sábado, 17 jan. 2026

Entre dois centros e uma esquerda fragmentada, ganha a direita

O que têm em comum António José Seguro, candidato presidencial, e António, o mercador, de Shakespeare? Não querem tudo no mesmo barco
Entre dois centros e uma esquerda fragmentada, ganha a direita

Este texto é sobre presidenciais, mas antes, a literatura, O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, em que António, o mercador e uma das personagens centrais, logo no I Ato diz: «Os meus empreendimentos não estão confiados a um só navio, nem a um só destino; nem toda a minha fortuna depende da sorte deste ano».

O António de Shakespeare diz o que António José Seguro afirmou numa das primeiras entrevistas que deu no início da pré-campanha presidencial, quando sacudiu a ideia de que era um candidato de esquerda – ou seja, não colocou as intenções de voto todas no mesmo navio, no navio da esquerda. Entretanto, as circunstâncias e as sondagens fizeram com que António, o Seguro, mudasse de opinião: continua a pedir aos portugueses que não coloquem todos os votos no mesmo navio, no navio da direita, assumindo agora que o navio em que viaja é o da esquerda.

Mas, se não sabe, eu conto-lhe, em O Mercador de Veneza, e apesar da sábia decisão de não colocar as mercadorias todas no mesmo navio, todos os navios se perdem no mar e António fica a umas quantas libras da sua própria carne de perder a vida. António José Seguro está, neste momento, a uns quantos pontos percentuais de perder as eleições presidenciais logo na primeira volta. Imprudente, terá cometido aquilo que agora se percebe de forma clara ter sido um erro, que tenta corrigir. No início da semana, e pela primeira vez, em debate com o candidato do Livre, Jorge Pinto, apelou ao voto útil.

Ana Gomes, que o apoia desde a primeira hora, deixou cair num programa de televisão que tem esperança de que haja candidatos presidenciais de esquerda que se «sacrifiquem» para que Seguro possa ser eleito na primeira volta, e mantemos o tom dramático de O Mercador de Veneza. Jorge Pinto poderá ser um deles, mais difícil será a possibilidade de Catarina Martins o fazer, e é quase impossível que António Filipe o faça. 

No entanto, a questão que se coloca é: seria suficiente para dar a Seguro a possibilidade de passar à segunda volta? Talvez não, porque o candidato apoiado pelo PS não tem, sequer, o eleitorado do PS nas intenções de voto. Aliás, tem o ressentimento, ou a rejeição, entre pública e contida, de parte da oligarquia do partido com sede no Largo do Rato. 

A meio da semana, o debate foi entre os dois candidatos do centro, dito de outro modo, os dois candidatos apoiados pelo PSD, o partido do Governo, e pelo PS, o terceiro partido, agora na Oposição. Historicamente, e desde 1976, teríamos que um destes dois seria eleito Presidente da República. E, se as intenções de voto nos candidatos plasmassem as intenções de voto nos respetivos partidos, assim seria, com vantagem para Luís Marques Mendes. Mas não é.

António José Seguro e Luís Marques Mendes tentaram, nesta quarta-feira, 3 de dezembro, convencer o país de que têm projetos autónomos para a Presidência. Seguro poderá ter sido mais convincente nesse propósito, também porque os dez anos de afastamento da vida política ativa lhe dão esse espaço, mas Marques Mendes é mais convincente no que diz em tudo o resto. Quem viu o debate voltou a ver o comentador Marques Mendes, quando afirmou que o pacote laboral «não será nada, nada, nada parecido com o documento final», isto é, adiantando uma notícia – um hábito que lhe ficou do tempo do comentário político – e, no mesmo passo, mostrando como continua envolvido com o Governo. De qualquer modo, se há coisa que Mendes tem em comum com Seguro é que também ele tem visíveis anticorpos no PSD. 

Só André Ventura parece ter um eleitorado fidelizado. Mendes e Seguro disputam eleitorado com Henrique Gouveia e Melo e João Cotrim de Figueiredo – mais com o primeiro do que com o segundo. 

E, como em Shakespeare, tudo depende de marés e escolhas. Resta saber se António, o Seguro, conseguirá chegar a bom porto sem se perder no nevoeiro político e com o farol da esquerda apagado