SÁBADO, 29
As esquerdas e a Gulbenkian
Lenta mas seguramente, as esquerdas tomaram conta da Fundação Gulbenkian. No topo, estão normalmente pessoas do PS ou próximas da família socialista; ou pessoas não-socialistas mas que foram permitindo o triunfo de uma agenda de esquerda.
Nos quadros intermédios, haverá muitos disponíveis e com vontade de impor as ideais de esquerda. Os seminários, as exposições, os encontros tendem a seguir a agenda das esquerdas: a defesa das ideias woke; os ataques ao colonialismo português, à história de Portugal; à ‘masculinidade’ política (o que quer que seja que isso signifique); o relativismo cultural; e a ‘agenda verde’ de defesa do planeta. As bolsas e o apoio financeiro também seguem, obviamente, a mesma agenda. A Gulbenkian tornou-se numa fonte financeira para a investigação de académicos e cientistas com uma agenda de esquerda, naturalmente escondida atrás do ‘conhecimento científico’.
O paradoxo disto tudo é que o dinheiro que financia a promoção destas ideias das esquerdas radicais foi ganho por um capitalista que investia no sector do petróleo em parceria com as multinacionais históricas do sector. Se Calouste Gulbenkian pensasse como aqueles que beneficiam da sua herança financeira, nunca tinha acumulado capital; nunca tinha ganho dinheiro. Um bom exemplo de uma parte importante da história do último século: os capitalistas ganham dinheiro para as esquerdas radicais o gastarem a atacar o capitalismo. Calouste Gulbenkian merecia muito melhor.
DOMINGO, 30
A Convenção do Bloco de Esquerda
O Bloco de Esquerda tem um deputado, ou seja já nem consegue eleger um grupo parlamentar, mas a comunicação social cobriu a Convenção do Bloco como se fosse um grande partido. O Bloco não é um grande partido, nem sequer é um partido político. É uma organização de velhos radicais (os novos fisicamente pensam como os velhos) que defende uma ideologia ultrapassada e que fracassou em todo o lado. Os seus amigos fora de Portugal são organizações radicais, senão mesmo terroristas, como a esquerda radical e o ETA em Espanha, o Hamas na Palestina, as esquerdas radicais britânica e francesa, e os movimentos radicais da América do Sul, próximos do Chavismo da Venezuela.
O Bloco continua a ter atenção porque a sua presença em meios universitários, culturais e na comunicação social é muito superior à sua representatividade política. O Bloco é um fenómeno político da bolha de Lisboa, e em menor grau com presença no Porto, Braga e Coimbra (cidades com universidades fortes). Como todas as bolhas teria que rebentar. E já rebentou, graças aos eleitores.
Francisco Louçã e Fernando Rosas afirmaram que o Bloco tem que voltar a ser o partido dos jovens. Eu vi-os na televisão. Como a idade passou por eles. Parecem o Roger Waters num concerto, ou aqueles velhos que vão a uma discoteca onde iam há 50 anos, e os jovens olham para eles num canto e pensam ‘o que fazem estes velhos aqui?’
SEGUNDA, 1
Um Seguro solitario e com azar
António José Seguro é como aqueles jogadores de futebol certinhos, que raramente cometem erros, mas incapazes de um rasgo de brilhantismo. Cumprem, mas não mais do que isso. AJS também cumpre mas está com azar. Faltou a um debate por doença, o que foi azar. E depois na noite de um debate que lhe correu bem, com o candidato do Livre, Marcelo Rebelo de Sousa foi operado de urgência, o que retirou a atenção do bom debate de Seguro.
Mas o que é verdadeiramente desolador, para Seguro, é a sua solidão política. Onde estão o PS oficial (direção) e as grandes figuras socialistas? Seguro (e o PS) enfrentam um problema complicado. O candidato precisa da mobilização do partido para crescer e ter hipóteses de ir à segunda volta. Mas enquanto tiver sondagens baixas, os socialistas não se vão mobilizar. O PS tem medo de mais uma derrota grande se o seu candidato tiver uma votação fraca e não passar à segunda volta. Por isso, o mais provável é não se unir à volta da candidatura de Seguro para que a derrota seja apenas um homem. É injusto para Seguro, mas a política é implacável.
TERÇA, 2
A verdadeira doutrina Trump, ‘business realpolitik’
Uma delegação oficial dos Estados Unidos foi a Moscovo negociar a paz na Ucrânia com a Rússia. Do lado russo, estava o Presidente rodeado de conselheiros com funções no Estado. Do lado norte americano, estava um ‘enviado especial’ de Trump (Wikoff) que formalmente não faz parte da Administração norte-americana, e o genro do Presidente, que também não tem qualquer cargo oficial. Ou seja, para um encontro com o Presidente russo, não havia um único membro da Administração dos Estados Unidos. Trump faz política externa através de amigos e familiares, um caso nunca visto na história da diplomacia norte-americana. É o conceito de oligarquia levado ao extremo.
Este modo de fazer política externa revela a doutrine diplomática de Trump: ‘business realpolitik’. Witkoff e Kushner são homens de negócios, não são diplomatas. E foi negócios que foram discutir a Moscovo, não foi a paz na Ucrânia. A guerra na Ucrânia é apenas um pretexto para os amigos e os familiares de Trump fazerem negócios com os russos e com Putin. Não é por acaso que um dos principais negociadores do lado russo é o Presidente do fundo soberano da Rússia. Discutiram negócios e investimentos nos sectores do petróleo, do gás e da mineração na Rússia, incluindo no Ártico. Trump olha para a Rússia como um enorme país, rico em recursos naturais e com grandes oportunidades para se fazer dinheiro. Mas quem vai fazer dinheiro não são os Estados Unidos; são os seus amigos e sócios, e a sua família. Não é só dramático para a Ucrânia. Também é trágico para os Estados Unidos ter um Presidente que se comporta deste modo.
QUARTA, 3
O incómodo de Marques Mendes com o governo de Passos Coelho
Durante o debate entre Marques Mendes e António José Seguro, o candidato socialista acusou ‘o governo’ do candidato social-democrata de trapalhices durante a privatização da TAP, que levaram a buscas judiciais. Foi um golpe baixo de Seguro. Obviamente, Marques Mendes nunca esteve no governo de Passos Coelho. Seguro queria dizer um governo liderado pelo partido de Marques Mendes. O candidato social-democrata fez essa clarificação manifestamente irritado. Mostrou que para ele fazer parte do governo de Passos Coelho é uma ofensa.
Marques Mendes foi incapaz de defender o que o governo de Passos fez por Portugal. Poderia ter dito que não tinha estado no governo de Passos Coelho (todos os portugueses sabem), mas deveria ter acrescentado que tinha um enorme orgulho no trabalho desse governo e de como retirou o nosso país de uma situação de falência provocada por um governo socialista. Também poderia ter defendido a privatização da TAP e de que até hoje não há qualquer provas de irregularidades cometidas na primeira privatização da TAP.
António José Seguro ofereceu a Marques Mendes uma grande oportunidade para defender o legado do governo de Passos Coelho e a privatização da TAP, uma prioridade para o actual governo. Teve uma oportunidade para defender os seus, mas não o fez. Quais são as razões para os eleitores da AD, os eleitores do PSD de Passos Coelho e do CDS de Paulo Portas votarem em Marques Mendes? Um candidato que nem sequer é capaz de defender a história do seu partido.