Escrevo na primeira pessoa, com o atrevimento da amizade e a gratidão da admiração. Outras abordagens, da vida e obra de António Mota, mais profissionais e institucionais não irão faltar e serão essas as verdadeiramente significativas. Aqui fica apenas uma atrevida pincelada pessoal.
Com a morte do Engenheiro António Mota, Portugal não perde apenas um empresário de prestígio, um homem que acumulou fortuna ou um cidadão atento.
Mesmo com a parcialidade de quem está ferido pela amizade, parece-me óbvio que António Mota criou valor e deixou um país muito melhor, menos pobre do que aquele onde nasceu.
António Mota viveu a sua atividade profissional sempre com profunda envolvente social, e olhar atento ao seu mundo e às suas raízes.
Em particular Amarante, o Porto e o norte de Portugal beneficiaram da sua visão, da sua alma e da sua generosidade.
A Fundação Manuel António da Mota, o seu compromisso social são disso exemplo.
Nunca fui seu advogado, nem com ele partilhei nenhum interesse económico, o meu testemunho deve-se à admiração pelo seu humor, pelos seus olhos atentos à política e ao mundo, e sim, devo ser verdadeiro, à partilha das venturas e desventuras do nosso benfiquismo.
Nos contactos com o Engenheiro António Mota éramos bombardeados com perguntas sobre todos os temas, não havia matéria ou assunto que não lhe interessasse. Era a sua curiosidade pelo mundo que o fazia maior, que o fazia diferente.
António Mota nunca acreditou na sorte como destino e não regateou ao trabalho como método. Na sua vida a sorte, foi sempre ele que a fez acontecer.
Portugal perde um empresário que o fazia mais próspero, mas perde também um dos raros empresários que fizeram Portugal maior e mais presente, no mundo global do século XXI.
António Mota lutou sempre contra o Portugal pobre, desvalido e preterido.
Em certo sentido António Mota fez primeiro com a Mota & Companhia, depois com o Grupo Mota Engil, algo de parecido com as caravelas quinhentistas.
Na busca da expansão comercial, houve mundividência de Portugal, houve alma e sangue português em vários continentes, houve génio empresarial, mas houve sempre nome de Portugal.
Tudo isto realizado com um sentido invulgar de família, com uma gestão profissional de empresa, que na essência, foi sempre e apenas uma empresa familiar. Este facto aumenta o mérito, realça o génio e sublinha a singularidade de António Mota.
Há poucos meses num almoço com o Manuel Mota, seu filho, lembrava alguns episódios da vida do pai que nunca esqueci, tributo do seu humor por vezes impiedoso por sarcástico.
Lembro-me naqueles anos de angústia benfiquista, no intervalo dum Benfica – Lazio, na companhia de dois amigos comuns, de o ver interpelar o então presidente do Benfica Manuel Vilarinho:
«Manel, diz-me quanto dinheiro precisas para pôr o Benfica a ganhar, eu junto uns amigos e resolvemos … Não suporto esta vida de perder sempre e chegar segunda-feira à empresa e ser gozado pelo segurança».
«Manel, estou cansado do ‘este fim de semana correu mal, Sr. Engenheiro’».
Risos generalizados…
Ou quando, no Estádio do Bessa, em 2005, vimos juntos aquele decisivo Boavista – Benfica (o Benfica não era campeão há 11 anos) e no fim do jogo, em pleno camarote presidencial, a descarga de adrenalina não permitia que nem um, nem outro, se levantasse, António Mota com o seu Manto Sagrado vestido, abraça-me e diz-me: «Para que serve o dinheiro ou as comendas, se isto nos dá a verdadeira felicidade». E assim ficámos eternos segundos, a imortalizar a emoção do instante
Na vida, os sentimentos unem as pessoas.
Como nos casos de Pascoais ou Agustina, nasceu em Amarante, mas na vida de António Mota, como nos versos de Eugénio de Andrade, Daqui Houve Nome de Portugal.
Em certo sentido houve até muito da Arte de Ser Português de Pascoais, na vida do Comendador António Mota.
Este legado ficou mais como testemunho, do que como lição, porque os verdadeiramente singulares, como o Comendador António Mota, são mais de fazer do que de ensinar.
Os meus sentimentos à família e em particular ao Manuel, seu filho, a quem me liga uma amizade para continuar a cimentar, também, em memória do Pai.