quinta-feira, 22 jan. 2026

Portugal não precisa ser amado em discurso, mas em ação

A política precisa de reencontrar este olhar. Um olhar que não nasce do otimismo ingénuo, mas do reconhecimento e valorização do que somos capazes de fazer

Entre as comemorações do 25 de novembro e os debates presidenciais, parece haver sempre um mesmo derrotado: Portugal. Entre polarizações à esquerda e à direita, rosas brancas e cravos vermelhos, discursos populistas e demagogos, discute-se quem ‘ama’ mais Portugal, sem olhar com seriedade para o que o país realmente precisa.

A política sempre teve o seu quê de narcisismo, mas hoje o espelho reflete uma imagem distorcida do país, da sua história e dos desafios que pesam sobre os portugueses. Portugal foi feito refém pelo debate político e o preço do resgate pode vir a ser muito alto. Nas próximas eleições presidenciais, discute-se muito mais do que a escolha do representante máximo da nação. Discute-se uma visão de país.

Uma visão que nos prende ao passado, nos isola do presente e nos faz temer o futuro só pode conduzir à estagnação. E estagnar, num mundo em acelerada transformação, é colocar Portugal fora de jogo. Não podemos continuar a alimentar narrativas que nos puxam para trás, geram medo, incerteza e desconfiança. Que nos fazem duvidar do que vemos, lemos e pensamos, e que nos colocam uns contra os outros sem perceber que os desafios que enfrentamos são muito maiores do que as nossas diferenças.

Numa relação, isso tem um nome: gaslighting. 

Não podemos continuar reféns voluntários de um discurso que insiste num Portugal sem esperança. Sem esperança, não há progresso, nem futuro. 

Nos últimos anos, pude testemunhar um país que trabalha muito mais do que se queixa. Um país que exporta, que cria valor, que se reinventa na cultura, no vinho, no turismo, na ciência, na tecnologia ou na economia do mar. Uma portugalidade contemporânea que não vive de nostalgias, mas do mérito das pessoas, investigadores, produtores, artesãos, empresas, jovens talentos, que, muitas vezes longe dos holofotes, constroem diariamente a reputação do país.

Amar verdadeiramente Portugal é reconhecer os seus desafios e enfrentá-los com coragem e determinação. É proteger a sua economia, dando confiança aos empresários e segurança aos trabalhadores. É estimular o seu crescimento, reforçando o multilateralismo e diversificando as relações comerciais, de forma a dispersar os riscos de dependência externa. É incentivar a sua evolução, investindo na inovação e no empreendedorismo, para acompanhar o ritmo de um mundo moldado pela Inteligência Artificial.

A política precisa de reencontrar este olhar. Um olhar que não nasce do otimismo ingénuo, mas do reconhecimento e valorização do que somos capazes de fazer. Acreditar em Portugal não é um ato de fé. É um ato de responsabilidade. E o que se espera de um Presidente da República é esse amor altruísta, de quem quer verdadeiramente servir o país e não servir-se dele.