A tecnologia e a segurança digital estiveram no centro do debate da segunda grande Conferência de Cibersegurança e Transformação Digital, organizada pela APECSYS, SEDES, Ordem dos Economistas e Ordem dos Advogados, que voltou a afirmar-se como um dos encontros nacionais mais relevantes dedicados à segurança digital e ao impacto das tecnologias na sociedade portuguesa.
A conferência contou com decisores políticos, empresas e especialistas para discutir prioridades nacionais e a proteção da economia digital.
A abrir o dia esteve o presidente da Assembleia da República, José Aguiar-Branco que garantiu: «Falar de cibersegurança em 2025 é uma evidência. Mas é, sobretudo, uma necessidade imperativa». Lembrando que o mundo está a mudar, Aguiar-Branco reforçou que dessa mudança, «nascem novos riscos, novas vulnerabilidades, novas ameaças que atravessam fronteiras, setores e instituições».
O presidente da Assembleia da República alertou ainda que «estamos perante um novo paradigma da segurança pública, da defesa e da geopolítica», «que redefine prioridades, exige novas competências e amplia o próprio conceito de soberania».
Por isso, Aguiar-Branco defende que «a cibersegurança tem de estar no centro do debate público», uma vez que não diz respeito apenas ao Estado, às instituições públicas ou às entidades oficiais. «Diz respeito aos cidadãos. Às empresas. Às famílias».
Assim sendo, é preciso investimento. «Precisamos, por isso, de mais investimento e de maior visibilidade pública neste domínio». «Não apenas para reagir, mas para prevenir. Não apenas para remediar, mas para fortalecer. Não se trata apenas de reforçar os três ramos das Forças Armadas. As ameaças mudaram», disse José Aguiar-Branco, lembrando que a defesa mundo e que, «tal como protegemos as nossas águas e o nosso território, temos também de proteger o nosso ciberespaço. A nova dimensão da nossa soberania».
Além disso, acrescentou, «investir em cibersegurança é uma oportunidade para um país como o nosso. Uma oportunidade que não exige o maior número de efetivos militares, nem a maior quantidade de armamento. Mas que nos prepara, verdadeiramente, para enfrentar ameaças novas, assimétricas e digitais. E que nos permite oferecer um contributo valioso, credível e cada vez mais indispensável aos nossos aliados», insistiu, atirando ainda que é preciso combater também a desinformação.
Um evento com grande importância
As preocupações de Aguiar-Branco são as de todos os que participaram neste evento, que se mostrou um sucesso desde a primeira hora. Mesmo tendo sido anunciada apenas com duas semanas de antecedência, a conferência reuniu perto de 400 inscritos, um número que confirma o crescente interesse – público, institucional e empresarial – por estas matérias.
Entre os aspetos mais marcantes desta edição destacou-se a participação inédita de mais de 120 decisores: presidentes de entidades públicas, diretores-gerais, CEOs e líderes de grandes organizações. Um número quatro vezes superior ao registado no ano passado e que simboliza, segundo a organização, uma verdadeira mudança na forma como o país encara a cibersegurança.
Como sublinhou João Annes, um dos curadores deste encontro e membro do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, «os dados provam que mais do que quadruplicámos a presença de decisores, passando de cerca de 30 para mais de 120 líderes de topo. Isto demonstra que, de um ano para o outro, já se compreendeu que este é um tema do CEO, é um tema do presidente da instituição».
A primeira edição tinha já deixado a sua marca no debate nacional, ao influenciar o processo de revisão do regime jurídico de cibersegurança. João Annes recorda que o evento «permitiu ao Governo, que estava a avaliar um novo regime jurídico de cibersegurança nacional, perceber um conjunto de melhorias importantes e abrir uma nova consulta pública». Essa consulta tornar-se-ia histórica: foi a mais participada de que há registo, com mais de 140 contributos em menos de um mês, vindos de todos os setores da sociedade.
Este ano, o contexto era distinto. A conferência decorreu poucos dias depois da promulgação do novo regime jurídico de cibersegurança, aprovado na semana anterior pelo Presidente da República. E, por isso, a ambição cresceu. O encontro voltou a juntar reguladores, decisores políticos, especialistas e representantes de vários setores para refletir sobre os novos desafios de um mundo multipolar.
João Annes sublinhou que «a cibersegurança já não é apenas técnica: é geopolítica na sua forma mais pura», lembrando que abrange desde as comunicações quotidianas – e-mails, mensagens instantâneas – até às infraestruturas críticas que sustentam a economia global, como os cabos submarinos. «Quem controla as infraestruturas digitais controla cadeias de valor, influencia a opinião pública e afeta a resiliência nacional», reforçou.
Entre as ideias-chave que a organização quis enfatizar esteve a relação indissociável entre inovação e segurança. «Se tivesse que haver uma mensagem importante a sair desta conferência, seria esta: o desenvolvimento económico, social e político de Portugal depende de percebermos que a inovação e a segurança andam de mãos dadas», afirmou João Annes. Recusando a visão de que a segurança é um obstáculo à inovação, explicou que «a segurança não é um add-on, um topping que se põe por cima», mas sim o elemento estruturante que permite ao país continuar a beneficiar plenamente da transformação digital.
Questionado sobre a literacia digital no país, João Annes foi claro: antes de literacia, existe algo ainda mais fundamental – «o processo de autoconsciência: saber que não sabemos». E a forte presença de decisores nesta edição, na sua perspetiva, demonstra essa evolução: «Os líderes que definem regras de negócio e estratégias institucionais já compreenderam que esta responsabilidade lhes pertence».
A conferência assumiu também um papel ativo na despolarização do debate tecnológico. «A tecnologia é neutra. Não devemos nem demonizá-la nem deificá-la. O que determina o seu impacto é a forma como escolhemos utilizá-la», afirmou. É precisamente nessa escolha coletiva – política, social e económica – que se decide o futuro da soberania digital e das oportunidades das próximas gerações.
Com várias rondas de debate, forte interação com o público e a apresentação de projetos inovadores por especialistas de diferentes áreas, o encontro consolidou-se como um espaço de questionamento crítico e construção estratégica. «O foco é questionar», sintetizou João Annes. «Queremos que decisores, reguladores e agentes económicos discutam abertamente como podemos garantir que a transformação digital de Portugal ocorre de forma segura e sustentável».