão, condicionam cadeias económicas, moldam opinião pública. Portugal, com cabos a aterrar em Sines e ponte de dados e língua comum com a América do Sul, está no mapa da geopolítica digital, mas ainda não o incorporou na sua política externa.
Se tomarmos a sério este triângulo – Europa, Lusofonia e ‘continente digital’ – a diplomacia portuguesa pode trocar largura física por densidade estratégica. A coordenação (leia-se, as Direções-Gerais e Divisões) deixa de ser apenas geográfica e passa a fazer-se por temas com relevância estratégica – clima, mar, energia, segurança digital, integridade económica – que atravessam regiões. Um embaixador para o digital (algo diferente da mera acumulação de funções do nosso Cônsul em São Francisco…) com mandato claro e ligação estreita à diplomacia económica e regulatória, seria um passo lógico.
É neste contexto que o perfil dos diplomatas deve, necessariamente, evoluir – o quanto antes. Deixa de ser apenas o geo-generalista das ‘boas relações’ para ser gestor de dossiês complexos. A formação deve sair da bolha: passagens por reguladores, empresas de energia, centros de investigação ou sector tecnológico não são desvios, são escola. Como lembra Rui Pedro Duarte em Statecraft 3.0: The Age of AI Diplomacy, a diplomacia da era da IA depende da capacidade de reduzir assimetrias de capacidades e enquadrar politicamente sistemas que concentram poder sem terem sido eleitos. Admito mesmo que a ausência de evolução no perfil e nas competências de diversos diplomatas europeus poderá estar na origem dos atuais desafios na relação transatlântica.
Tudo isto exige coragem na gestão da rede. Nas praças de maior valor político, as embaixadas devem ser comandos de elite: equipas pequenas, mas seniores, dedicadas a abrir portas, formar coligações e desbloquear dossiês. Onde o interesse é residual, uma chancelaria residente é um luxo: bastam embaixadores não residentes ou equipas itinerantes. Por exemplo, os países nórdicos partilham um complexo comum em Berlim e a União Europeia generalizou acordos de co-localização entre delegações e Estados-Membros; Portugal pode seguir essa via, alojando diplomatas em delegações da União e, no quadro da CPLP, testando representações conjuntas em países onde nenhum de nós consegue, sozinho, manter bandeira hasteada.
A diplomacia não é megafone; é sismógrafo e chave-de-fendas. Deteta antes, ajusta melhor, executa com discrição. Se nada mudar, continuaremos com embaixadas respeitáveis e influência escassa com manifesto desperdício de recursos em atividades verdadeiramente inúteis para os interesses estratégicos de Portugal e da sua língua (que ganha nova dimensão na era dos ‘grandes modelos de linguagem’ da IA).
Se tivermos a ousadia de reformar, o país ganha escala sem pedir mais orçamento. Teremos um serviço externo que fala menos de si próprio e entrega mais a Portugal.
Membro do Conselho Coordenador da SEDES,
Antigo dirigente das Nações Unidas e da Conferência da Haia de Direito Internacional Privado