quarta-feira, 14 jan. 2026

Rui Pedro Bairrada: “Não é preciso um curso superior ou falar inglês. Se quisermos muito, conseguimos”

O Doutor Finanças nasceu, cresceu, passou também por fases menos boas mas continua de pé a fazer aquilo que o seu criador sempre desejou: ajudar as pessoas.
Rui Pedro Bairrada: “Não é preciso um curso superior ou falar inglês. Se quisermos muito, conseguimos”

Não quis estudar mas estar parado não era opção. Começou como estafeta de um grande banco e por lá ficou 12 anos. Um ‘não’ ouvido na altura certa foi o gatilho para criar a sua própria empresa. O Doutor Finanças nasceu, cresceu, passou também por fases menos boas mas continua de pé a fazer aquilo que o seu criador sempre desejou: ajudar as pessoas. Agora, deixou o cargo de CEO para passar a chairman e escreve, na primeira pessoa, a segunda edição do seu livro, com o nome De Estafeta a CEO e de CEO a Chairman onde aborda temas de liderança e propósito. E não tem dúvidas: ‘Sonhar alto custa o mesmo que sonhar baixo’.

Em 1995 era estafeta de bancos e lavava carros. Que recordações traz dessa vida? Nessa altura, já tinha uma visão ambiciosa para o seu futuro? Na altura, ainda não. A única coisa que tinha em mente era que não queria estudar.  Não tinha muito jeito para estudar e aos 18 anos resolvi ir trabalhar. Nessa altura, o emprego que arranjei era ser estafeta no Deutsche Bank por duas semanas. Foi aí que comecei a minha carreira profissional. Fui fazer duas semanas e fiquei 12 anos. Uma das funções que tinha na altura, além de outras, era distribuir correio, andar pelo edifício a perguntar se as pessoas precisavam de ajuda e fazer arquivo. O auge era quando saía da garagem e ia pôr os carros dos administradores a lavar numa garagem e depois ir buscá-los. No início tentei arranjar alguma coisa que substituísse aquilo que não queria que era estudar.

Como surgiu a ideia de lançar o Doutor Finanças?

Foi muitos anos depois. Durante os 12 anos que estive no Deutsche Bank fui subindo: contabilidade, depois para o contencioso, mais tarde para a área comercial. Aos 30 anos desafiaram-me para ir para a área de private banking que é o sonho de quem trabalha nos bancos, mas o meu diretor, na altura, disse que não tinha capacidade para aquela função. Isso foi o gatilho. Aos 30 anos despedi-me e abri a minha primeira empresa. Nos últimos anos do Deutsche Bank apaixonei-me pelos dois grandes amores da minha vida até hoje: o crédito habitação – hoje, o Doutor Finanças fatura 24 milhões de euros, grande parte desse montante é ajudar as pessoas no crédito à habitação – e a minha mulher que era advogada do banco. Já estamos casados há mais de 20 anos e quando abri a minha primeira empresa foi para ajudar as pessoas a encontrar o melhor crédito à habitação. Já na altura, era um intermediário de crédito.

Na altura, sentia que havia dificuldade por parte das pessoas em terem acesso ao crédito ou por terem dificuldade em escolher, ou por não perceberam as implicações de assinar um crédito?

Sim, já nessa altura havia muitas ofertas e as pessoas não tinham conhecimento. Passados estes anos todos – já são 18 – as pessoas continuam sem ter conhecimento. Tentamos todos os dias ajudar, mas, em termos de literacia financeira estamos claramente na cauda da Europa. Nessa altura, vi que havia um mercado porque havia pessoas com muitas dúvidas e o que fazíamos era uma coisa mais ou menos nova que é ter alguém entre o banco e o cliente para tentar ajudar a desmistificar, para ajudar a escolher quais eram as melhores condições. Fazia sentido, como faz hoje. Quando veio a crise da Troika deixou de haver crédito em Portugal e, nessa altura, tivemos que nos reinventar. Gosto sempre de olhar para o copo meio cheio: ‘Agora não há crédito, o que é vamos fazer?’. Pensámos: E se reestruturássemos créditos? Estava imensa gente a ir para insolvência, estava toda a gente com penhoras de vencimento e tivemos uma ideia inovadora. E se pegássemos nas dívidas que as pessoas têm – em média uma família tem sete créditos, ainda hoje é assim, não mudou – e fôssemos tentar reestruturá-las de modo a que as famílias conseguissem pagar?  Nessa altura, também tivemos a sorte de haver empresas que se começaram a querer responsabilizar pelos colaboradores. Um desses casos era a Jerónimo Martins que criou um fundo de emergência social para ajudar em três vertentes: alimentação, mais ou menos óbvia e dava um cartão para irem ao supermercado. Saúde, menos óbvia, mas começou a ter médicos para as pessoas não terem esse custo. E uma coisa completamente inovadora: quis ajudar as pessoas na parte financeira. Contratou-nos para ajudarmos os colaboradores a conseguirem reestruturar as suas dívidas, de modo a conseguirem pagar as suas responsabilidades. Também a Câmara de Cascais chamou-nos para ajudarmos também os colaboradores. Acabámos por registar a marcar e o nome ajudou imenso e começámos a pensar como é que podíamos fazer. Na alturas já escrevíamos algumas coisas, pouco ainda, mas começámos a fazer cada vez mais conteúdos e a desmistificá-los.  Hoje em dia, qualquer pessoa que recorra ao Doutor de Finanças sabe que pode fazer um check-up, um diagnóstico, nós fazemos uma prescrição e um tratamento. É mais fácil as pessoas perceberem esta linguagem, que é muito mais comum do que o ‘financês’. E como percebemos que através dos conteúdos conseguíamos chegar a clientes começámos a investir cada vez mais nessa área. Quem não conhece o simulador do salário líquido, etc.?

Quando sai do Deutsche Bank e lança a empresa nunca pensou que esse risco podia ter corrido mal?

Sim. Mas, pelo menos, olho para a vida assim: quando há alguma adversidade surgem as melhores oportunidades. E ou ficamos com as coisas más e deixamos ir com elas, ou então tentamos encontrar uma solução que acrescente valor de uma outra forma. Tem sido um bocadinho isso que temos feito ao longo da vida, o mesmo acontece com o crédito à habitação. Às vezes, as taxas sobem, ninguém compra casa e aí ajudamos a transferir o crédito para ficarem com melhores condições. Agora está toda a gente a tentar comprar casa, as taxas estão mais baixas e ajudamos pessoas a encontrar o melhor crédito à habitação. Cabe-nos a nós e a quem é empreendedor ter sempre esse mindset, até porque tem mais responsabilidades com as pessoas.

Disse que a literacia financeira era uma falha dos portugueses. Em 18 anos, os portugueses já aprenderam a poupar, a perceber o recurso ao crédito, etc.?

Infelizmente não, gostava de dizer que sim. Em 19 países, só está a Roménia abaixo de nós. Precisamos de mudar o nosso mindset em relação ao dinheiro, enquanto sociedade, enquanto pessoas. Acho que este é um desafio mais nosso do que das escolas ou do Governo.

Há quem defenda aulas de literacia financeira nas escolas...

Há, mas depois temos de as pôr em prática e como os programas escolares são tão intensos e têm tanta matéria é muito difícil introduzir estes temas. Até porque existe um desafio gigante em Portugal, porque todos olhamos para o dinheiro como uma coisa má. O dinheiro é um tabu, não falamos sobre o dinheiro. Portanto, é difícil pedirmos aos professores que não falam em dinheiro falar sobre o dinheiro com as crianças. Costumo dizer nas palestras que quando falamos de dinheiro temos de pôr um sorriso, porque o dinheiro é uma coisa boa, é uma coisa que nos ajuda a concretizar os nossos objetivos e os nossos sonhos. Temos de começar, cada vez mais, a falar sobre isso, a falar sobre salários, a falar sobre tudo o que tem a ver com o dinheiro. Enquanto vivermos numa bolha, em que o dinheiro é uma coisa que não podemos falar, quase que somos condenados por falar nisso continuaremos a ter um desafio gigante em termos de literacia financeira. É preciso mudar este mindset, é preciso as pessoas perceberem que o dinheiro é uma coisa muito importante na vida delas e que quanto mais conhecimento tivermos sobre ele, quanto mais investirmos nas nossas finanças pessoais e quanto mais ferramentas tivermos, melhor será a nossa vida. Quase ninguém faz um orçamento familiar, quase toda a gente faz a sua gestão financeira por multibanco e depois quando levanta 20 euros, a seguir pergunta: ‘Para onde foi o meu dinheiro?’ e não faz nada a seguir para perceber para onde foi. É nas coisas mais simples que podemos mudar e em coisas mais básicas como saber para onde vai o nosso dinheiro para depois começarmos todos a ganhar consciência para tomar decisões mais racionais e menos emocionais, ao contrário do que acontece na maior parte das vezes. Há um longo caminho ainda para fazer. Hoje há mais informação, como é óbvio, mas ainda não chega.

Em relação ao crédito já é visto como uma solução ‘saudável’ ou há quem use e abuse e, por vezes, corre o risco de não conseguir pagar o financiamento?

Para quem tem mais literacia de dinheiro, o crédito é uma coisa boa. Ajuda-nos a concretizar coisas que seria impossível, quando é utilizado para nos ajudar a cumprir os nossos sonhos: para estudar, para ter um carro para trabalhar porque temos vidas que sem ele não teríamos. Depois há o crédito chamado mais fácil, que é um crédito mais emocional e muito pouco racional e que tem a ver com o mediatismo. É a ideia do quero ter já, quero comprar já,  não quero esperar, não quero poupar, quero ir de férias já e aí também temos um desafio, muito por falta de literacia financeira, de as pessoas não fazerem as contas. Por exemplo, tenho dois filhos, sei que vou ter de comprar os livros para a escola, sei que é em outubro, custam 300 euros. Então, se pusesse durante 10 meses, 30 euros de lado chegava lá. No entanto, a maior parte das pessoas não poupam, dizem que não conseguem poupar, utilizam o cartão de crédito para comprar os livros e no mês a seguir começam a pagar 50 euros. São os 30 que não poupam, mais 20 euros de juros. Conceptualmente, não faz sentido. A maior parte dos portugueses são bons pagadores e, como tal, vão pagar mais do que aquilo que dizem que não conseguiam poupar por mês.

A justificação de os salários curtos e de não terem margem de manobra para poupar ao final do mês é um argumento válido?

Sou sempre empático com as pessoas que dizem isso. Quem sou eu para não ser empático? Agora, acho que há formas de alterarmos essa circunstância. Se olharmos para os números vimos que as pessoas que mais poupam em Portugal são as que ganham menos, não são as que ganham muito. Quem se habitua a viver com pouco, poupa. Depois temos algumas pequenas estratégias que podemos fazer. Imaginando que recebo mil euros, se todos os meses fizer uma transferência permanente de 20 euros para outra conta é uma forma de poupar. O que é que faz a maior parte dos portugueses? Recebe o ordenado, distribui para os mais ricos: água, luz, bancos e depois, se sobrar algum, logo fica para mim. Se invertermos isto e se no início do mês pagarmos a nós próprios e se metermos 20 euros ou seja o que for, a nossa vida vai ser igualzinha. Em vez de mil temos 980 e o nosso mês vai ser igualzinho. Só que criámos o hábito de pôr o dinheiro de lado e começar a acumular. Há pequenas estratégias que nos podem ajudar e não tem a ver com o valor, pode ser cinco euros, 10, 20, 30 e, à medida que vamos evoluindo, vamos colocando mais, mas temos claramente de fazer isso. Seja muito ou seja pouco, temos de começar a criar esse hábito porque depois vão surgir desafios. A nossa vida é muito irrequieta e estão sempre a surgir imprevistos.

Aqueles desafios das 52 semanas, aquelas poupanças programadas, não podem ajudar um bocadinho também a aumentar a taxa de poupança?

Podem, claro. Quanto mais estratégias fizermos, melhor. O problema é que continua a faltar o básico. Podemos fazer todos esses desafios de poupança mas enquanto não tomarmos conta da nossa vida financeira, é difícil introduzir seja qual for o exercício. E isso passa por tomar consciência de onde é que efetivamente gastamos o nosso dinheiro. As pessoas não têm a mínima noção da gestão. Não têm mesmo a mínima noção. Só depende da pessoa, não precisa ser aumentada ou o que quer que seja. Quando há uma tomada de consciência sobre os meus gastos, então posso tomar decisões sobre ele. Um exemplo que acontece imensas vezes são os seguros de saúde. Há uns tempos apareceu cá um casal que tinha 50 anos. Estávamos a olhar para os seguros e eu perguntei à senhora se estava a pensar ter filhos. E ela respondeu que há 15 anos que tinha decidido não ter filhos. Ainda assim, estava a pagar a cobertura mais cara no seguro de saúde, que é para o parto. Se não questionarmos os gastos vamos estar o resto da vida a pagar. Este casal ia estar o resto da vida a pagar uma coisa que já decidiu que não ia acontecer. Isto porque não questionaram. O mesmo acontece com o crédito habitação.

Às vezes até o próprio seguro automóvel...

Aí também. O nosso extrato é tão mágico, acontecem tantas coisas lá, que se não questionarmos, não conseguimos, é impossível.

Passou de estafeta a CEO e agora decide ser chairman. Por que toma esta decisão? O que lhe custou mais?

A decisão é tomada no ano passado. Nos últimos dois anos já vinha a ponderar. O Doutor Finanças foi crescendo de forma muito emocional, sou muito emocional. A gerir, giro com o coração. Não tenho formação superior. Foi crescendo e achei que estava na altura. Não havia volta a dar. Ponderei se era a pessoa certa para ir levar o Doutor Finanças para o próximo patamar e cheguei à conclusão que não, que não era eu a pessoa certa. Então, entrei num processo de procura, quem é que me podia substituir. Tinha vindo a criar várias áreas, tinha já 12 pessoas na Comissão Executiva a reportar a mim, desde de negócios, fintech, marketing, tinha todas as áreas. Foi também uma forma de reorganizar a estrutura do Doutor Finanças, a forma de liderança. E, mais uma vez, fomos um bocadinho inovadores em Portugal e, em vez de um, fui buscar dois co-CEOs para os dois assumirem a gestão do Doutor Finanças. E também renovámos a ambição. O Doutor Finanças tem a expectativa de, nos próximos anos, ser mais um unicórnio em Portugal, nos próximos sete a dez anos.

É esse tal próximo patamar que falou?

Sim. Renovada a ambição é preciso dar mais estrutura, trazer outro tipo de conhecimento, fazer outro tipo de estrutura, ir buscar pessoas que agregassem, que viessem acrescentar valor. E estava na altura de deixar mais a gestão e passar mais a olhar para a floresta. Foi desafiante e continua a ser desafiante. É desafiante libertar-me do desapego de uma coisa que criámos. É um grande desafio mas não me arrependo nada.

Tem mais tempo livre ou é uma ilusão?

Neste momento tenho mais tempo livre, efetivamente. Enquanto CEO não tinha e agora tenho mais tempo para fazer outras coisas que, também para mim, depois de empreender e ter fundado uma empresa que nasceu em 2014 com cinco pessoas e hoje tem mais de 800, era importante para mim fazer coisas diferentes, voltar a casa. Tenho três filhos e eles não sabiam que tinham pai. Entre aspas, claro. Era importante para mim voltar a casa, voltar a ter tempo para fazer outras coisas, renovar o propósito. Uma coisa que é muito prazerosa para mim é andar pelo país a tentar inspirar as pessoas a sair fora da zona de conforto. Não é preciso ter curso superior ou falar inglês, por exemplo. Se quisermos muito, também conseguimos.

Mas ainda há muito o mito que a falta de formação superior é um impeditivo para desenvolver determinado tipo de projeto...

Há, é verdade. Mas sou a prova viva de que não é preciso. Os objetivos são sempre inatingíveis até alguém os atingir. Neste caso é um bocadinho isso. Acho que é um bocadinho da minha missão também, hoje em dia, passar essa mensagem. Deixar algum legado nessa vertente.

É para isso que escreve o livro...

É para isso que escrevo o livro. Sou desafiado há dois anos para contar a história e agora é o fecho do ciclo, passados dois anos e meio fecho um bocadinho este ciclo de liderança desde estafeta e tentar, de alguma forma, que a minha história inspire outras pessoas a saírem da zona de conforto e a acreditar que é possível sonhar. Digo essa frase no livro: sonhar alto custa o mesmo que sonhar baixo. Em Portugal ainda sonhamos muito baixinho. Achamos sempre que não conseguimos atingir, que há uma determinada coisa que é só para os outros por isto ou por aquilo.

Deve-se a falta de ambição? Falta de coragem?

Sim, falta de sair da nossa zona de conforto.

Medo do risco, somos comodistas...

Somos adversos. Temos muita dificuldade em procurar uma coisa diferente, temos muita dificuldade em fazer processos colaborativos, somos mais individualistas. Construí o Doutor Finanças porque fui buscar um conjunto de pessoas para me ajudarem a construir o Doutor Finanças que tinham mais capacidade do que eu nas várias áreas que não percebia. Tive esta humildade de assumir que não tenho capacidade mas que posso ir buscar outras pessoas para me ajudar, em conjunto, a construir alguma coisa maior, com um propósito maior.

Seriam esses conselhos que daria a um jovem que lhe dissesse que quer ser CEO...

Sim. Dizia-lhe para pegar numa folha em branco e que escrevesse tudo o que não sabe fazer. A seguir vai contratar alguém que colmate aquilo que ele não sabe fazer. Isso é o início de tudo para quem quer empreender, para quem quer abrir o seu negócio. Que nunca o faça sozinho. Sozinho é um processo muito solitário.

E humanamente impossível perceber tudo. Há sempre uma área ou outra que falha...

Claro que sim. Aprendi uma coisa em estafeta e depois durante a carreira: quanto mais depressa fizesse as tarefas que não gosto, mais tempo tinha disponível para fazer as que gosto. E isto está tudo ao contrário. Olhamos hoje em dia e vemos as pessoas a perderem muito tempo a fazer o que não gostam e depois sobra muito pouco tempo para fazer o que realmente gostam. Se conseguíssemos mudar um bocadinho este mindset, um processo mais colaborativo e nos organizarmos de forma colaborativa a conseguir criar coisas e acrescentar valor, na minha opinião é o que faz mais sentido.

Disse que a ambição é tornar o Doutor Finanças num unicórnio. Quando é que podemos ter novidades?

Temos a expectativa nos próximos 10 anos. O exercício é simples: um unicórnio é uma palavra que usamos hoje. Se em dez anos, a começar do zero, conseguimos pôr o Doutor Finanças como livebrand, – todos os portugueses hoje conhecem, hoje em dia temos mais de dois milhões de pessoas a utilizar o portal do Doutor Finanças por mês – se conseguimos fazer isto tudo e a crescer aos bocadinhos, com esta equipa de hoje, sonhar alto custa exatamente o mesmo que sonhar baixo. Acho que vamos conseguir concretizar isso.

E tem o desejo de criar uma fundação. O que tem em mente?

É o meu próximo patamar. Temos o sonho do Doutor Finanças e depois temos o sonho do Rui Bairrada, o fundador do Doutor Finanças. E gostava que, daqui a uns anos, mais ou menos nesse período de tempo também, que a minha próxima meta fosse abrir uma fundação em meu nome e da minha mulher e continuar de uma outra forma, mais em meu nome pessoal e não tão organizacional e continuar a ajudar pessoas que é aquilo que me faz brilhar os olhos todos os dias.

Em 2014 começou com cinco pessoas. Ainda continuam cá?

Três delas. Em 2017 fizemos um spin off, quando tive um burnout. Em 2017 decidi que não estava feliz na empresa que tinha criado com os meus sócios na altura. Decidi sair e nessa altura 92% das pessoas despediram-se também. Isso pôs um peso grande em cima dos meus ombros na altura e acabei por negociar com os outros sócios e acabámos por comprar as quotas dos outros e há um Doutor Finanças a partir de 2017 e só nessa altura, aos 40 anos, que me assumo como CEO. Mas também sou muito grato ao burnout que tive, foi graças a ele que assumi que, se calhar, tinha alguma capacidade para liderar a empresa e só nessa altura é que isso acontece.

Pensou desistir?

Desistir não, fazer uma coisa diferente. Não estava feliz e também acho que falta um bocadinho isso: muitos de nós não estamos felizes ou não estamos satisfeitos e continuamos. E isso causa desgaste. Acho que devemos correr atrás daquilo que nos faz felizes. Na altura, a decisão era minha, da Raquel, lá de casa. Tínhamos a nossa vida organizada e a decisão era consciente, ia fazer outras coisas. Só que o facto de grande parte das pessoas querer sair também, trouxe uma camada de proteção, de fazer alguma coisa para proteger todos. E foi uma coisa boa. O que me levou ao burnout foi o que me tirou do burnout.

Dores de crescimento por ver a empresa a crescer muito ou não estarem todos de acordo?

Nessa altura, não. Tinha a ver com maneiras de olhar para a vida de formas diferentes. Sou mais emocional, mais de olhar para as pessoas. Acho que o dinheiro é uma consequência de alguma coisa que nós fazemos. Uma forma mais romântica de olhar para o mundo dos negócios. Havia alguns desalinhamentos na altura em relação a isso e está tudo bem. A vida é feita de escolhas e nessa altura entrámos nesse processo e o Doutor Finanças hoje é o que é também devido ao que aconteceu em 2017.

Arrepende-se de alguma coisa?

Não.

Faria tudo exatamente igual? O Deutsche Bank era e é uma grande instituição financeira...

Há alguns momentos chave na minha vida que olho para eles como pontos fundamentais que hoje, ao olhar para trás, na altura poderiam parecer as piores decisões da minha vida mas que é certo é que me ajudaram imenso a crescer e que me tornaram na pessoa que sou hoje. Aos 18 anos ter desistido de estudar e de ir trabalhar, aos 30 ter aberto a minha primeira empresa, aos 40 ter passado a CEO depois de um processo e agora aos 48 ter largado a gestão do Doutor Finanças, uma coisa que criei, e dar espaço a outros para poderem crescer.

Mas é tudo muito bem pensado ou vão surgindo as oportunidades para tomar essas decisões?

Vão surgindo as oportunidades e vou tomando as decisões.

Não define por patamares...

Decidi no ano passado que queria sair e saí. À medida que as coisas vão acontecendo temos que ter a capacidade de perceber o contexto, perceber o que é que é melhor para nós. Hoje olho para trás e vejo que o facto de me ter desapegado do ego de ser CEO que dá imensos likes, televisão e essas coisas todas, só o facto de ter feito isso, fez com que duas pessoas que crescessem, todas as pessoas cresceram. O Nuno e a Vanda saíram dos sítios onde estavam e passaram a CEOs do Doutor Finanças, as pessoas que estavam nos sítios abaixo também cresceram. Sempre que alguém liberta, os outros todos crescem. Enquanto ninguém libertar...

Às vezes há resistência em libertarem-se do poder...

Sim. Acho que ainda há muito. Mas cada vez está a aparecer mais pessoas cada vez mais novas que se desapegam e isso é bom que dá espaço para os outros. Agora íamos estar até aos 70 anos mesmo não tendo capacidade só pelo estatuto... Eu decidi aos 48 anos ter uma vida diferente. Já fizemos o nosso papel e podemos ter outro papel na sociedade, ter uma voz mais ativa para, de alguma forma poder ajudar ou influenciar o que quer que seja. E por que não quem tem alguma voz também poder utilizar isso em prol da sociedade. Não na política, que para aí não vou, mas há muitas formas de podermos continuar a acrescentar valor e a ajudar.