No interior do império este exerce autoridade, “fora” poderão existir outros impérios ou, na tradições romana e chinesa, há lugar aos bárbaros.
A pertença ao império e o território imperial implicam a exclusão de outra autoridade ou, pelo menos, a possibilidade de exercício da autoridade imperial. A dimensão condicional do poder é, frequentemente, o bastante para que este seja reconhecido e outros poderes se não manifestem. A preferência imperial no exercício do poder deu origem a fórmulas sintéticas: doutrina Monroe (enunciada em 1823, no discurso do Estado da União, pelo Presidente homónimo: a América para os americanos, ou seja o combate a toda e qualquer forma de exercício de poder no continente americano por Estados europeus), a doutrina Truman (anunciada em 1947 pelo apoio político, militar e económico dos EUA a todos os Estados ameaçados pela URSS) e a doutrina Brejnev (enunciada em 1968 como prerrogativa do uso da força pela URSS em todo e qualquer Estado do Leste europeu contra ameaças aos objectivos políticos de Moscovo).
As diversas doutrinas imperiais pressupunham um reconhecimento tácito das fronteiras dos diversos impérios. Durante a guerra fria EUA e URSS respeitaram, tant bien que mal, os resultados da Conferência de Yalta, não questionando Washington a flexibilidade com que os soviéticos interpretaram o conceito de “eleições livres” na Europa central e de leste, eleições das quais emergiram governos comunistas de inspiração soviética. Nestes Estados este acomodar do expansionismo de Moscovo é conhecido como “Traição Ocidental” cometida pelo Reino Unido, França e EUA antes, durante e depois da segunda guerra mundial contra, pelo menos, checos, eslovacos e polacos.
O fim da guerra fria não teve uma Conferência de Yalta e a arquitectura de segurança da Europa foi construída com base na expansão da NATO a leste, sem qualquer limite acordado. Esta é, no entendimento de Putin, a principal justificação para a invasão da Ucrânia em 2022. Três anos depois, a defesa da Europa foi entregue por Trump aos europeus que se descobriram incapazes, mesmo a médio prazo, de se auto-defenderem. Trump manteve a disponibilidade para alimentar a Ucrânia em armas e munições desde que pagas pelos europeus. A partilha pelos EUA de informação militar sensível (ataques russos e alvos na Rússia) continua mas pode cessar a todo o tempo, deixando a Ucrânia em muito piores lençóis.
No final de 2025 estão em curso negociações ou, mais modestamente, “ajustamentos” entre os três impérios: Rússia, EUA e China. O reconhecimento mútuo das respectivas esferas de influência está a acontecer perante os nossos olhos. Moscovo quer uma Ucrânia parcialmente ocupada, desarmada e neutralizada, Washington quer gerir o petróleo da Venezuela e mudar o regime chavista, Pequim quer uma data para a inclusão de Taiwan na mãe pátria e uma nacionalização de vastas parcelas de alto mar.
Estes ajustamentos poderão demorar algum tempo a ser concluídos. Para além dos interesses egoísticos de cada um dos impérios, há uma causa comum: reduzir a União Europeia a um mero mercado interno, sem expressão em matéria de política externa e de defesa, aí se incluindo o comércio externo. Neste propósito os três impérios contam com a prestimosa ajuda dos europeus e das suas lideranças, todas elas eleitas com o maior respeito pelos pergaminhos democráticos.