terça-feira, 10 fev. 2026

Um livro que corre como um rio

‘Afasta a sede de livros’, dizia Marco Aurélio. Decididamente Magris não segue este conselho.

Nunca, até à leitura de Danúbio, de Claudio Magris, me havia ocorrido tal ideia: um livro é como um rio, uma torrente não de água, mas de letras e palavras, que flui em direção ao leitor.

A nascente é obviamente a caneta (curioso como os anglo-saxónicos chamam fountain pen às canetas de tinta permanente) ou até, a montante, a mente lá no alto de onde as frases vão brotando. O leito são as páginas do livro, que até possuem margens e tudo. O rio pode ter afluentes – por exemplo, autores que já se debruçaram sobre o assunto – que lhe engrossam o caudal.

E, como todos os rios, também este desagua num mar imenso, o das livrarias e da cultura escrita, onde se mistura com milhões de outros textos. Uma gota no oceano.

Esta metáfora hidrográfica parece-me especialmente adequada ao livro de Magris, que tem a riqueza e a vitalidade de um curso de água generoso e fecundo. Correndo de forma ora mais lenta, ora mais acelerada, sempre serena, produz uma agradável música de fundo e vai desenhando um percurso idiossincrático cheio de curvas caprichosas e de desvios.

Aqui chegados, convém esclarecer que Danúbio não é um livro de viagens. (Só muito adiantados na leitura, por exemplo, descobrimos que o autor viaja de carro, ao contrário do que seria de esperar tratando-se de um livro sobre um rio). E, porque falámos em desvios, Magris nunca disfarça a sua inclinação para a literatura pura e dura. Prova disso é a velocidade estonteante a que consegue disparar nomes de escritores.

Enquanto alguns desses nomes são familiares – o inimitável Kafka, o poeta romeno Paul Celan, o filósofo húngaro György Lukács, o ensaísta búlgaro Elias Canetti –, outros são perfeitos desconhecidos para o simples ‘amador’, que a páginas tantas começa a desconfiar que muitos deles não passam de modestos escritores de segunda ou terceira linha, algo que nem o próprio Magris desmente.

Abrindo uma página aleatoriamente, encontramos Ionesco e Beckett, os dois expoentes do teatro do absurdo, mas também Bartholomeus I, «um dos senhores das letras [...] que ditam leis», «o grande poeta revolucionário Tudor Arghezi», Nina Cassian, Marin Sorescu, Israil Bercovici e Mihai Cosma – este último um dadaísta que definiu lapidarmente a literatura como «o melhor papel higiénico do século»... Que eu saiba, nenhum deles está traduzido em português.

Marco Aurélio, o imperador-filósofo que morreu em Vindobona, atual Viena, a cidade nas margens do Danúbio onde cerca de 1700 anos depois Johann Strauss II viria a compor a valsa ‘Danúbio Azul’, recomendava: «Afasta antes com brevidade a sede de livros, se não queres chegar à morte a murmurar...».         

Decididamente Magris não segue este conselho. Mas, se multiplica as referências a títulos e a autores, não o faz por erudição pedante ou exibicionismo, que ele aliás tão bem denuncia. Fá-lo antes porque é um leitor ávido, que não consegue, nem quer, dizer não a um livro. E que não resiste depois a partilhá-lo connosco.