«Alegra-te, meu filho, então serás um homem!». É assim que termina If, o poema estrondosamente famoso de Rudyard Kipling, que Fernando Cotrim deu ao filho João, de 10 anos, num poster, acompanhado de um cartão em que se lia: «Isto é tudo o que precisas de saber». O poema, publicado em 1910 e dedicado ao filho do autor britânico, que morreu nas trincheiras da Grande Guerra, em 1918, tem um enorme valor simbólico: é a idealização do homem completo, uma definição de maturidade, integridade, estoicismo e virtude.
Fernando Cotrim morreu em 2024. João fala do pai, no livro Porque sou um Liberal – Percursos de um político acidental, num tom que mistura pudor e saudade. Cotrim sente-se também «um filho que é claramente amado pelo seu pai», ainda que de formas «intermitentes e ambíguas». Ao pai, Cotrim deve, cremos, o gosto pelos livros e pela leitura, embora assuma que não foram as leituras que o pai lhe sugeria que mais o marcaram, «mas as que deixava abertas algures na sala». Entre essas estava a The Economist. «A postura assumidamente liberal de The Economist deu-me as bases para esse processo, que continua até aos dias de hoje», escreve Cotrim. Fernando Cotrim esteve ligado a empresas do Grupo Mello durante a maior parte da vida; o filho, anos depois, manteria também ligações profissionais e pessoais com dois dos ramos dos descendentes de Alfredo da Silva.
João Cotrim de Figueiredo e as duas irmãs, Ana e Teresa, estudaram no Colégio Alemão, por influência do pai do pai, o avô João do Carmo, a quem deve o nome. Vamos até à quinta do avô João do Carmo, em Belas, onde João festejou o 18.º aniversário antes de partir para Londres. João nasceu a 24 de junho de 1961, em Lisboa. Em 1979, esse dia foi domingo, mas a festa começou no sábado em modo BYOB (bring your own bottle), e o pátio da quinta foi transformado num arraial de São João.
No dia seguinte partiu para Londres. O pai estava radiante, a mãe ajudou-o a fazer a mala entre «lágrimas e suspiros», e a avó Maria dos Prazeres, mais tranquila mas olhando intensamente o neto, transmitindo-lhe cuidado e amor. Maria Helena, a mãe, vive, mas fora do mundo, a mãe da mãe, a avó Maria dos Prazeres Gonçalves, partiu há muito, mas ainda hoje domina as memórias do neto.
Maria dos Prazeres foi uma mulher divorciada num tempo em que o divórcio era um anátema que derrubava as mais determinadas. No limite, Maria dos Prazeres só se vergou ocasionalmente para limpar o chão dos outros, como mulher-a-dias, mas manteve a firmeza e sacudiu como pôde a rejeição de um homem que não lhe tirou a dignidade e lhe concedeu a custódia da filha. Educou-a sozinha e viu-a entrar no Instituto Superior de Ciências Económico-Financeiras (ISCEF), hoje ISEG, onde Maria Helena conheceu Fernando. Mais tarde disse ao neto: «Esfreguei muita escada e areei muitos tachos para criar a tua mãe».
«Com a minha avó Prazeres aprendi muitas das coisas que fizeram de mim o que sou», escreve o liberal, que fez a carreira acumulando aquilo que muitos consideram «bons tachos».
Aos 58 anos entra na política, e tem tido, nos últimos seis, uma carreira política notável. Tudo começou ao pequeno-almoço, na Versailles, em Lisboa, em julho de 2019, com Carlos Magalhães Pinto, então presidente da Iniciativa Liberal, que disse ao Nascer do SOL: «Quando me tornei presidente do partido tinha noção do perfil que nós precisávamos para ser candidato, para aparecer na televisão; achei que eu próprio não tinha esse perfil». Esse perfil devia incluir «boa imagem, capacidade oratória, e alinhamento com as nossas ideias».
Cotrim «não entendeu à primeira» que seria cabeça de lista por Lisboa, a possibilidade mais próxima de eleger um deputado pela IL. Quando percebeu, pediu algum tempo, mas aceitou e entrou no Parlamento como o primeiro e único deputado do partido. Em dezembro de 2019, é eleito presidente da IL; em outubro de 2022, anuncia a decisão de deixar a presidência, cumprindo-a em janeiro de 2023, mesmo reconhecendo que, «em Portugal, as pessoas não se afastam quando estão na mó de cima».
Em julho de 2024 é eleito para o Parlamento Europeu e volta a Portugal para candidatar-se às presidenciais de janeiro de 2026. Num dos outdoors de campanha pode ler-se: «Um Presidente, com um perfil certo», coerente com o seu início na política através de um «recrutamento de headhunter», como contou Magalhães Pinto.
Para falar do gestor, ninguém melhor do que António Pires de Lima, um ano mais novo do que Cotrim, com quem partilhou a carreira na Nutrinveste, a holding do Grupo Mello, quando tinham cerca de trinta anos. Pires de Lima tentou conciliar a gestão da Compal com a política no CDS, Cotrim mais focado na gestão. Pires de Lima admite que ainda tentou arrastar Cotrim para o partido da democracia-cristã, mas o liberal resistiu. Mais tarde, Cotrim junta-se ao CEO da Compal, ainda tentaram, mas não conseguiram contrariar a compra da empresa pelo banco do Estado, a Caixa Geral de Depósitos. Pires de Lima confessou-nos que Cotrim reagiu com sentido de oportunidade, lembrando ao acionista que o prémio previamente acordado teria de ser pago pelo valor máximo.
Pires de Lima foi ministro da Economia no governo liderado por Passos Coelho e convidou Cotrim para dirigir o Turismo de Portugal. O convite foi feito em agosto, mas Cotrim só assumiu o cargo em dezembro, após um processo de seleção «rocambolesco» que incluiu «apreciações psicológicas enviesadas» no relatório da CReSAP. Pires de Lima disse que essa experiência talvez tenha despertado em Cotrim «apetite para a gestão pública e para a política».
Em julho de 2019, Pires de Lima convidou Cotrim para um almoço mais confessional. Surpreendendo o amigo, Cotrim revelou «o segredo» do convite para a IL, ao que Pires de Lima reagiu com entusiasmo, avisando: «A política vai tomar conta da tua vida». Recentemente, Cotrim lamentou, no caso de ser eleito Presidente da República, não ter uma primeira-dama, assumindo que isso é um dos custos de uma vida pública mais intensa. Cotrim divorciou-se em 2010 de Patrícia, a mãe dos quatro filhos, o que «ainda hoje considero um dos grandes fracassos da minha vida».
«This is a man with a purpose», disse Sérgio Sousa Pinto na apresentação em Lisboa do livro Porque sou liberal, acrescentando: «Encontramo-nos num plano comum, que é uma não resignação e impaciência — impaciência com o país, incompreensão com o atraso português, na tentativa honesta e desinteressada de perceber quais são os fatores do atraso português, tentar perceber os bloqueios que nos impedem de sair desta cepa torta, que nós transmitimos de pais para filhos, sempre agarrados a teses produzidas por filósofos mortos há mais de cem anos».
Foi também o deputado socialista quem um dia convidou o único deputado da Iniciativa Liberal a passear com ele pelos Passos Perdidos da Assembleia da República, apontando as paredes numa espécie de Capela Sistina dos primeiros deputados liberais, onde se podem ver Manuel Fernandes Tomás, Joaquim António de Aguiar, Mouzinho da Silveira ou Passos Manuel... figuras que fizeram com que Cotrim se sentisse mais em casa, menos sozinho.
O candidato apresentou em outubro um ‘manifesto’ para o país – os três C de Cultura, Conhecimento e Crescimento, que teima em escapar do guião de campanha, porque, e como admite Cotrim, «a vida ri-se de quem faz demasiados planos».