24 de novembro de 1925, Nova Iorque. Nasce William F. Buckley, Jr., (Bill Buckley) o quarto de dez filhos de William Buckley, Sr. e de Aloise Steiner Buckley. A meio dos loucos anos 20, no seio de uma economia pujante e com as feridas da Primeira Guerra Mundial mais ou menos ultrapassadas, a ideia de uma nova guerra ou de um colapso financeiro não estavam propriamente nos horizontes dos americanos e a preocupação com a política foi reduzida de forma significativa. Mal sabiam os conservadores (aqui, a expressão “conservadorismo” será utilizada na sua aceção americana), em particular, e os americanos, em geral, as batalhas que se aproximavam. E muito menos sabiam que acabava de vir ao mundo terreno aquele que acabaria por se tornar um dos seus líderes populares e intelectuais, indispensável para fazer frente tanto a uma ameaça interna – o liberalismo coletivista, propulsionado pela eleição de Franklin D. Roosevelt em 1932 e do seu New Deal – quanto a uma ameaça externa – o comunismo soviético. A primeira acabou por revelar-se mais resistente que a segunda.
E o ambiente político atual, marcado por fortes divisões no seio do movimento conservador, demonstra porque, cem anos depois do seu nascimento, Buckley continua a ser importante.
Uma infância invulgar
A infância de Bill Buckley não foi a infância do comum americano nem tampouco a do americano abastado da Costa Leste. E foi essa educação invulgar que viria a moldar de forma decisiva a sua vida. William Buckley Sr. fez fortuna no negócio do petróleo no México e na Venezuela e a cultura hispânica foi uma marca indelével na vida da família. Como disse o jornalista John Judis, citado pelo biógrafo Sam Tanenhaus, «para compreender Bill Buckley, é preciso entender que ele é um aristocrata católico de influência espanhola. Essa é a essência da questão. Ele deveria ter sido espanhol». De facto, o espanhol foi o seu primeiro idioma.
Mas, escreve Tanenhaus, «o pai tinha outros planos – uma educação formal no estrangeiro». «Em agosto de 1938, Bill Buckley, de doze anos, teve o primeiro choque da sua jovem vida privilegiada. (...) Em menos de um mês, Bill e as suas irmãs (...) seriam enviados para a Inglaterra, do outro lado do oceano, para estudar». Mais tarde, o seu sotaque britânico acabaria por se tornar numa das suas imagens de marca, uma característica fundamental da sua inimitável e inconfundível persona pública.
Mas foi sobretudo Great Elm, a residência familiar em Sharon, Conneticut, que moldou o jovem Buckley. Numa educação à base de tutores privados, Buckley aprendeu idiomas, a tocar piano – a mansão dispunha de cinco pianos para que vários irmãos pudessem praticar em simultâneo – e a montar a cavalo.
Na esfera religiosa, Buckley seguiu as pisadas da mãe, uma católica devota. A sua fé, bem como a consciência da importância que o cristianismo representava na civilização ocidental, foi um dos fatores fundamentais que o levaram a escrever o seu primeiro livro. Livro este que o catapultou para um lugar de visibilidade na praça pública.
Contra o zeitgeist
Aos vinte e seis anos, recém graduado em Ciência Política, História e Economia pela Universidade da Yale na qual ingressou após dois anos de serviço militar, Buckley lança God and Men at Yale: the superstitions of “Academic Freedom” (Deus e os Homens em Yale: as superstições da “Liberdade Académica”, em portugês). Num ambiente político já profundamente marcado pelas presidências de FDR e dos seus programas e expansão do poder do Estado e por um ímpeto secularista na academia, o livro de Buckley caiu como uma bomba em New Haven.
Na sua tese, Buckley apresenta dois argumentos principais, seguidos de uma chamada à ação: primeiro, numa pesquisa que o fez percorrer os departamentos de sociologia, filosofia e psicologia da Universidade, denuncia o crescente domínio do secularismo nas ciências sociais; depois, o foco vira-se para o departamento de economia que, de acordo com o jovem conservador, funcionava como uma caixa de ressonância das teorias de John Maynard Keynes, isto é, inculcava nos seus alunos o coletivismo, relegando o individualismo e o livre mercado para segundo plano. Por fim, apela aos ex-alunos de Yale para que congelem as doações de forma a pressionar uma inversão da política pedagógica da Universidade.
Para além disto, a sua opinião sobre o conceito de liberdade académica também levantou ondas. Buckley acreditava que a expressão “liberdade académica”, um conceito que, na sua essência, é um pilar fundamental da nossa civilização, estaria a ser utilizada como uma máscara para fazer avançar dogmas ideológicos. Ou seja, um manto protetor que permitia fazer equivalências entre valores e ideias que não eram equivalentes.
Estas opiniões fortes geraram, naturalmente, divisão e controvérsia. Austin W. Bremwell, num texto escrito para marcar o quinquagésimo aniversário do livro, revisitou as críticas que Bill Buckley enfrentou. E uma delas merece ser destacada: «Frank Ashburn, fundador da Brooks School», escreveu Bremwell, «chamou-lhe “Torquemada [o Inquisidor-Geral de Espanha no século XV], reencarnado com vinte e poucos anos” e insinuou que [Buckley] não deveria estar a usar uma toga académica, mas sim o traje do Ku Klux Klan».
Ainda assim, houve quem valorizasse o trabalho do jovem. Por exemplo, Felix Wittmer, citado por George H. Nash, qualificou God and Man at Yale na revista libertáriaThe Freeman como «um serviço a Yale, à América, e à civilização ocidental».
A criação de um movimento
Mas este serviço à causa americana e ocidental não ficou por aqui. God and Men at Yale foi apenas o primeiro passo rumo ao estrelato. Quatro anos depois, em 1955, Buckley funda a National Review (NR). Mais que uma revista de opinião conservadora, a NR foi uma plataforma unificadora de um movimento inerentemente fragmentado. De um lado, os tradicionalistas como Russell Kirk ambicionavam uma ordem moral e espiritual. Do outro, libertários como Frank Meyer reforçavam o papel da liberdade individual enquanto objetivo último dam esfera política. A estas duas correntes juntava-se ainda uma terceira, que incluía os fervorosos anti-comunistas, inclusive muitos que tinham aderido ao comunismo no passado e que acabaram por se converter à causa conservadora (Whittaker Chambers era o caso paradigmático).
Foi esta amálgama que, a operar sob a égide da NR, deu consistência a um movimento que, como escrevia Lee Edwards para a mesma revista em 2020, «raramente [comunicava] entre si». A iniciativa só foi possível, continuava Edwards, devido à «extraordinária habilidade de Buckley em harmonizar as vozes conflituantes do coro conservador. Porque persuadiu os seus colegas rebeldes a concentrarem-se no seu inimigo comum – a União Soviética – e a deixarem de lado, por enquanto, as suas diferenças inquestionáveis».
O exemplo que cristaliza a importância da NR para a batalha travada com a URSS é o de Ronald Reagan. O quadragésimo presidente dos Estados Unidos admitiu que a NR era a sua revista favorita e disse, no jantar que assinalou o trigésimo aniversário da publicação, que a «National Review [era]para os escritórios da Ala Oeste da Casa Branca o que a revista People [era] para a sala de espera do (…) dentista». E num editorial após o colapso da União Soviética, Buckley – Pretendo viver a minha vida como um homem obediente, mas obediente a Deus, subserviente à sabedoria dos meus antepassados; nunca à autoridade das verdades políticas alcançadas ontem nas urnas que já havia escrito, antes da eleição presidencial de 1980, que «Ronald Reagan é a figura mais importante produzida pelo movimento conservador da década de 1960» – demonstrou-se orgulhoso pelo facto de que «um dos nossos leitores [Reagan] se tenha tornado o líder do Mundo Livre, [exercendo] a voz crítica nas deliberações críticas dos anos 80».
Um legado que ainda importa
Não é possível percorrer a vida, o legado e a influência de uma figura como Buckley neste espaço. Sam Tanenhaus fê-lo em cerca de 800 páginas num trabalho que esteve em gestação durante vinte e sete anos. Das colunas, ensaios e – que tinham de elegante e erudito aquilo que tinham de acutilante, provocador e prolífico – às palestras e discursos, passando pelo programa de televisão – Firing Line – que foi para o ar semanalmente durante mais de trinta anos –, Buckley foi, a par de um agregador, um megafone da essência conservadora. E hoje, num momento em que a direita teima em fraturar-se e em imiscuir-se em movimentos duvidosos, o legado de William F. Buckley, Jr. importa. E talvez mais que nunca.