A economia portuguesa deve crescer 1,9% este ano, acelerar para 2,2% em 2026 e regressar a um ritmo mais moderado de 1,8 % em 2027. As previsões são da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) com os analistas a explicar que o crescimento como motor interno deverá assentar sobretudo no consumo privado – alimentado por um mercado de trabalho apertado, o aumento do salário mínimo e cortes no IRS – e no investimento público, impulsionado pelo desembolso dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) em 2026.
Em contrapartida, as exportações devem continuar a sentir o peso de uma procura externa mais fraca, agravada por tarifas comerciais e elevado grau de incerteza internacional.
Relativamente à inflação, a OCDE estima que – com a pressão sobre salários e custos de produção – a moderação será lenta, com inflação de consumo a convergir para cerca de 2,0 % em 2027.
Sobre as contas públicas e dívida, o relatório sublinha que a política orçamental permanecerá expansionista em 2026, mas deverá tornar-se mais restritiva em 2027, quando os fundos do PRR deixarem de ter o mesmo impacto. A intenção é que o ritmo de redução da dívida continue no médio prazo.
A publicação das projeções desencadeou uma reação do Executivo: Manuel Castro Almeida, ministro-adjunto e da Coesão Territorial, desvalorizou as estimativas da OCDE, afirmando que estas instituições «se enganam muitas vezes» e reiterando a confiança do Governo nas suas próprias previsões.
Castro Almeida salientou que o objetivo nacional permanece o de alcançar um crescimento sistematicamente «substancialmente acima da média europeia», a fim de recuperar atraso em relação ao PIB per capita da UE.
Num tom de otimismo, recordou que 2024 teria sido um ano em que Portugal «cresceu mais» e indicou que as perspetivas para 2025–2026 mantêm essa trajetória de crescimento
Ao Nascer do SOL, João Cruz, analista de mercados da XTB, recorda que «na prática, a economia portuguesa tem vindo a crescer a um ritmo superior ao de grande parte dos seus pares europeus - embora abaixo do crescimento médio mundial».
O analista diz que, «enquanto economias como a francesa ou alemã enfrentam maiores dificuldades em ganhar tração, Portugal tem-se mostrado relativamente resiliente e tudo indica que essa tendência poderá prolongar-se, apoiada num mercado de trabalho robusto, na execução dos fundos europeus e, na recuperação gradual do rendimento real das famílias (descontando a inflação, ou seja, o poder de compra efetivo do dinheiro que ganham)».
Ainda assim, João Cruz não tem dúvidas que «Portugal permanece muito exposto ao contexto internacional» e que «um eventual aumento das tarifas e barreiras comerciais, novos choques nas cadeias de abastecimento, subidas nos preços das matérias-primas energéticas, a intensificação de conflitos bélicos, um ambiente de taxas de juro mais restritivas ou uma correção no turismo, são fatores que podem condicionar a economia e ter impacto direto na vida das famílias portuguesas, seja através do custo de vida, das prestações de crédito ou da evolução do mercado de trabalho».
Resilente mas frágil
No que diz respeito à economia global, a OCDE diz que tem demonstrado resiliência ao longo deste ano, mas as fragilidades subjacentes ainda permanecem. O relatório projeta uma desaceleração do crescimento global, que deverá cair de 3,2% em 2025 para 2,9% em 2026, antes de recuperar para 3,1% em 2027.
João Cruz diz que o relatório destaca um conjunto de riscos «que podem alterar este cenário relativamente benigno», destacando a escalada de barreiras comerciais e tarifas. «As tarifas recentemente introduzidas, em particular pelos EUA, já estão a pesar nas perspetivas de comércio mundial e podem voltar a fragmentar cadeias de valor, reduzindo assim o crescimento e atrasando a descida de inflação (desinflação)», diz.
Junta-se a valorização excessiva de alguns segmentos dos mercados financeiros, em especial ligados à IA: «A OCDE chama a atenção para a possibilidade de uma correção em ativos que beneficiaram de grande entusiasmo, em torno da inteligência artificial. Uma correção mais abrupta poderia ter impacto na confiança e nas condições financeiras», considera João Cruz.
O analista de mercados fala ainda em níveis elevados de dívida pública e privada. «Após vários anos de políticas muito expansionistas, muitas economias enfrentam hoje rácios de endividamento elevados – o que limita a margem de manobra para responder a possíveis choques futuros, seja através de política orçamental, seja com novas descidas agressivas de taxas de juro».
Por fim estão os riscos geopolíticos e incerteza política, com o especialista a considerar que «conflitos em várias regiões do globo, tensões entre grandes potências económicas e ciclos eleitorais, mantêm um nível de incerteza que pode travar o investimento e o comércio internacional».
Ainda sobre os dados da OCDE, João Cruz adianta ao nosso jornal que «à luz do mais recente relatório da OCDE, podemos afirmar que a economia global está numa trajetória de recuperação, apesar de se tratar de uma recuperação moderada e ainda bastante desigual entre os países».
O analista detalha que «a inflação tem recuado de forma gradual (desinflação), os mercados de trabalho continuam, no geral, resilientes e, o investimento ligado a transição energética, armamento e a digitalização, têm dado algum suporte à atividade económica». Adicionalmente, «é importante relembrar que estamos perante uma revolução tecnológica ligada à IA, o que pode trazer ganhos de produtividade real».
No entanto, acrescenta, «a própria OCDE sublinha que este cenário continua frágil, uma vez que as taxas de juro permanecem em níveis relativamente restritivos, o comércio mundial cresce pouco, os níveis de endividamento público e privado são elevados e, os riscos geopolíticos continuam presentes. Ou seja, não estamos perante um cenário de crise iminente, mas sim de crescimento positivo com margens de segurança reduzidas, o que exige alguma prudência na leitura desta recuperação».