sábado, 17 jan. 2026

Greve Geral. Guerra de números dita paralisação

Apesar de ter sido avançado um impacto entre 600 a 700 milhões, a maioria dos economistas não se quer associar a este valor por considerarem que avaliação exige um modelo mais complexo do que dividir PIB pelos dias do ano.
Greve Geral. Guerra de números dita paralisação

Apesar de muitos economistas não quererem avançar com números em relação ao impacto financeiro que a greve geral convocada para esta quinta-feira teve, há quem arrisque e aponte para perdas entre 600 e 700 milhões de euros. O valor foi avançado por Carlos Brito, presidente da Ordem dos Economistas Norte, assumindo um cenário de adesão na ordem dos 50%. Este impacto, refere, resulta sobretudo da quebra de produção e de consumo, bem como das perturbações nas cadeias de abastecimento.

Ao Nascer do SOL, António Mendonça, Bastonário da Ordem dos Economistas, lembra que estes cálculos vinculam apenas Carlos Brito, afastando a entidade de qualquer responsabilidade. As contas «são mais complexas», considera. «Não basta pegar no Produto Interno Bruto e dividir pelo número de dias do ano». O economista diz ainda que «há modelos para fazer uma avaliação ex ante e ex post dos efeitos de uma greve». E acrescenta: «São modelos de natureza econométrica, modelos de equilíbrio geral, de análises setoriais de input-output, modelos de cenários, modelos de custos sociais e de externalidades, modelos baseados em big data, etc. A situação é muito complexa porque tem de se saber, efetivamente, quais são os setores que foram afetados e geralmente só a posteriori é que se consegue ter uma maior aproximação».

É certo que, tal como tem acontecido em paralisações anteriores, assistimos às guerras dos números. Se a CGTP, uma das estruturas sindicais que convocaram a greve geral, juntamente com a UGT, fala numa adesão de três milhões de trabalhadores, defendendo mesmo que «é uma das maiores ou até mesmo a maior de sempre», o Governo desvaloriza. Os «trabalhadores em greve são uma minoria» e o país «está a trabalhar», defendeu. Também do lado das empresas houve a garantia de que «não houve empresas paradas» e de que a economia real esteve «a funcionar», contrariando a lista divulgada pela CGTP.

De acordo com as contas da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, a falta de pessoas ao trabalho oscilou «na maior parte das empresas entre os 2% e os 3%, atingindo os 5% em casos pontuais, tendo os empresários contactados pela CIP afirmado que a maioria das ausências se deve a dificuldades nos transportes e não a adesões à greve geral».

A contrariar estes números está a Autoeuropa, cuja linha de montagem parou. «Os trabalhadores responderam à nossa chamada e disseram não ao pacote laboral», disse Rogério Nogueira, da Comissão de Trabalhadores (CT) da fábrica automóvel. O mesmo cenário repetiu-se no parque industrial de Palmela, que reúne várias empresas fornecedoras da Autoeuropa, garantiu ao Nascer do SOL Daniel Bernardino, da CT. Esta paralisação surge numa altura em que continuam as negociações entre as duas partes com vista a alcançar um acordo para o próximo ano.

Realidade diferente ocorreu no setor dos transportes. Ao contrário do Metro, que esteve fechado, todas as outras empresas disponibilizaram serviços mínimos, nomeadamente a TAP que dos 286 voos previstos apenas operou 63.

Também os serviços de saúde funcionaram em serviços mínimos, ao contrário das escolas e dos mais serviços públicos que encerraram portas, assim como muitos serviços camarários.

Ao Nascer do SOL, o politólogo José Filipe Pinto vê com naturalidade esta diferença de números entre estruturas sindicais e Governo. Entre os resultados oficiais e os apresentados pelos promotores das greves há sempre uma discrepância enorme. Essa diferença «não é um exclusivo de Portugal, é uma regra de todas as greves e os números portanto oficiais são sempre vistos por defeito e os números dos sindicatos e neste caso das centrais que decretaram a greve são sempre por excesso, logo a realidade andará entre estes dois valores», salienta.

Quanto ao impacto que esta paralisação irá ter no Governo e, num eventual recuo de algumas alterações à proposta da legislação laboral, defende que «é evidente que o Governo, este como qualquer um outro, desvalorizará o peso social da greve, já os sindicatos e as centrais sindicais irão empolar o peso social da mesma. Mas acima de tudo tem um peso político. E porquê? Porque todas as greves se destinam no essencial a que o poder político tome decisões no sentido de favorecer os seus interesses».

E deixa um alerta: «As centrais sindicais extrapolaram a dimensão política e esta greve, mais do que uma greve por motivos laborais, porque o que se diz que está em causa é a lei laboral, é uma greve por motivos políticos. Não nos podemos esquecer que Portugal está numa fase de pré-campanha para as presidenciais».

A esta causa há que somar ainda, segundo José Filipe Pinto, o facto do Governo ter uma maioria relativa e existir no Parlamento «uma luta muito forte» entre o Chega e o PS pela liderança da oposição. «Apesar do The Economist ter dito que a economia portuguesa foi aquela que teve o melhor desempenho, os sindicatos consideram sempre que o Governo não está a satisfazer aquilo que seriam as justas reivindicações dos trabalhadores», diz ao nosso jornal.

O politólogo recorda ainda que o Executivo apresentou-se como um Governo reformista e, como tal, esta proposta de lei laboral foi a primeira grande reforma que o Governo pôs em cima da mesa, mas «está a perceber que os interesses instalados não estão minimamente disponíveis para atender à mudança».

Apesar do braço de ferro, José Filipe Pinto admite que iremos assistir ao recuo de algumas medidas, nomeadamente no caso da amamentação e do luto. No entanto, afirma não compreender a decisão da UGT em relação a esta paralisação. «Primeiro adere à greve geral durante as negociações e depois vai continuar a negociar, o que significa que na UGT há uma luta entre a fação socialista e a social-democrata e, neste momento, a socialista venceu».

Já quando questionado se há hipótese de as duas estruturas sindicais de voltarem a juntar, diz que será «muito difícil», principalmente porque a UGT irá regressar à mesa de negociações, enquanto a CGTP continuará de fora. «Mesmo quando se fala em acordo de concertação social, a CGTP o subscreve. Digo sempre que não são acordos de concertação social, mas parassocial porque a CGTP coloca-se sempre à margem, já que o modelo de sociedade que preconiza não é o modelo de sociedade que a maioria dos portugueses, incluindo muitos dos trabalhadores sindicalizados e sindicados que pertencem à CGTP, advogam para o país. E este dado é um dado que mostra que as centrais sindicais continuam paradas no tempo. Não perceberam que o mundo do trabalho mudou ou fingem não perceber que que a economia hoje tem leis novas e Portugal tem de se adaptar», conclui.