terça-feira, 13 jan. 2026

Já houve falhas a mais na Saúde!

A fusão INEM-CODU-SNS24 não pode correr mal e ser outra AIMA.

Nota prévia: Marques Mendes aplicou um KO técnico a Cotrim de Figueiredo logo a abrir o combate/debate presidencial de domingo. Exigiu nomes de supostos apoiantes seus que teriam tentado demover Cotrim da corrida. Este não os revelou, recuou e nunca se recompôs. Ao contrário do que insinuou ao Expresso, Cotrim também não foi capaz de explicitar eventuais interesses de Mendes levados aos comentários na SIC. Dias depois, Mendes respondeu cabalmente e sem problemas a essas insinuações numa frontal entrevista à Rádio Observador. No outro debate fundamental da semana disputava-se parte do eleitorado da esquerda moderada e de um PS dividido. Seguro venceu sem espinhas. Gouveia e Melo voltou a desiludir. Faltam-lhe ideias, verbo e treino.

1. A decisão de fundir o INEM, CODU e Linha SNS 24 numa só entidade pode ter vantagens. Deve é ser executada sem falhas e estar assente num rigoroso trabalho de casa, comparando com soluções de outras paragens. Seria inadmissível encetar uma reforma tipo ‘pior não fica’. Há uma coisa inegável:  no conjunto, estas entidades têm graves falhas humanas e materiais, há desarticulação, muita fuga a responsabilidades, dinheiros mal-usados e, sobretudo, o tempo de resposta é muitas vezes deplorável e inexplicável, com consequências dramáticas. Apesar dessa conjugação deficiente, estas entidades salvam muitas vidas. O avanço para uma indispensável remodelação deve ser feito com método e diálogo, para não acabar em mais uma luta política e sindical. Em Portugal, as decisões de fusão ou separação têm muitas vezes efeitos indesejáveis e até perversos. Está demonstrado que a forma como o SEF foi desmantelado, pulverizado e substituído pela AIMA nada resolveu, antes agravou o caos. Está, entretanto, por provar que a criação das ULS e de uma direção-geral do SNS tenha sido positiva. A fusão dos sistemas de urgência agora proposta merece ser encarada positivamente. «Para melhor, está bem, está bem; para pior já basta assim».

2. O ex-juiz Carlos Alexandre vai dirigir a nova estrutura criada pelo Governo para atacar desperdícios, ineficiências e ilícitos financeiros na Saúde. A tarefa é ciclópica. Números oficiais referem uns inimagináveis 800 milhões de euros/ano, num orçamento de cerca de 17 mil milhões. A primeira coisa a averiguar talvez devesse ser o que faziam e com que meios as entidades internas da saúde que estavam encarregadas de evitar desvarios e irregularidades. 

3. Na hora de enviar esta crónica, o impacto da greve geral era percetível, dada a circunstância de abranger muitos setores ligados ao Estado, nos quais os salários e empregos estão garantidos, desde que se esteja no quadro. Em regra, estes grevistas beneficiam ainda de aumentos anuais e outras regalias. Muitos deles são, lamentavelmente, exemplos de preguiça e desconsideração pelo semelhante, como se verifica em serviços públicos onde o cidadão é inimigo. Outros são profissionais da política, da vida sindical e das causas extremistas. Já os integrantes da sociedade de privados estavam, em regra, a trabalhar. Nestes incluem-se, claro, aqueles que nunca podem aderir por causa de represálias patronais, que não são raras. Havia ainda largos milhares de pessoas impossibilitadas de chegar ao trabalho por falta de transportes. Como sempre, os dados avançados pelo sindicatos eram naturalmente exagerados. Não será a greve geral que mudará o desenho da reforma laboral em negociação. É matéria bem mais dependente do alinhamento dos partidos (designadamente PS e Chega), das centrais sindicais partidarizadas e do próximo presidente da república. A greve também não vai trazer sensibilidade a uma ministra fundamentalmente académica. É um caso típico de uma elite portuguesa que lembra a de França dos anos 60 do século passado. Desprezava a classe média recém-chegada à regalia do subsídio de férias, desdenhosamente chamada ‘les congés payés’. Os nossos melhores ministros do Trabalho em democracia tinham uma sensibilidade social-cristã ou tinham beneficiado do chamado elevador social.

4. Um pobre que tenha um euro e a quem um turista dá outro não fica rico, embora o seu pecúlio aumente 100%. Se tivermos em consideração as ajudas do PRR, o turismo e o investimento estrangeiro que procura pagar menos impostos, podemos traçar um paralelo entre o pobre e o retrato que o The Economist fez de nós. É verdade que crescemos e estamos melhor. Basicamente é o resultado de termos partido de um patamar baixíssimo, de nos terem imposto o pagamento da dívida e contas certas. Uma nota ainda: os dados em que a revista se baseia não estão atualizados. Ignoram, por exemplo, a gigantesca vaga de imigração do costismo, adulterando os dados do PIB per capita.