quarta-feira, 11 fev. 2026

Menino Jesus “zombie” roubado em Bruxelas gera polémica nacional. Político compara presépio a "estação de comboios"

Figura do Menino Jesus sem rosto desaparece misteriosamente da Grand Place na capital belga, após vaga de críticas nas redes sociais. Artista católica defende obra, enquanto líder partidário ataca "espírito anti-Natal".
Menino Jesus “zombie” roubado em Bruxelas gera polémica nacional. Político compara presépio a "estação de comboios"

As autoridades belgas foram surpreendidas com o desaparecimento da figura do Menino Jesus de um presépio de Natal montado na icónica Grand Place de Bruxelas. O roubo ocorreu entre a noite de sexta-feira e a madrugada de sábado, numa altura em que a instalação natalícia se tornara viral nas redes sociais, pelos piores motivos.

A figura roubada faz parte de um presépio que tem gerado uma autêntica tempestade mediática: todas as personagens foram criadas sem olhos, nariz ou boca, numa escolha artística que dividiu opiniões e inflamou o debate público.

"Zombies de estação de comboios": a acusação que incendiou as redes

Georges-Louis Bouchez, presidente do partido de centro-direita MR, que integra a coligação governamental belga, não poupou palavras ao criticar duramente a obra da artista Victoria-Maria Geyer numa publicação na rede social X.

"Isto não representa de forma alguma o espírito do Natal", afirmou Bouchez, comparando as figuras a pessoas "semelhantes a zombies" que se encontram nas estações ferroviárias.

https://twitter.com/GLBouchez/status/1995037842276274197

A declaração provocou uma avalanche de comentários e partilhas, transformando o presépio num dos temas mais controversos da época festiva na Bélgica.

Artista devota defende inclusão universal através da arte

Victoria-Maria Geyer, que se assume como católica devota, criou as figuras em tecido com uma intenção específica: permitir que fiéis de todo o mundo se revejam na representação natalícia.

"Cada católico, independentemente da sua origem ou contexto, pode identificar-se com a história bíblica do nascimento de Cristo", explicou a artista, citada pela imprensa belga, defendendo que a ausência de traços faciais específicos promove a universalidade da mensagem cristã.

A sua obra foi selecionada tanto pela igreja católica local como pela Câmara de Bruxelas, numa tradição anual que procura inovar na apresentação do presépio na capital europeia.

Milhões de visitantes confrontados com polémica natalícia

O mercado de Natal de Bruxelas atrai anualmente mais de quatro milhões de visitantes ao centro histórico da cidade, que acorrem para saborear vinho quente e chocolate, percorrer os 238 vendedores de brinquedos, roupa e decorações festivas.

No centro da praça ergue-se uma imponente árvore de Natal que domina uma simples tenda branca, onde se encontra o presépio que se tornou centro de controvérsia nacional.

Delphine Romanus, subdirectora da Brussels Major Events (entidade que gere o presépio e o mercado), confirmou que as primeiras notícias sobre uma alegada decapitação da figura eram falsas. Contudo, admitiu que, em anos anteriores, outras figuras do Menino Jesus já tinham sido partidas ou roubadas.

Vandalismo artístico ou legítima indignação?

As autoridades já substituíram a figura roubada por uma nova, e tanto os organizadores como a segurança garantem maior vigilância sobre a instalação. Apesar disso, não foram implementadas medidas de segurança adicionais.

Francis De Laveleye, residente em Bruxelas, observou a nova figura com desalento: "O que é intolerável é que as pessoas ataquem o trabalho de uma artista para o danificar e transformá-lo numa estúpida pequena controvérsia que ridiculariza Bruxelas."

Curiosamente, Geyer revela que a onda inicial de comentários negativos nas redes sociais acabou por ser revertida, com crescente apoio à sua visão artística.

Entre fé, arte e política: o Natal que divide a Bélgica

Este episódio levanta questões sobre os limites da liberdade artística em contextos religiosos e o papel das redes sociais na amplificação de polémicas. Enquanto uns veem na obra uma perigosa descaracterização da tradição cristã, outros aplaudem a tentativa de criar uma representação mais inclusiva e universal do Natal.

O Menino Jesus pode ter regressado ao presépio da Grand Place, mas o debate sobre o que constitui o "verdadeiro espírito natalício" está longe de terminar nas ruas, nas televisões e, claro, nas redes sociais.