O que leva certos candidatos presidenciais a quererem ser vistos como políticos antissistema?

Sinal evidente dos perigos que a democracia corre hoje reside na pretensão de alguns candidatos, cujas simpatias partidárias são por demais conhecidas dos portugueses, se apresentarem, agora, como políticos ‘antissistema’.

Sinal evidente dos perigos que a democracia corre hoje reside na pretensão de alguns candidatos, cujas simpatias partidárias são por demais conhecidas dos portugueses, se apresentarem, agora, como políticos ‘antissistema’.

O que diferencia estas eleições presidenciais das anteriores é o facto de alguns dos seus protagonistas preferirem assumir-se, virginais, como candidatos antissistema.

Tal pudicícia pode ser lida de diversas maneiras.

Sugere, por exemplo, a consciência que têm de que a governação do país (em que alguns participaram) não correspondeu às expectativas de muitos cidadãos, que antes votaram em representantes das áreas políticas a que sempre pertenceram.

Pode revelar, também, mais gravemente, a pretensão de erguerem um outro e diferente regime constitucional.

Um regime que, embora mantenha a aparência de uma Democracia, esvazia na prática os mecanismos que hoje permitem aos cidadãos defender direitos e resistir aos abusos de poder.

A proclamada distância e dissidência de alguns deles em relação ao regime – ‘o sistema’ – constitui, pois, um sinal claro dos riscos que a nossa Democracia corre presentemente.

Paradigma de tal perigo é o que resulta da indefinição colaborante que quase todos eles – os candidatos ‘antissistema’ – manifestam em relação ao que de mais subversivo representa para o projeto humanista da atual Constituição o rumo do recente ‘pacote laboral’.

Muitos cidadãos ainda não percebem plenamente os riscos sociais dessa reforma, cujo objetivo declarado é inverter o propósito original do Direito do Trabalho, favorecendo, por essa via ínvia, o poder das empresas e coisificando e mercantilizando ainda mais a pessoa e a vida dos trabalhadores.

O desígnio de tal reforma foi, no entanto, assumido publicamente e sem tibiezas pelos seus ideólogos: só não entendeu quem não quis ou não pôde ver e ouvir.

Mais representativo do afastamento de tais candidatos antissistema da inspiração humanista e libertadora da atual Constituição foi, porém, o seu silêncio comprometido ante o significado restauracionista da última parada militar.

Não houve inocência nos que procuraram copiar a coreografia e ocupar o mesmo palco onde, antes, no regime deposto a 25 de Abril, se celebravam os feitos marciais cometidos na guerra colonial contra o direito à autodeterminação e independência dos povos das colónias.

Ora, a incapacidade do antigo regime em resolver politicamente a guerra colonial foi precisamente o que desencadeou o movimento dos capitães e a Revolução que, em 25 de Abril, de 1974, restituiu a liberdade aos portugueses.

Há – é patente – em alguns dos mais empenhados apoiantes de certos candidatos presidenciais ‘antissistema’ uma indesmentível sanha contra o 25 de Abril.

Ela mostrou-se óbvia na expressão furibunda que exibiram, quando, há dias, proferiram na casa da democracia alguns dos discursos mais inflamados contra o ‘sistema’ que, nela, alguma vez, foram ouvidos.

A luta de tais ‘senhoritos’ é, declaradamente, contra o regime democrático e constitucional vigente e não, como fingem pretender, contra os que sempre o (des)governaram.

Por isso, o voto dos democratas – de todas as áreas políticas – deve, nas próximas eleições presidenciais, concentrar-se nos candidatos que defendem a Constituição vigente e os direitos fundamentais, sobretudo naqueles que sempre se bateram para garantir um estatuto digno e humanizado aos trabalhadores.