Éimpossível ignorar o ritmo de transformação da Arábia Saudita. Antes um reino inacessível e nem sempre com a melhor reputação internacional, é difícil encontrar-se outro lugar no mundo no mesmo lugar onde está no mundo. (Entre)tanto por onde começar, começo pelo charme nostálgico de Al-Balad, bairro histórico na lista de Património da Unesco em reabilitação para seduzir novos negócios e turistas; e pela animada Corniche, onde o Mar Vermelho faz companhia às famílias nos passeios ao final da tarde; começo por aqui e por tentar entender a expressão local: Jeddah Ghair.
O claim não oficial da segunda maior cidade saudita “Jidá é diferente” fala desse concentrado de local equities que nos obriga a ler nas entrelinhas uma forma de ser e de viver difíceis de traduzir para quem acaba de chegar. É uma cidade moderna e cheia de tradições antigas, tem o lifestyle de destino popular para férias nas praias do Mar Vermelho e é a porta de entrada para Meca e Medina, tem uma criatividade endógena até quando se apresenta e fala de si ao mundo.
Falar desta nação não é um exercício simples, simplifico ao apropriar-me do discurso identitário de Jidá: a Arábia Saudita também é “Ghair”, e sim, “diferente” é dizer tudo e é não dizer nada, vou tentar que diga tudo, sendo a primeira visita e só de uma semana entre Riade, AlUla e Jidá. O que é pouco, com o tanto que está a acontecer neste reino.
Mesmo que nas últimas semanas tenha tido a atenção do mundo e dos media internacionais, o Reino da Arábia Saudita ainda não é um destino top of mind. Ainda, porque a ambição e o pensamento bold, está a mudar (quase) tudo. É um território de dimensão continental que abrange a maior parte da península arábica e com mais de 35 milhões de habitantes, o maior mercado do Médio Oriente, fechado a turistas até 2019. No imagético de muitos de nós, a curiosidade confundiu-se sempre com a falta de referências, vivendo da imagem de um enorme deserto rico (ou o mais rico de todos) em petróleo. Que também o é, mas não o é só.
Aterro em Riade, a capital, a cinco anos desse imaginado 2030 que, simbolicamente, consolida a nova Marca Nação Saudita. Em 2016, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman apresenta a “Visão 2030”, uma das mais ousadas estratégias de transformação de um país e com um objetivo principal: reduzir a dependência do petróleo (cerca de 60% das receitas do governo são provenientes da atividade petrolífera) e diversificar a economia com novos setores estratégicos no crescimento futuro.
A arquitetura de arranha-céus como a icónica Kingdom Centre Tower, os centros comerciais ultramodernos onde se compra os maiores nomes do luxo internacional, os restaurantes Michelin, as mais prestigiadas cadeias de hotéis do mundo, os grandes eventos culturais em cartaz ou na agenda como a Expo2030 (esperam-se cerca de 40 milhões de visitantes) ou o Mundial de Futebol em 2034 (um dos estádios foi projetado no topo de um arranha-céus) e até o trânsito nas principais avenidas a qualquer hora do dia, há momentos em que nos lembra cidades como o Dubai. Mas Riade é mais reservada ou mais discreta, ou ainda está a tentar perceber o quanto quer revelar de si. A imaginação (como lhe chamo), está a transformar a capital de uma nação até aqui vista como conservadora num hotspot turístico, o mundo (e a própria Arábia Saudita) só agora está a descobrir “O Coração da Arábia”.
O que começa por ser um desafio económico acaba por desafiar a imaginação do reino que assume o compromisso de se reinventar também social e culturalmente, com investimentos que vão do turismo à tecnologia, à educação ou à sustentabilidade. A “Visão 2030” promete mudanças e reformas, uma sociedade mais aberta, um país mais moderno, mais competitivo, com melhor qualidade de vida, onde se quer viver, trabalhar e investir. Encontro-o num estado particular, com o que já mudou, o que falta mudar e o que não quer mudar.
O futuro está, literalmente, em construção e in your face. Se falo de imaginação, é porque ela explica como em ilhas desabitadas do Mar Vermelho nascem hotéis como o futurista Shebara Resort, enquanto em Diriyah (berço da Arábia Saudita), ou em Hegra (que preserva a herança dos nabateus esculpida nas rochas), ainda se fazem escavações arqueológicas nesta recente valorização do património que passou a ser estratégico para a Marca Nação. E nesta construção de futuro, há um outro ativo valioso, uma população jovem. Segundo o 2024 Saudi Family Statistics Report – General Authority for Statistics, 71% dos cidadãos sauditas têm menos de 35 anos e a idade média é de 23,5 anos. No setor do turismo, sente-se a energia criativa das novas gerações.
Se há alguma make-up nisto tudo, provavelmente. Na Arábia Saudita, como noutros lugares. Mas há uma hospitalidade demasiado genuína, que nem uma campanha milionária de marketing conseguia encenar. Do incentivo ao empreendedorismo, surgem novos projetos e muitos no turismo, como a marca Hihome de Nourah Alsadoun, em diferentes cidades permite viver “experiências autênticas em lares sauditas”. Em Riade e em Jidá, escolho o Almoço e o Workshop de Cozinha Árabe, na expectativa de uma tourist trap. Dou por mim, a ver álbuns com fotografias antigas, a conhecer netos bebés e filhos que chegam do colégio, envolvida nas conversas à mesa, dou por mim, estranhamente, a sentir-me da família. O petróleo fez o país rico, mas a sua maior riqueza (por romântica que pareça) são as pessoas. Ou, no campeonato da empatia e numa equipa só de jornalistas espanhóis, Cristiano Ronaldo jogou, provavelmente, a meu favor…
A jogar no Al-Nassr, o internacional português é titular indiscutível na promoção desta nova imagem do país nos mercados internacionais. Até 2019, os vistos limitavam-se a viagens de negócios, visitas a familiares, diplomatas e às peregrinações a Meca. Com a nova Visão, as portas do reino abriram-se aos turistas, o objetivo inicial de atrair 70 milhões de visitantes por anos até 2030, sete anos antes chegava aos 100 milhões, a meta é agora de 150 milhões.
Se a impressionante paisagem desértica enquadrada nos penhascos de arenito de Ashar Valley e o design ecologicamente contemporâneo do luxuoso Banyan Tree não são suficientes para comunicar o país, basta Ronaldo entrar em campo e as fotografias partilhadas por Georgina numa das villas do resort mudam o rumo do jogo e AlUla garante um lugar no campeonato dos destinos mais procurados do mundo.
O futuro próximo vem com a mesma ambição, novos hotéis de luxo e mais 854 000 quartos até 2030; o novo Aeroporto Internacional Rei Salman em Riade para posicionar a capital como centro mundial para viagens e comércio; a criação de 1,6 milhões de empregos no setor; a decisão de alavancar os ativos naturais e culturais (como duplicar o património da Unesco e ser líder no turismo ambientalmente consciente com novos projetos no Mar Vermelho) para atrair diferentes segmentos de turistas; e estimular o investimento privado (e o turismo contribuir com mais de 10% no PIB ).
Camelos com botox nos lábios? Só na imaginação era apenas um deserto.
No voo entre Riade e AlUla, sobrevoa-se durante hora e meia as areias do deserto, os vales e montanhas como se a paisagem tivesse curadoria da própria natureza. Apenas uma hora depois de aterrar e já no Hotel Our Habitas, há muito que um lugar não me deixava num estado de dormência, mas pelo excesso de estímulos que chegam de todos os sentidos e todos ao mesmo tempo. Há expressões que não uso, “tirar o fôlego”, arrisco dizer que nunca a usei. Mas AlUla é de tirar o fôlego. Abana-nos. Tira-nos o fôlego e a mim até as palavras. Todas parecem poucas…
Do Mar Vermelho onde se mergulha em águas quentes azul-turquesa, se passeia de barco e se faz snorkeling entre os recifes de corais, às Terras Altas com as suas montanhas e florestas como cenário para caminhadas e aventuras de parapente, a Arábia Saudita não é só deserto, e, mesmo quando é deserto, é dos que têm sempre um “oásis” à espera de nos surpreender.
Conhecido pelas suas unidades em lugares incríveis, a marca Our Habitas investiu em AlUla, a cidade na antiga rota do incenso e das primeiras peregrinações a Meca e um hub de trocas culturais e comerciais durante milénios, num hotel que oferece “luxo para a alma, experiências que nos ligam à natureza, a nós próprios e aos outros”. As villas sustentáveis refletem um mundo em que se acredita querer viver; no duche exterior recordamos que à nossa volta temos um museu ao ar livre e Património da Unesco, no terraço há um telescópio para se contemplar o céu à noite, AlUla é um dos mais famosos anfiteatros naturais de stargazing do mundo.
Há desertos e depois há desertos. Neste há hotéis entre os mais luxuosos do Médio Oriente e uma rock pool, a piscina de pedra escondida entre dois rochedos imponentes, há monumentos naturais em formações rochosas com a Pedra do Elefante, património como os túmulos da antiga cidade Nabateia de Hegra e muitas vezes comparada a Petra, com a vantagem de se visitar sem uma multidão de turistas, e o impressionante Maraya, o maior edifício espelhado do mundo inaugurado em 2019 para a realização de eventos, um projeto de arquitetura que nos faz questionar, realidade ou só uma miragem?
A crescente reputação da Arábia Saudita como um dos destinos com maior notoriedade da atualidade, vai sendo reforçada: ocupa o primeiro lugar entre as nações do G20 no crescimento de chegadas de turistas internacionais, de acordo com a Organização Mundial de Turismo das Nações Unidas; Riade é uma das 20 melhores cidades do mundo para experiências gastronómicas segundo a Time Magazine; o regresso da Fórmula 1 e eventos como a EXPO2030 e o Mundial 2034, são claros sinais de confiança externa.
Quando nos disse que seria uma “uma sociedade que vibra, uma economia que prospera e uma nação ambiciosa”, se parte da mensagem ficou lost in translation, convém prestar atenção ao manifesto de futuro da Arábia Saudita.
Pode-se questionar tudo no modelo de governação ou de gestão do reino, mas aqui temos de concordar, a transição de um país movido a petróleo para um país movido com um propósito é real e não é para todos, é para quem pode… e a Arábia Saudita pode. Se pelo caminho lhe faltar imaginação (pouco provável), if you don’t know how, know where, e a imaginação é um soft skill que se procura, até porque, pode dar-se ao luxo de pagar.