sexta-feira, 23 jan. 2026

Na Venezuela ‘os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem’

A lição geopolítica a aprender é que a justiça e o direito internacional só contam quando há equilíbrio de poder e quando esse equilíbrio não existe manda a força.

Os EUA querem expulsar os rivais estratégicos da Venezuela, nomeadamente a Rússia, a China e o Irão, e isolar ainda mais Cuba.

Ao longo dos últimos anos, a dependência estratégica da Venezuela face a estes países acentuou-se, estando a soberania venezuelana reduzida ao estatuto de vassalo dos interesses geopolíticos dos seus parceiros internacionais.

Hoje, a espinha dorsal da defesa venezuelana é 100% russa.

Os caças russos Su-30MK2 e, crucialmente, os sistemas de defesa aérea S-300VM e Buk-M2E, são as únicas capacidades que a Venezuela tem para aplicar a sua estratégia de negação de acesso, ou seja, criar uma ‘bolha de defesa aérea’ até 200 km em volta de Caracas para dissuadir ataques diretos contra o coração do regime. No dia-a-dia, mercenários do grupo Wagner protegem as figuras do políticas do Regime e as explorações petrolíferas e mineiras.

Já a China é o maior credor da dívida pública da Venezuela e recebe os seus pagamentos através do fornecimento do petróleo e de contrapartidas que incluem o fornecimento de todo o tipo de tecnologias para as infraestruturas críticas e de comunicações da Venezuela.

Por outro lado, quando as refinarias de petróleo venezuelanas falham, o que é frequente, o Irão assegura a capacidade de processamento de crude necessária. Em troca, o Irão instalou fábricas de drones militares que aproveitam a mão de obra ‘semi-escrava’ do povo venezuelano para dar escala à sua produção militar.

Por último, temos Cuba, que basicamente assegura todo um sistema de contra-inteligência civil e militar ‘as a service’, desde a vigilância aos generais venezuelanos, organização e treino dos esquadrões de morte venezuelanos, conhecidos como ‘forças de ação especial’, que perseguem dissidentes e opositores políticos, ao fornecimento de forças especiais cubanas, as ‘Avispas Negras’, para a guarda pessoal de Maduro e do seu círculo íntimo.

Hoje, o preço da manutenção deste regime parasitário é pago com as vidas de muitos venezuelanos, mas a iminente intervenção americana não pode ser confundida como um ato benigno de libertação de um povo oprimido.

Então, porque é que a Administração Trump está disposta a gastar mais de 20 milhões de euros por dia e arriscar perder apoios importantes no Congresso dos EUA, num conflito militar que é apoiado por menos de 15% dos eleitores americanos?

A única resposta credível até ao momento continuam a ser os interesses geopolíticos profundos dos EUA nesta região.

Estes interesses incluem não só a expulsão dos rivais estratégicos, como também a apropriação dos recursos da Venezuela para seu próprio benefício, incluindo o acesso ao petróleo e minerais raros críticos para a cadeia de fornecimento das tecnologias aeroespacial, comunicações e inteligência artificial.

Por exemplo, estima-se que na região do Escudo das Guianas e, em particular, no ‘Arco Minero do Orinoco’, estejam depositadas mais de 300 mil toneladas destes minerais raros, bem como ouro e diamantes.

Todo este contexto aponta para uma probabilidade elevada de ocorrerem ações militares americanas contra o regime venezuelano em dezembro, ainda que limitadas.

A concentração de meios aéreos e navais americanos, contrasta com a reduzida presença de forças terrestres ou anfíbias, apontando para uma provável campanha aérea e naval. Em contraste não é expectável uma intervenção militar terrestre, com exceção para o uso de forças e operações especiais em atividades de reconhecimento e apoio a forças insurgentes para fazer desmoronar o regime de Maduro.

A designação do Estado Venezuelano (via Cartel de los Soles) como «Terrorista» removeu as barreiras legais para os EUA atacarem alvos soberanos sem declaração de guerra formal. Mas isto, não passa de um argumento jurídico com pouca substância para ‘legitimar’ ações militares, que se acontecerem só podem ser entendidas como uma violação do Direito Internacional.

Neste ambiente internacional marcado pela policrise, a lição geopolítica a aprender é que a justiça e o direito internacional só contam quando há equilíbrio de poder e quando esse equilíbrio não existe, manda a força.

Ou, como dizia Tucídides, os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem.

Que este exemplo nos sirva de lição, a nós na Europa, da forma que está a ser dada à nova ordem internacional.

Observatório de Segurança e Defesa da SEDES