Querida avó,
Tenho imensas laranjas para te entregar. Colhidas pela minha mãe da sua laranjeira. Um presente oferecido há uns anos, no Dia da Mãe.
O cheiro das laranjeiras mistura-se com o das memórias, sempre vivas naquela casa.
Para avaliar as lembranças da minha mãe perguntei-lhe, com a genuína curiosidade de quem tenta perceber o mundo para além da sua própria época.
- Mãe, como era vivido o Dia da Mãe antigamente?
- Antigamente não era nada como agora. O Dia da Mãe era celebrado a 8 de dezembro, dia da Nossa Senhora da Conceição. Era tudo mais religioso, mais simples, mais ligado à fé. Não era tanto a festa do comércio (como é hoje), era a festa do coração.
- Então? Não havia presentes?
- Havia, mas eram coisas feitas pelas nossas próprias mãos, não compradas nas lojas – disse, com os olhos a brilhar. Um ramo de flores do campo, um desenho, um beijo mais demorado. Nós valorizávamos o gesto, não o embrulho. E olha que sabiam bem melhor do que essas coisas modernas… Embora goste sempre dos presentes que tu e o teu irmão me oferecem. A tua avó ficava sempre tão feliz.
Olho para as mãos enrugadas da minha mãe, tão pequenas e grandes ao mesmo tempo e recordo-me das mãos da minha avó, mãe dela, amarrotadas de tanto trabalhar no campo e na lida da casa.
- O que achas que mudou, mesmo, pergunto?
- Antes, o melhor presente que podíamos oferecer era o tempo que passávamos juntos. Agora, às vezes dão coisas… porque não conseguem dar horas.
O amor das mães não muda com datas nem calendários. O que conta é o coração, e esse ainda bate igual.
Efetivamente, as mães merecem todos os dias, não apenas um, sejam eles quando forem. Assim celebramos o Dia da Mãe duas vezes por anos, pelo menos.
Como sabes, a minha mãe é cheia de silêncios que não são vazios. São cheios de tudo o que não precisava de ser dito.
Feliz Dia da Mãe.
Bjs
Querido neto,
Há uns anos o dia 8 de dezembro era Dia da Mãe e, para mim e para muitas das minhas amigas, continua a ser. Não por ser Dia de Nª Sª da Conceição, mas sim porque era tradição.
Depois veio a Europa e essas coisas, e nunca mais ninguém se entendeu porque a data passou a ser móvel…
Vejamos: Jugoslávia, duas semanas antes do Natal; México – 10 de maio; França e Suécia – último domingo de maio; Inglaterra – 10 de março; Noruega – segundo domingo de fevereiro; etc.
Assim ninguém se entende e não tem graça nenhuma!
Por isso, eu e as minhas amigas já estamos a combinar as festarolas todas para o próximo dia 8 – que, parecendo que não, é já este fim de semana.
Ainda não chegámos a acordo quanto ao restaurante – mas não vão falhar todos os bares, claro, aqui no Sul, mas também em S. Sebastião (já lá fomos marcar lugar num deles, o melhor de todos, e que está sempre a abarrotar de gente). Em S. Sebastião todas temos um primo de que não gostamos muito, mas esse nem deve saber que existe o Dia da Mãe.
Antes de mais, o Dia da Mãe, para mim está sempre muito ligado aos meus tempos de liceu. Eu bem me esforço por varrê-lo da memória, mas não consigo.
Para aí um mês antes do dia 8 de dezembro, nós todas, nas aulas de Lavores, começávamos a trabalhar que nem umas doidas. A Mocidade Portuguesa queria fazer de nós fadas do lar, e queria que também pensássemos sempre muito nos pobrezinhos. Então cosíamos desesperadamente, bordávamos como se não houvesse amanhã, e fazíamos fraldas e fraldas que nunca mais acabavam. Porque o Dia da Mãe era também o Dia dos Berços. Fazia-se uma grande exposição dos nossos trabalhos e depois eles eram oferecidos às pobrezinhas que o liceu protegia.
E as professoras de lavores repetiam sempre muito que tudo tinha de ser feito em material muito resistente «porque era para pobrezinhos e tinha de durar a vida inteira», imagina.
Traz-me as laranjas.
Bjs