O antigo primeiro-ministro José Sócrates esclareceu este domingo que as viagens que realizou aos Emirados Árabes Unidos (EAU), em novembro, “foram pagas pelas entidades que [o] convidaram a título profissional”. A reação surge depois de uma notícia do Correio da Manhã que dava conta de que o ex-chefe do Governo teria gastado metade do valor inicial da pensão vitalícia anual de ex-político nas duas deslocações.
Em comunicado, Sócrates acusou o MP de alimentar “uma campanha encoberta” contra si. “Primeiro foi a duração das viagens; agora, o custo delas. Não acertam em nenhuma”, afirmou, reiterando que as deslocações foram inferiores a cinco dias e cobertas pelas entidades que o convidaram. “Tendo sido feitas a título profissional e não sendo eu uma personalidade política, não devo explicações a ninguém – a não ser para me defender de maldosas campanhas mediáticas.”
O MP levantou dúvidas sobre as deslocações após uma entrevista à CNN na qual Sócrates terá referido que esteve duas semanas nos Emirados. A Procuradoria admitiu que tal poderia constituir uma violação das medidas de coação e até indiciar perigo de fuga. O ex-governante está sujeito a termo de identidade e residência, devendo comunicar ao tribunal qualquer ausência do país superior a cinco dias. O MP solicita agora registos de fronteira e explicações formais ao tribunal.
“É completamente falso que tenha feito viagens ao estrangeiro que tivessem excedido o limite”, disse Sócrates, num esclarecimento enviado à agência Lusa. O ex-primeiro-ministro ironizou com o histórico de suspeitas: “Houve perigo de fuga no aeroporto de Lisboa em 2014 quando estava a entrar no país; houve perigo de fuga por estar a fazer um doutoramento no Brasil; agora pretendem que há perigo de fuga por ter ido duas vezes a Abu Dhabi.” Para o arguido, “as suspeitas do Ministério Público não são cómicas, são maldosas”.
José Sócrates, de 68 anos, está a ser julgado no âmbito da Operação Marquês por 22 crimes, incluindo corrupção, branqueamento e fraude fiscal, acusações que tem negado. O megaprocesso, com 21 arguidos, decorre desde julho no Tribunal Central Criminal de Lisboa e está suspenso até janeiro devido à renúncia do seu advogado Pedro Delille. Segundo o tribunal, alguns crimes, como os relacionados com Vale do Lobo, poderão prescrever no primeiro semestre de 2026.