sexta-feira, 06 fev. 2026

Constança Cunha e Sá. Um falcão das nossas redações

1958-2025 Entregou-se ao jornalismo como a um vício e morreu disso
Constança Cunha e Sá. Um falcão das nossas redações

Fica mal se, de uma mulher, dissermos que não se calava. Constança Cunha e Sá não se calava; fez disso a sua arte, uma esplêndida petulância. Na sua hábil e incisiva intervenção no espaço público, como jornalista ou analista política, o talento que a distinguia estava na forma como distribuía e articulava os espinhos. Deixava as pétalas e o perfume aos outros. Viveu como quis, até onde o corpo lhe permitiu. E os melhores anos entregou-os ao jornalismo, com uma dedicação e uma independência que ninguém deixou de lhe reconhecer. Não basta dizer que recusava os sectarismos. A sua inteligência distinguia-a desses perfis que entre nós se desenham sempre na linha de um cálculo, das militâncias mais profundas entre nós, que são as do oportunismo. Não andava a atrás de ter piada e nunca foi de salamaleques ou solenidades. Praticava um jornalismo que hoje parece extemporâneo, porque não se dava grande margem para os romantismos parolos, mas era exigente, desconfiado, cortante.

Nascida em Lisboa em 1958, estudou Filosofia e iniciou a carreira no final da década de 1980, na primeira encarnação da revista Sábado, não tendo demorado a destacar-se, isto num tempo em que os jornais forneciam uma intriga e um xadrez para que os interesses de certas classes e grupos tivessem de se dobrar às ideais, construir argumentos minimamente plausíveis de forma a se imporem. A rapidez de raciocínio fez de Cunha e Sá um falcão das redações, e o sinal do seu compromisso estava em ter mergulhado de corpo e ânimo num jornalismo que então estava domiciliado na boémia, com as suas libações, aquela urgência do que não se defende dos abalos e arrasos de eleger uma batalha atrás de outra.

Foi Paulo Portas quem reconheceu nela o instinto que muitas vezes se mostra capaz de ultrapassar a razão, convidando-a para o jornal que então fazia e desfazia reputações. Integrou-a na equipa d’O Independente, um projeto que tinha em si o melhor e o pior do nosso jornalismo, mas que trouxe um impulso e uma frescura essenciais num país que, por inclinação, tende à dormência e ao bolor. Ali pedia-se risco, algum donaire e sangue-frio. Ela correspondeu com uma precisão rara. Em certa medida ela foi melhor do que o próprio jornal era: investigadora rigorosa, cronista aguda, repórter com um sentido literário incomum, e com a dose certa de humor.

Não era simpática, não confortava, não era doméstica. Em muitos sentidos definia-se mais pela negativa. E se era eficaz, não comprometia na clareza, e não fazia concessões. Quando chegou à direção do jornal, este já cambaleava sem a a trindade fundadora. Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso a investir contra vultos e figuraças, e do outro lado essa espécie de Adamastor que era Cavaco Silva, dando a supor que dobrar aquele cabo seria uma tarefa capaz de fazer novos heróis. Constança assumiu o comando e tornou digno o naufrágio.

Depois passou pelo Diário Económico, mas foi já como comentadora política que assumiu um mais decisivo protagonismo, na TVI e na TVI24, onde se tornou presença insubstituível. Foi uma das poucas comentadoras políticas que recusaram o teatro das oposições dissolventes, a cortesia polida, a coreografia previsível de ‘opiniões’ que nada arriscam. Moderou A Prova dos 9, editou política, esteve no centro das noites eleitorais e dos grandes debates com uma frieza argumentativa que intimidava, não por agressividade, mas pela firmeza. Distinguiu-se ainda pelas suas entrevistas, não dando abébias, nem permitindo a saída da ambiguidade: perguntava, insistia, desmontava, e não se rendia ao sentimentalismo decorativo que hoje infesta a televisão.

Fora do ecrã, era cultíssima sem exibicionismo, leitora obsessiva, ouvinte disciplinada de música clássica e dona de uma ironia que, em privado, se tornava ainda mais devastadora. Quem conviveu com ela reconhece que, para ela, pensar com rigor não era uma pose pública, mas algo que lhe era constituinte.

Morreu vítima de cancro, internada em paliativos, aos 67 anos. Em certo sentido a doença que a mata foi uma última distinção, lembrando um tempo em que o jornalismo era das profissões com maior desgaste físico, celular. Constança nunca se defendeu. É um dos raros casos em que é realmente justo assinalar como a sua ausência significa um evidente prejuízo para a profissão. O jornalismo político fica mais pobre, mais previsível, mais dócil.